Exonerado do cargo de assessor especial do presidente afastado Rodrigo Bacellar (União) no mesmo dia em que a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Unha e Carne, Márcio Bruno Carvalho está de volta à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). A nomeação foi publicada no Diário Oficial desta quinta-feira e ocorre em meio à maior varredura de cargos comissionados já promovida na Casa nos últimos 30 anos, em que 206 funcionários foram demitidos, conduzida pelo presidente em exercício, Guilherme Delaroli (PL). Alerj: Delaroli avalia reverter demissões de cargos comissionados após pedidos de deputados Entenda: PL se articula para manter Delaroli na presidência da Alerj após exonerações em massa Márcio Bruno ocupava o cargo de assessor especial no gabinete de Rodrigo Bacellar, afastado do comando da Casa após ser preso e se tornar alvo de investigação da Polícia Federal, suspeito de vazar informações de operação contra o TH Jóias e o Comando Vermelho. Ele foi exonerado horas depois do início da operação, em 16 de dezembro, por meio de um Diário Oficial extra publicado por Delaroli. Agora, retorna à Assembleia como chefe de gabinete de Bacellar, substituindo Igor Gomes de Azevedo, filiado ao União Brasil e ex-vereador suplente de Campos dos Goytacazes, reduto eleitoral do presidente afastado. Ex-assessor de Rodrigo Bacellar exonerado no dia de operação da PF, Marcio Bruno, volta à Alerj em meio a varredura de cargos Diário Oficial da Alerj O nomeado já havia ocupado o cargo de chefe de gabinete do presidente afastado logo no início do mandato dele como deputado, mas deixou a cadeira para se dedicar ao lado de Bacellar em assuntos do plenário, quando se tornou assessor especial. Nesse movimento, quem ficou em seu lugar foi Rui Carvalho Bulhões Júnior, braço-direito e esquerdo de Bacellar. Ele também foi exonerado em dezembro no mesmo dia da operação. Bulhões era considerado peça central na trajetória política de Bacellar e atuava como principal articulador junto aos deputados e mantinha vínculo societário com Bacellar na RB Entretenimento, empresa de organização de eventos sediada em Campos dos Goytacazes. A produtora levou recentemente à maior cidade do interior fluminense atrações como o rapper Matuê e eventos como a Oktober Fest. Assembleia do Rio exonera mais de 200 funcionários, entre eles um filho e ex-mulher de Sérgio Cabral Na mesma edição do Diário Oficial extra, o presidente em exercício também exonerou o diretor-geral da Casa, Marcos André Riscado de Brito, um dos primeiros nomes indicados por Bacellar após sua eleição para a presidência do Legislativo. Sob a gestão de Brito, a esposa do desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), Macário Ramos Judice Neto, preso nessa mesma operação da PF, trabalhou na Alerj, assim como o procurador-geral da Casa, Robson Maciel. Chefe de gabinete de Bacellar, Rui Bulhões, foi alvo de busca e apreensão Reprodução Márcio Bruno Carvalho de Oliveira integrou a formação original da banda Os Mulekes, historicamente ligada a Bacellar. Márcio também aparece citado em investigações sobre a Prefeitura de Cambuci, onde chegou a ser nomeado na Secretaria de Trabalho e Renda. Nesse inquérito, o Ministério Público do Rio apurava um esquema descrito como “aluguel da prefeitura", no qual Rodrigo Bacellar e seu pai, Marcos Bacellar, teriam pago cerca de R$ 160 mil mensais ao então prefeito Oswaldo Botelho, o Vavado, para controlar a administração municipal, segundo delações e depoimentos. O grupo operaria nos bastidores, infiltrando aliados em cargos estratégicos da máquina pública. Rui Bulhões (camiseta preta e relógio, à frente) e Márcio Bruno (camiseta azul, ao fundo): grupo de pagode com o qual Bacellar tinha proximidade forneceu dois futuros chefes de gabinete Reprodução No entanto, a exoneração dele, à época da operação, fez parte de um movimento mais amplo de antecipação de mudanças na estrutura administrativa da Alerj, decidido por Delaroli após o avanço da investigação da Polícia Federal. Outro caso que chama atenção