Este texto foi enviado na newsletter semanal O Crítico Antigourmet, em que Ian Oliver faz resenhas da gastronomia de São Paulo. Quer receber o conteúdo antes da publicação on-line? Clique aqui para se inscrever. A Cidade Matarazzo, novo playground da elite paulistana que se equilibra entre o pretenso luxo e a breguice caricatural, nos presenteou com mais uma de suas pérolas: o Mata Città. Com uma fila enorme em um almoço de segunda-feira e 1.600 m² de opulência questionável, o restaurante se propõe a ser uma “viagem à Itália”. Uma série de salões que “reproduzem” as mais variadas regiões da península itálica com uma sutileza similar à de um restaurante “temático”, como os que encontramos em Balneário Camboriú ou Gramado. Alucinação decorativa Entramos em um ambiente que só pode ser descrito como uma alucinação decorativa. O salão em que fiquei tentava emular uma ambientação de Positano, na Costa Amalfitana. O teto é inteiramente coberto por um padrão repetitivo de limões amarelos — à la Tania Bulhões — e flores pretas: uma tentativa tão desesperada de ser “imersivo” que beira o ridículo. No teto há um lustre gigante de limões de vidro que faria qualquer designer de interiores ter um colapso nervoso. Móveis de veludo em cores saturadas, um banheiro inspirado em cartas de tarô (algo que soa bem “italiano”, não é mesmo?) e uma réplica da escultura As Três Graças completam o cenário e evidenciam que a máxima do “menos é mais” foi completamente ignorada. Os administradores parecem ter feito uma aposta deliberada no mau gosto do público — sem o qual esse caos visual perderia qualquer sentido. Se o espaço já é assim, o atendimento naturalmente reflete o caos visual. Garçons correm entre centenas de mesas sem saber para onde levar os pratos ou de onde vêm os pedidos. Itens do cardápio não raro estão indisponíveis. A primeira bebida que pedimos, por exemplo — um chopp — não havia. A outra — um coquetel autoral chamado Mare Tini (uma releitura “marítima” do Martini) — foi confundida com um arancini. Pedir uma bebida no Mata Città é um exercício de paciência; recebê-la, quase um milagre. LEIA AS CRÍTICAS JÁ PUBLICADAS DO CRÍTICO ANTIGOURMET é a materialização de tudo o que há de errado na cena gastronômica de São Paulo Ian Oliver Falta de foco O cardápio, com mais de 60 preparos, é coerente com o exagero caótico do ambiente e do serviço. A aposta é tentar agradar a todos os paladares. O resultado é uma tremenda falta de foco, de esmero nos preparos e, o pior, de frescor nos produtos. O agnolotti dal plin não era “plin” — que, em italiano, significa “beliscão”. Era simplesmente uma massa recheada, sem as marcas do apertão característico da versão clássica. Esse pequeno recheio, que deveria ser delicado, chega à mesa tão azedo (limão?) que se torna impossível identificar qualquer outro sabor. Em nenhum momento o uso de limão é descrito no cardápio, e esse perfil ácido não encontra respaldo algum na tradição do prato. A “demi-glace” (entre aspas, mesmo) é tímida, e o molho branco, totalmente dispensável nesse tipo de preparo. Tartare com carne cansada, ossobuco engrossado com maisena e pizzeta incortável Ian Oliver Preguiça técnica O tartare de carne — algo difícil de errar — chega à mesa, em uma louça que mais parece uma oferenda, sem qualquer sal ou tempero identificável. Há apenas uma carne cansada, com partes escurecidas, aparentemente fora da geladeira há horas, acompanhada de uma polenta frita mole, oleosa e igualmente sem sal. Custa enxergar qualquer qualidade ali. Também inexplicavelmente insípido e inodoro é o ossobuco, servido com um molho de carne visivelmente engrossado com maisena — um atalho notável que denuncia preguiça técnica. Preguiça, aliás, que também se manifesta na pizzetta de pesto com burrata, simplesmente incortável com a faca disposta à mesa. Talvez uma serra elétrica resolvesse aquela massa intransponível, borrachuda, densa e mal fermentada. As massas clássicas — carbonara e cacio e pepe — até chegam em bom ponto de cocção, mas são completamente equivocadas na emulsão e, no caso da carbonara, marcadas por um gosto excessivo de ovo pasteurizado velho e aquele azedume persistente e inesperado que já havia aparecido no agnolotti. Massa carbonara: gosto de ovo pasteurizado velho e azedume persistente e inesperado Ian Oliver Esforço de parecer o que não é A torta de limão — essa que, sim, precisava ter limão — foi a única coisa que passou de ano na avaliação, ainda que além da medida na doçura e acidez. As pizzas e os drinks pedidos — quando finalmente chegavam — tinham defeitos, mas não chegavam a ser os piores da refeição. Transitando entre o sem gosto e o azedo plano, o Mata Città é a materialização de tudo o que há de errado na cena gastronômica de São Paulo: a priorização do ambiente supostamente imersivo sobre o que está no prato, a ostentação vazia, a decoração kitsch, o atendimento caótico, a comida consistentemente ruim e o esforço genuíno de parecer o que não é. O Mata Città não é a Itália. E sua comida passa longe de ser comida italiana. Todas as visitas do crítico são pagas pelo GLOBO e feitas sem qualquer aviso prévio. Torta de limão foi a única que passou de ano na avaliação Ian Oliver MATA CITTÀ | Informações essenciais Endereço: Complexo Cidade Matarazzo - Alameda Rio Claro, 260 - Bela Vista, São Paulo - SP Telefone: (11) 99128-0000 ⏰ Horário de Funcionamento: • segunda a quarta: 12h–15h, 19h–22h • quinta, sexta e sábado: 12h-15h, 19h-23h • domingo: 12h-16h, 19h–22h ️ Culinária: Italiana genérica de grande escala Público: Turismo gastronômico, clientela em busca de “experiência” visual Preço: $$ (não é tão alto, mas incompatível com a execução) ✨ Proposta: Restaurante temático de grandes salões, foco em impacto visual e volume Avaliação: ✰✰✰✰✰ Experiência falha em praticamente todos os pilares fundamentais de um restaurante: comida, serviço e coerência entre proposta e entrega. Classificação: Ruim ✰✰✰✰✰ | Satisfatório ⭐✰✰✰✰ | Bom ⭐⭐✰✰✰ | Muito bom ⭐⭐⭐✰✰ | Excelente ⭐⭐⭐⭐✰ | Excepcional ⭐⭐⭐⭐⭐