PrEP mensal contra o HIV: estudo internacional testa comprimido único por mês com participação de São Paulo

Casa da Pesquisa do CRT-SP dá início a estudo internacional para uso mensal de PrEP em combate ao HIV Divulgação Já imaginou se aquele comprimido que você precisa tomar todo dia fosse substituído por somente um por mês? Esta pode ser a nova realidade para quem faz uso da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV) após um estudo internacional envolvendo 16 países e que terá a participação de São Paulo, por meio da Casa da Pesquisa do CRT – Centro de Referência e Treinamento do Estado de SP, na Vila Mariana. A pesquisa começa a receber os primeiros voluntários esta semana e terá duração prevista de cerca de três anos, com atendimentos mensais e acompanhamento médico especializado. A expectativa é que, se os resultados forem positivos, a nova PrEP mensal ajude a ampliar a adesão à prevenção, de modo a reduzir ainda mais as novas infecções por HIV. Desde que a PrEP passou a ser oferecida pelo SUS, as taxas de infecção pelo HIV têm caído em muitas regiões do Brasil; os números da capital, por exemplo, estão em queda há oito anos consecutivos. Veja os vídeos que estão em alta no g1 O que é a nova PrEP mensal contra o HIV A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é uma estratégia de prevenção em que pessoas que não vivem com HIV tomam medicamentos antirretrovirais para reduzir significativamente o risco de infecção em relações sexuais. Hoje, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a PrEP oral diária, composta por emtricitabina e fumarato de tenofovir disoproxil (FTC/TDF), conhecida comercialmente como Truvada. O novo estudo quer responder a uma pergunta central: um único comprimido por mês consegue proteger contra o HIV com eficácia semelhante à PrEP diária? Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) previne infecção pelo HIV Reprodução/EPTV Para isso, será testado um medicamento de uma classe de remédios que age em uma etapa importante do ciclo de replicação do HIV dentro do corpo. Quando o HIV entra na célula humana, ele precisa transformar seu material genético (RNA) em DNA, usando uma enzima chamada transcriptase reversa. O novo comprimido atua justamente nesse momento, impedindo que o vírus faça essa “cópia” genética. Ao bloquear essa etapa, o medicamento evita que a infecção se estabeleça. Segundo os pesquisadores, esse mecanismo de ação pode permitir doses menores e intervalos mais longos entre as tomadas, o que abre caminho para esquemas como o proposto neste estudo: 01 comprimido por mês (a cada 30 dias) para garantir proteção contínua contra o HIV. “Prevenção simples, acessível e possível” Para a equipe da Casa da Pesquisa do CRT-SP, o principal objetivo é ampliar de forma concreta as alternativas de prevenção. “A nossa maior expectativa é oferecer mais opções reais de prevenção ao HIV. A gente sabe que o comprimido diário funciona, mas nem sempre cabe na rotina de todo mundo. Este estudo internacional quer entender se uma PrEP mensal pode ser segura, eficaz e mais prática para as pessoas”, afirma Vinicius Francisco, coordenador de comunicação da Casa da Pesquisa do CRT-SP. Ele destaca que, se os resultados forem positivos, o impacto pode ser amplo: “Se os resultados forem positivos, podemos ter um avanço importante: menos infecções, mais acesso e alternativas que respeitem as diferentes rotinas e formas de viver. No fim das contas, queremos que a prevenção seja algo simples, acessível e possível para quem realmente precisa.” A simplificação da rotina é considerada peça-chave para aumentar a adesão, sobretudo entre populações mais vulneráveis ao HIV. O comprimido mensal pode reduzir o risco de esquecimento e outras situações de constrangimento, além de ampliar a autonomia. “Para quem enfrenta dificuldades de acesso ao serviço de saúde, trabalha muito, vive em vários lugares ou sofre algum tipo de discriminação, um esquema mensal pode ser mais discreto e confortável. Quanto menos barreiras, maior a chance de a pessoa conseguir manter a prevenção de forma contínua”, explica Vinicius. Quem pode participar do estudo da PrEP em São Paulo O estudo está aberto a pessoas a partir de 16 anos, sexualmente ativas e que não vivem com HIV, pertencentes a um ou mais dos seguintes grupos: Mulheres trans e travestis Homens cisgêneros que fazem sexo com homens