Não sei você, mas, para mim, uma taça de vinho no fim do dia sempre teve um gostinho prazeroso de pausa e autocuidado. Mas, quando entrei na menopausa, essa relação começou a mudar um pouco. A sensação de bem-estar passou a ser interrompida por calores mais fortes, uma irritação esquisita e o sono ficou mais fragmentado. Coincidência? Não. A ciência vem mostrando que, com a queda do estrogênio, o organismo feminino se torna mais sensível ao álcool. “A menopausa é um período em que já existe uma maior alteração do humor, do sono e da termorregulação. O consumo de álcool tende a agravar todos esses sintomas”, explica a endocrinologista Deborah Beranger, pós-graduada em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa do Rio de Janeiro. E isso não acontece por acaso. O novo cenário hormonal muda a forma como o corpo responde e metaboliza a bebida. “O metabolismo do álcool passa a ficar mais lento com o passar dos anos. Pequenas quantidades já podem provocar efeitos indesejados”, reforça a ginecologista Patricia Magier, especialista em Medicina Integrativa e Funcional. Entre os sintomas mais afetados pelo álcool estão os fogachos. Estudos realizados por universidades estadunidenses, como Harvard e Stanford, indicam que mulheres no climatério que consomem álcool com regularidade relatam mais ondas de calor e suores noturnos — especialmente quando o consumo acontece à noite. “O álcool aumenta as ondas de calor e piora a qualidade do sono, que já é naturalmente mais fragmentado na menopausa”, afirma a dra. Deborah. Segundo ela, a bebida compromete especialmente o sono REM, fase essencial para a recuperação cerebral e emocional. “O despertar noturno é maior nessa fase da vida, e quem consome bebidas alcóolica piora ainda mais essa arquitetura do sono.” Efeito dominó Na menopausa, o corpo já enfrenta uma perda natural de proteção hormonal. Quando o álcool entra em cena, esse efeito se amplifica. “Você acaba juntando dois fatores importantes: a deficiência hormonal e a ação alcoólica”, resume a dra. Deborah. Os órgãos mais afetados formam uma lista extensa: Fígado – Principal responsável por metabolizar o álcool, ele já trabalha mais sobrecarregado nessa fase, especialmente em mulheres com sobrepeso ou resistência à insulina. “Alterações hormonais dificultam a metabolização eficiente de gordura pelo fígado, aumentando o risco de doença hepática”, explica a endocrinologista. Cérebro – O consumo contínuo pode acelerar processos de degeneração cerebral, além de impactar memória, humor e qualidade do sono. A dra. Patricia acrescenta que há reflexos diretos no equilíbrio emocional e na clareza mental. Coração e vasos – Com a queda do estrogênio, o risco cardiovascular feminino se aproxima do masculino. Doses maiores de álcool aumentam o risco de hipertensão, arritmias, AVC e miocardiopatias. A American Heart Association já alerta para essa combinação perigosa há tempos. Ossos – A perda de densidade óssea típica da menopausa é agravada pelo álcool. “Há maior risco de fraturas em mulheres menopausadas que consomem mais bebida alcoólica”, enfatiza a dra. Deborah. Intestino – “O álcool pode prejudicar a microbiota intestinal, comprometendo a absorção de nutrientes essenciais”, explica dra. Patricia. Isso impacta desde a imunidade até a saúde óssea e metabólica. Um dos pontos mais sensíveis dessa equação é a relação entre álcool, estrogênio e risco de câncer de mama. “O álcool aumenta o nível circulante de estrogênio tanto em mulheres que não fazem reposição quanto naquelas que fazem terapia hormonal”, alerta dra. Deborah. Pesquisas de grandes instituições, como o National Cancer Institute (EUA) e a Organização Mundial da Saúde, já associam mesmo o consumo leve de álcool a um aumento no risco de câncer de mama, especialmente após a menopausa. “Por isso, toda mulher que faz terapia de reposição hormonal precisa ter uma investigação minuciosa sobre o consumo de álcool”, reforça a endocrinologista. “O estrogênio fica mais alto no sangue, e isso pode aumentar a ação estrogênica na mama.” A dra. Patricia complementa: “O álcool pode interferir na resposta clínica da reposição hormonal, reduzindo benefícios e aumentando efeitos adversos, principalmente em mulheres com alterações hepáticas ou inflamatórias”. Existe dose segura na menopausa? A resposta honesta da medicina atual é: não existe consumo totalmente isento de impacto. Ainda assim, há certos parâmetros. “Considera-se moderado, e mais seguro, para mulheres, no máximo uma dose por dia — o equivalente a cerca de 10 gramas de álcool”, explica dra. Deborah. E a dra. Patricia ainda faz outra consideração: “O ideal é que não seja diário e que se evite especialmente a ingestão noturna. Muitas mulheres relatam melhora expressiva dos sintomas da menopausa ao reduzir significativamente ou até suspender o álcool”. O que aprendi com os especialistas, e com o tempo, é que a menopausa convida à observação, à escuta do corpo. Entender essa nova relação do meu organismo com o álcool me ajudou a fazer escolhas mais conscientes e a redescobrir o prazer de beber uma taça de vinho — em momentos certos, em doses adequadas, ele voltou a ter aquele gostinho de bem-estar. E com você, como está sendo essa relação?