A exoneração de 206 servidores da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) publicada em edição extra do Diário Oficial na noite de terça-feira desencadeou uma romaria de deputados, políticos e assessores ao telefone do presidente em exercício Guilherme Delaroli (PL) e seus interlocutores para reverter as demissões. A peregrinação parece der dado certo, e o chefe do Legislativo já avalia publicar nos próximos dias decretos que tornam “sem efeito” parte das demissões. Pelo regimento interno, ele tem até 30 dias para decidir sobre eventuais revisões. Entenda: PL se articula para manter Delaroli na presidência da Alerj após exonerações em massa Alerj: Assembleia do Rio exonera mais de 200 funcionários, entre eles um filho e ex-mulher de Sérgio Cabral Mais do que um ajuste administrativo, a exoneração em massa carrega um peso político explícito, segundo os deputados, já que é a primeira vez em quase 30 anos que um presidente faz uma reformulação tão grandiosa. Delaroli ocupa a presidência desde a prisão e, depois, afastamento de Rodrigo Bacellar (União) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, há um mês. Para aliados e adversários, a medida também funciona como uma demonstração de força — um recado direto aos caciques e cardeais da política fluminense sobre quem, de fato, exerce o comando da Alerj. Figuras centrais atingidas Embora os líderes mais influentes não tenham feito contato direto com Delaroli, assessores próximos a esses grupos procuraram o presidente interino para sondar o clima e pedir a revisão de nomes específicos. Alguns deputados também buscaram falar diretamente com o presidente em exercício, mas não conseguiram. Entre os exonerados estão comissionados indicados por figuras centrais da política do estado, como os ex-presidentes da Alerj Paulo Melo e Sérgio Cabral. Também foram desligados Marco Antônio Neves Cabral e Suzana Neves Cabral, respectivamente filho e ex-esposa do ex-governador. Segundo levantamento interno, a lista inclui 47 indicações atribuídas a Paulo Melo, 17 ligadas a Sérgio Cabral — entre elas, familiares — e outros 50 indicados do secretário de Assuntos Parlamentares do governo federal, André Ceciliano, que também já presidiu a Casa. E a varredura não deve parar por aí. Nos bastidores, circula a informação de que cerca de mil nomes seguem sob avaliação e podem ser cortados no futuro. — Não há indicações minhas. Respeito muito a presidência do Deraloli. É uma prerrogativa direta, irreversível e inalienável de qualquer administrador escolher sua equipe. O que não pode é encontrar um motivo inexistente para demissões — disse Paulo Melo. Interlocutores próximos ao presidente afastado Rodrigo Bacellar afirmam que ele não ficou satisfeito com a amplitude das exonerações nem com as interferências promovidas por Delaroli desde que assumiu o comando interino. Assessores relatam ainda que Bacellar costuma recorrer politicamente a Sérgio Cabral, o que amplia a leitura de que a ofensiva atingiu diretamente estruturas históricas de poder fluminense. Articulação do PL Delaroli tem levado para cargos-chave aliados com vínculos diretos com a prefeitura de Itaboraí, governada por seu irmão, Marcelo Delaroli, e principal reduto político da família. Ontem, ele nomeou o ex-secretário municipal de Ciência e Inovação do município e então assessor especial, Guilherme Ferreira Delphim Pereira, para o cargo de subdiretor de Assuntos Legislativos da Alerj. Em dezembro, Delaroli já havia exonerado nomes ligados diretamente a Bacellar. Diretor-geral da Casa, Marcos de Brito deu lugar a Luciano Martins Abreu, que ocupava até então a Secretaria municipal de Serviços Públicos de Itaboraí. Já para a chefia de gabinete da presidência, Delaroli nomeou Elber Corrêa da Silva, vice-prefeito do município — que substituiu Rui Carvalho Bulhões Júnior, considerado braço-direito de Bacellar. Também se especula que, por trás das exonerações, haja a construção de respaldo político para uma possível renúncia de Bacellar. A saída voluntária é o único instrumento formal capaz de abrir a disputa pela presidência da Alerj. Nesse caso, o regimento prevê que a vacância seja declarada e que uma nova eleição ocorra em até cinco sessões. Podem concorrer deputados com mais de 30 anos, uma vez que o presidente passa a integrar a linha sucessória ao governo do estado. Na manhã anterior à publicação extra do Diário Oficial, o presidente estadual do PL, Altineu Côrtes, reuniu-se com os 18 deputados da legenda. O encontro teria como objetivo alinhar o partido em torno da permanência de Delaroli na presidência da Casa e preparar o terreno para um eventual cenário de eleição interna. Nesse tabuleiro, aliados avaliam que Delaroli ganhou musculatura política para articular apoio caso a eleição seja deflagrada. Segundo relatos, o PL não só passou a defender que ele permaneça no cargo como também que seja o nome do partido para comandar a Assembleia na próxima legislatura, a partir de 2027.