cisgêneros e/ou mulheres trans Homens trans que fazem sexo anal Pessoas de gênero não binário que fazem sexo anal Além disso, há critérios de comportamento sexual recentes: Não estar em relacionamento monogâmico mútuo; Ter tido relação sexual anal receptiva sem preservativo nos últimos 12 meses; E atender a pelo menos um dos itens abaixo: ter praticado sexo anal receptivo com dois ou mais parceiros nos 3 meses anteriores à triagem, independentemente do uso de preservativo; ter recebido diagnóstico de gonorreia, clamídia (retal ou uretral) ou sífilis nos 6 meses anteriores à triagem; ter feito uso de medicamentos estimulantes durante relações sexuais nos 3 meses anteriores à triagem. A participação é gratuita, sigilosa e voluntária, seguindo normas éticas nacionais e internacionais. As pessoas voluntárias: recebem acompanhamento médico especializado, realizam exames laboratoriais regulares, têm acesso gratuito a todas as medicações fornecidas pela pesquisa. Voluntários dão início à participação no estudo Um dos primeiros atendidos no estudo em São Paulo é Victor Soriano, 33 anos, produtor cultural, homem cis gay, que vive um relacionamento aberto com o namorado. Atualmente, Victor não faz uso da PrEP diária, já que um dos critérios é não estar em uso de PrEP no momento da inclusão. A motivação, segundo ele, é também uma forma de retribuir quem colaborou para as pesquisas e inovações das atuais gerações: “Penso que, no passado, alguém precisou participar de estudos para que minha geração tivesse acesso à PrEP diária. Agora, quero contribuir para que gerações futuras tenham mais opções de prevenção. É uma forma de fortalecer políticas públicas e manter o Brasil como referência em estudos e acesso à medicação.” Victor Soriano é produtor cultural e participa como voluntário do estudo Divulgação/Arquivo Pessoal Ele reconhece o medo que algumas pessoas têm em relação a pesquisas clínicas, mas reforça o rigor científico e o acompanhamento constante: “O principal receio das pessoas é achar que um estudo pode não dar em nada. Mas, para chegar a essa fase, houve várias análises e exigências. É um estudo promissor, com acompanhamento mensal por profissionais. Participar é pensar no coletivo, contribuir para avanços científicos e políticas de prevenção.” Victor também chama atenção para a importância de quebrar o estigma: “É importante quebrar o estigma de que HIV é exclusivo da comunidade LGBT. Os números mostram que a realidade é bem mais ampla.” São Paulo no mapa da pesquisa internacional em HIV A participação da capital paulista é considerada estratégica para o estudo global. A cidade reúne grande diversidade de perfis e realidades, o que enriquece os dados coletados. “Ao participar, a cidade de São Paulo contribui com dados que podem ajudar outros países, fortalece a pesquisa feita no Brasil e mostra a capacidade de produzirmos conhecimento de ponta. Isso também abre caminho para que, no futuro, esses achados cheguem mais rápido à população que usa o SUS”, destaca Vinicius Francisco, coordenador da Casa da Pesquisa do CRT-SP. Queda nas novas infecções e papel da PrEP diária O estudo da PrEP mensal acontece em um cenário de queda consistente nas novas infecções por HIV em São Paulo, fenômeno que especialistas associam à chamada Prevenção Combinada – conjunto de estratégias que incluem preservativos, testagem regular, imunizações, tratamento de pessoas que vivem com HIV e a oferta de PrEP e PEP (Profilaxia Pós-Exposição). Capital tem 8 anos de queda nas novas infecções Na cidade de São Paulo, a Secretaria Municipal da Saúde informa que: são 8 anos consecutivos de queda nas novas infecções por HIV, o que representa uma redução de 53% desde 2016, com destaque para a queda de 59% entre jovens de 15 a 24 anos apenas em 2024. Os dados mais recentes do Boletim Epidemiológico de HIV/Aids da Coordenadoria de IST/Aids mostram a seguinte evolução de casos de HIV na capital: 2020: 2.518 casos 2021: 2.405 casos 2022: 2.198 casos 2023: 1.911 casos 2024: 1.766 casos Preservativos são distribuídos gratuitamente pelo SUS Breno Esaki/Arquivo Agência Saúde A rede municipal conta hoje com 29 serviços especializados para fornecimento da PrEP diária, incluindo: 10 Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA), um deles itinerante, 17 Serviços de Atenção Especializada (SAE), a Estação Prevenção Jorge Beloqui, e o