Construir, abrigar e operar: Acordo da Guerra Fria já garante ampla presença militar dos EUA na Groenlândia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem intensificado declarações e gestos que indicam seu interesse em assumir o controle da Groenlândia, a maior ilha do mundo, coberta em grande parte por gelo e localizada no Ártico. Nos últimos meses, Trump ridicularizou equipes dinamarquesas que utilizam trenós puxados por cães para patrulhamento no território e mencionou a presença de navios chineses e russos “misteriosos” operando próximos à costa. Há poucos dias, afirmou: “Precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional”. Contexto: O que faz Trump querer a Groenlândia e quais entraves há para uma eventual ofensiva dos EUA Plano atualizado: Secretário de Estado dos EUA diz a parlamentares que Trump quer comprar a Groenlândia Mas a questão é: os EUA realmente precisam comprar a Groenlândia — ou fazer algo ainda mais drástico — para alcançar os objetivos de Trump? Sob um acordo pouco conhecido da Guerra Fria, os americanos já desfrutam de amplo acesso militar à ilha, onde têm uma base em um canto remoto. Mas o acordo lhes permite “construir, instalar, manter e operar” bases militares em toda a Groenlândia, “abrigar pessoal” e “controlar pousos, decolagens, fundeadouros, ancoragens, movimentos e a operação de navios, aeronaves e embarcações aquáticas”. O acordo foi assinado em 1951 pelos Estados Unidos e pela Dinamarca, que colonizou a Groenlândia há mais de 300 anos e ainda controla alguns de seus assuntos. Para Mikkel Runge Olesen, pesquisador do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais, em Copenhague, o acordo dá aos EUA liberdade quase total de ação. — Os EUA têm tanta liberdade de ação na Groenlândia que podem, basicamente, fazer o que quiserem — disse. — Tenho muita dificuldade em imaginar que os EUA não conseguiriam praticamente tudo o que quisessem se simplesmente pedissem educadamente. Entenda: Groenlândia e Dinamarca querem reunião com Rubio após ameaças de Trump Mas comprar o território — algo que o secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse aos parlamentares na terça ser o plano mais recente de Trump — é outra questão. A Groenlândia não quer ser comprada por ninguém, especialmente não pelos Estados Unidos. E a Dinamarca não tem autoridade para vendê-la, disse Olesen. No passado, a Dinamarca teria sido a decisora. Em 1946, logo após a Segunda Guerra Mundial, Copenhague rejeitou uma oferta do governo do então presidente Harry Truman, que propôs pagar US$ 100 milhões em ouro pelo território. Hoje, o cenário é distinto. Os groenlandeses têm o direito de convocar um referendo sobre independência, e autoridades dinamarquesas afirmam que cabe aos cerca de 57 mil habitantes da ilha decidir seu futuro. Uma pesquisa realizada no ano passado indicou que 85% da população é contrária a uma tomada de controle pelos EUA. — Nosso país não está à venda — disse o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, voltando a descartar a hipótese nesta semana. O acordo de defesa entre Estados Unidos e Dinamarca, considerado relativamente curto e direto, foi atualizado em 2004 para incluir o governo semiautônomo da Groenlândia, garantindo-lhe participação nas discussões sobre o impacto das operações militares americanas sobre a população local. Contexto: Trump estuda ‘várias opções’ para Groenlândia, inclusive a militar, diz Casa Branca As origens do pacto remontam à Segunda Guerra Mundial. Naquele período, a Dinamarca estava ocupada pela Alemanha nazista. Seu embaixador em Washington, isolado de Copenhague, decidiu firmar por conta própria um acordo de defesa da Groenlândia com os Estados Unidos. O temor era que a ilha fosse usada pelos nazistas como trampolim para um ataque ao território americano. Os alemães haviam instalado pequenas bases meteorológicas na costa leste da Groenlândia e transmitiam