Houve uma vez um verão que fervia mesmo era no ar-condicionado. Um misto de Studio 54 com Sapucaí, o Bar d’Hotel abriu as portas no Leblon na virada do milênio e chacoalhou a noite carioca. Vindas de São Paulo, Danielle Dahoui e Danni Camilo invadiram a nossa praia e fizeram daquele trecho da orla o mais disputado da temporada. Em pouco tempo, elas transformaram o lugar em destino certo de quem fazia a cidade acontecer na virada do milênio. E se nessa época o Hotel Marina ainda acendia, o Mariana All Suites brilhava. O ano não vira: De copo na mão, a gente atravessa História, cerveja e axé: do samba no Renascença à batidinha no Bar do Momo, um roteiro para aproveitar os encantos do Rio no verão O conceito de frequentar um bar que ficava dentro de um hotel era novidade por aqui. Aliás, quase tudo ali era novidade por aqui. Tinha quem fosse lá para jantar, tomar um drinque ou só dar pinta mesmo. Ninguém olhava de cara feia se você consumisse pouco, muito ou nada. Por trás disso, um time com olhar treinado mesmo quando hospitalidade era só uma palavra perdida no dicionário. Quando chegava muita gente ao mesmo tempo, o próprio recepcionista tratava de fazer como Marc Benecke, da lendária casa noturna nova-iorquina, e dizer os que podiam ou não subir. Quem batia ponto por lá tinha acesso livre, só que pelas escadas. Parada obrigatória para se atualizar dos últimos acontecimentos. De um jeito ou de outro, todo mundo chegava ao universo fantástico criado pela arquiteta Beatrice Goldfeld. Cores de Almodóvar, móveis desencontrados, sofás nas mesas de jantar, cadeiras coloridas, um relógio de parede marcando eternamente 10h10 como nos comerciais e um jogo de espelhos no teto que permitia fuxicar um pouco o que acontecia nas outras mesas de rabo de olho. Toalha branca? Nem pensar. Se fosse hoje, dois pontos seriam lugares certos de selfie: o painel escandaloso pintado por Isabelle Tuchband e a Barbie e o Ken pendurados nas portas dos banheiros que viraram mascotes. Figuras meramente ilustrativas num toalete unissex por essência. Na outra ponta do salão, atrás de um balcão translúcido e imponente até para os padrões atuais, estava Luiz Careca. Corpulento, tatuado e com alargadores na orelha. Figura emblemática da noite carioca e uma das mais doces também. Foi ele quem aplicou muita gente no Cosmopolitan. Rosinha por conta do suco de cranberry e servida numa taça martíni, a bebida ficou badalada nos anos 1990 por ser o drinque preferido da Madonna e, anos depois, se tornou símbolo pueril de empoderamento feminino com a série “Sex and the city”. Dos autorais, os mais pedidos eram a caipi-rouge, com amora, framboesa, mirtilo, morango e magia; e o Ruella, inspirado no bistrô de Dahoui de mesmo nome, feito com vodca, grenadine e gengibre. Tenho dúvidas se fariam sucesso hoje em dia, mas guardo em um bom lugar nas minhas lembranças. Tudo isso 25 anos atrás, numa época em que ainda não existiam redes sociais. O que acontecia ali ficava ali. No máximo, ia parar em boca de Matilde. E era justamente esse ar de clube privé, que embaralhava underground com mainstream, que atraía os mais variados perfis, muitas vezes ao redor da mesma mesa. Do poeta Thiago de Mello a Vera Fisher, de Gerald Thomas a Bebel Gilberto, com a certeza de que ninguém estava nem aí para saber o que você fez no verão passado.