canal digital SPrEP – PrEP e PEP online, acessado pelo aplicativo e-saúdeSP. Dados da PrEP diária no Estado de São Paulo Dados mais atualizados do Painel PrEP do Ministério da Saúde apontam que o Estado de São Paulo registra: 51.447 usuários atualmente em PrEP 31.676 pessoas descontinuadas 83.123 pessoas com pelo menos uma dispensa de PrEP nos últimos 12 meses 126.360 pessoas iniciaram PrEP desde 2018 A grande maioria dos atendimentos (94%) ocorre na rede pública. Atualmente, o estado de SP tem 226 unidades dispensadoras de PrEP. O perfil dos usuários em SP também evidencia a concentração entre populações-chave, mas com crescente diversificação: Por população: Gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH) cis: 82,3% Homens heterossexuais cis: 7,1% Mulheres cis: 6,1% Mulheres trans: 2,8% Homens trans: 1,1% Pessoas não binárias: 0,4% Travestis: 0,2% Por raça/cor: Branca/amarela: 62% Parda: 26% Preta: 12% Indígena: 0,35% Por faixa etária: Menores de 18 anos: 0,2% 18 a 24 anos: 9,0% 25 a 29 anos: 20,8% 30 a 39 anos: 43,2% 40 a 49 anos: 19,0% 50 anos ou mais: 7,9% Cenário no Estado de SP: metas de eliminação até 2030 Em nível estadual, a Secretaria de Estado da Saúde registra: 5.975 casos de HIV em 2025 (até 10 de novembro), 8.102 casos em 2024, 5.504 em 2023, 8.087 em 2022, 8.049 em 2021, 7.672 em 2020. O estado foi o primeiro do país a assinar a Declaração de Paris atualizada (2021), assumindo o compromisso de eliminar o HIV/Aids como problema de saúde pública até 2030, alinhado às metas globais do UNAIDS. Em 2023, São Paulo foi oficialmente certificado pela eliminação da Transmissão Vertical do HIV (de mãe para filho) e recebeu o Selo de Boas Práticas – categoria Bronze para Sífilis Congênita, após cumprir todas as metas estabelecidas pelo Ministério da Saúde. Nesse contexto de avanços, a aposta em novas formas de PrEP, como a de uso mensal, aparece como uma evolução natural das estratégias de prevenção combinada. Como se inscrever para o estudo da PrEP mensal em São Paulo A Casa da Pesquisa do CRT-SP está recrutando voluntárias e voluntários para o estudo da PrEP oral mensal. Local: Casa da Pesquisa do CRT - Centro de Referência e Treinamento do Estado de SP Endereço: Rua Santa Cruz, 81 – Vila Mariana – São Paulo (SP) Horário de atendimento: de segunda a sexta-feira, das 7h às 18h Inscrições e informações para o público: Instagram oficial: @pesquisacrt | WhatsApp da Educação Comunitária da Casa da Pesquisa: (11) 97640-6299 | Formulário de inscrição Como o estudo da PrEP mensal será conduzido O ensaio clínico é descrito como randomizado, controlado e duplo cego, modelo considerado padrão-ouro em pesquisas médicas: As pessoas participantes são distribuídas aleatoriamente em dois grupos (Grupo A e Grupo B). Todos receberão dois tipos de medicamento: a PrEP oral diária já usada no SUS (FTC/TDF, o Truvada), e o novo comprimido mensal em avaliação. Em cada caso, apenas um dos dois será ativo; o outro será placebo (um comprimido sem substância medicinal). Nem os voluntários nem a equipe médica saberão, na fase inicial, qual deles é o medicamento ativo. Essa estratégia, conhecida como duplo cego, evita que expectativas influenciem a percepção de efeitos e garante maior rigor científico na comparação de eficácia e segurança entre a PrEP diária e a PrEP mensal. O estudo será realizado em 16 países e deve recrutar cerca de 4.390 pessoas sexualmente ativas que possam se beneficiar de um esquema mensal de PrEP. Por que a PrEP mensal pode ser um divisor de águas Se comprovada segura e eficaz, a PrEP de comprimido único mensal pode: reduzir barreiras de adesão, já que muitas pessoas têm dificuldade de lembrar ou manter o uso diário; diminuir situações de constrangimento, para quem teme ser visto tomando comprimidos todos os dias em casa, no trabalho ou em ambientes compartilhados; facilitar o acesso de populações em maior vulnerabilidade, que enfrentam jornadas de trabalho extensas, mobilidade urbana intensa, discriminação ou pouca regularidade no contato com serviços de saúde; ampliar o leque de escolhas, permitindo que cada pessoa encontre a forma de prevenção que melhor se adapta à própria rotina. Para Victor Soriano, que decidiu ser um dos primeiros voluntários, trata-se de pensar para além da experiência individual: “Participar é pensar no coletivo. Um comprimido por mês pode ser um avanço enorme.”