envolve Marcos André Riscado Brito, nomeado diretor-geral da Alerj por Bacellar em fevereiro de 2023, três dias após Marcos Vieira Bacellar, pai do então presidente da Casa, apresentar recurso à Justiça para tentar reverter uma condenação por improbidade administrativa. No processo, segundo o Ministério Público, o diretor-geral figura como testemunha. Guilherme Delaroli, o presidente interino da Alerj Gabriel de Paiva/ Agência O Globo A decisão de promover as exonerações, segundo interlocutores da presidência, foi motivada pelo receio de Delaroli de que os desdobramentos da investigação da PF contaminassem a administração da Assembleia enquanto o parlamentar ocupa a presidência interinamente. A segunda fase da Operação Unha e Carne voltou a cumprir mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Bacellar, aprofundando o desgaste político em torno do núcleo próximo ao deputado. Interlocutores da presidência afirmam que a troca no comando do gabinete ocorreu a pedido do próprio Bacellar, mesmo após seu afastamento da presidência da Casa. E que o movimento já era esperado, uma vez que ele segue exercendo o mandado de deputado e precisa ter ao seu lado o grupo de confiança. Desembargador Macário Júdice Neto na sua chegada na sede da Polícia Federal, após ser preso; na foto ao lado, deputado Rodrigo Bacellar, afastado da presidência da Alerj Domingos Peixoto e Lucas Tavares Demissões em massa e relocações de cargos A reaproximação de Márcio Bruno com o gabinete de Bacellar ocorre em meio a um cenário de endurecimento administrativo promovido por Delaroli. No último dia 6 de janeiro, o presidente em exercício publicou um novo Diário Oficial extra exonerando 206 servidores comissionados da Alerj. Entre os desligados estão indicados de figuras centrais da política fluminense, como os ex-presidentes da Assembleia Paulo Melo e Sérgio Cabral. Também foram exonerados Marco Antônio Neves Cabral e Suzana Neves Cabral, respectivamente filho e ex-esposa do ex-governador. Levantamento interno aponta que a lista inclui 47 indicações atribuídas a Paulo Melo, 17 ligadas a Sérgio Cabral — incluindo familiares — e cerca de 50 nomes indicados por André Ceciliano, secretário de Assuntos Parlamentares do governo federal e também ex-presidente da Alerj. Nos bastidores, a avaliação é de que a varredura está longe do fim. Circula entre parlamentares e servidores a expectativa de que cerca de mil cargos ainda estejam sob análise e possam ser extintos. No entanto, as demissões desencadeou uma romaria de deputados, políticos e assessores ao telefone do presidente em exercício Guilherme Delaroli (PL) e seus interlocutores para reverter as demissões. A peregrinação parece ter dado certo, e o chefe do Legislativo já avalia publicar nos próximos dias decretos que tornam “sem efeito” parte das demissões. Pelo regimento interno, ele tem até 30 dias para decidir sobre eventuais revisões. Deputados no plenário da Alerj Divulgação Alerj / Foto de Thiago Lontra O presidente tem feito movimentações sutis e preenchendo vagas com aliados de seu reduto político, assim como fez Bacellar. Delaroli tem levado para cargos-chave aliados com vínculos diretos com a prefeitura de Itaboraí, governada por seu irmão, Marcelo Delaroli, e principal reduto político da família. Ontem, ele nomeou o ex-secretário municipal de Ciência e Inovação do município e então assessor especial, Guilherme Ferreira Delphim Pereira, para o cargo de subdiretor de Assuntos Legislativos da Alerj. Em dezembro, Delaroli já havia exonerado nomes ligados diretamente a Bacellar. Diretor-geral da Casa, Marcos de Brito deu lugar a Luciano Martins Abreu, que ocupava até então a Secretaria municipal de Serviços Públicos de Itaboraí. Já para a chefia de gabinete da presidência, Delaroli nomeou Elber Corrêa da Silva, vice-prefeito do município — que substituiu Rui Carvalho Bulhões Júnior, considerado braço-direito de Bacellar. Também se especula que, por trás das exonerações, haja a construção de respaldo político para uma possível renúncia de Bacellar. Initial plugin text