dados usados em operações militares na Europa. Tropas americanas acabaram expulsando os alemães e instalaram mais de uma dúzia de bases na ilha, com milhares de soldados, pistas de pouso e outras estruturas militares. Após a guerra, os Estados Unidos mantiveram algumas dessas instalações e uma rede de radares de alerta antecipado. Com o fim da Guerra Fria, quase todas foram desativadas, restando apenas uma, hoje chamada Base Espacial de Pittufik, usada para rastrear mísseis que cruzam o Polo Norte. A presença dinamarquesa na Groenlândia, por sua vez, é limitada a algumas centenas de militares, incluindo forças especiais que utilizam trenós puxados por cães em patrulhas de longa distância. Nos últimos meses, o governo da Dinamarca prometeu modernizar suas bases e ampliar a vigilância no território. Novo impulso O debate ganhou novo impulso após forças especiais dos Estados Unidos capturarem o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em um esconderijo. Segundo analistas, o episódio deixou Trump mais confiante. Stephen Miller, um de seus principais assessores, afirmou então que a Groenlândia deveria pertencer aos EUA e que “ninguém vai lutar contra os Estados Unidos” por ela, o que elevou a apreensão entre autoridades dinamarquesas e groenlandesas. Na noite de terça-feira, líderes da Dinamarca e da Groenlândia solicitaram uma reunião com Rubio, segundo informou o ministro das Relações Exteriores da Groenlândia. Cenário inédito: Entenda como a ameaça expansionista de Trump sobre a Groenlândia põe Otan em xeque As tensões entre Trump e a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, também vêm crescendo. Enquanto o americano insiste na necessidade de “conseguir” a Groenlândia, ela tem rejeitado qualquer concessão. Recentemente, ela citou o acordo de 1951 para afirmar que os EUA já dispõem de amplo acesso ao território e pediu que Washington “cesse as ameaças”. Segundo a premier, um ataque americano à Groenlândia significaria o fim da ordem internacional. Na terça, líderes europeus divulgaram uma declaração conjunta reiterando os termos do acordo de 1951 e afirmando que “a Groenlândia pertence ao seu povo”. Especialistas em defesa avaliam que uma eventual tentativa dos Estados Unidos de usar o pacto como justificativa para enviar grande número de tropas e ocupar a ilha também seria ilegal. A emenda de 2004 determina que Washington deve consultar Dinamarca e Groenlândia antes de promover “quaisquer mudanças significativas” em suas operações militares. O texto, assinado pelo então secretário de Estado americano Colin Powell (2001-2005), reconhece explicitamente a Groenlândia como “parte igual do reino da Dinamarca”. Na prática, porém, analistas afirmam que pedidos razoáveis dos EUA costumam ser atendidos. Para o analista de defesa Peter Ernstved Rasmussen, trata-se de uma formalidade diplomática. — É uma fórmula de cortesia — disse. — Se os Estados Unidos quisessem agir sem pedir, poderiam simplesmente informar à Dinamarca que estão construindo uma base, um aeródromo ou um porto. Na mira de Trump: Groenlândia reflete velhas ambições expansionistas dos EUA e é alvo de interesse de Rússia e China Esse cenário provoca críticas entre especialistas dinamarqueses. Jens Adser Sorensen, ex-alto funcionário do Parlamento da Dinamarca, afirmou que, se Trump quisesse reforçar a segurança da Groenlândia, poderia fazê-lo dentro do marco legal existente. — Por que não usar o mecanismo do acordo de defesa se há tanta preocupação com a situação de segurança? — questionou. — A estrutura existe. Está em vigor. Mas a localização estratégica da Groenlândia não é a única coisa que atraiu o círculo íntimo de Trump. A enorme ilha tem outro atrativo: minerais críticos — muitos deles — enterrados sob o gelo. Também aqui, dizem analistas, os Estados Unidos não precisam assumir o controle da ilha para obtê-los. Autoridades locais afirmam que os groenlandeses estão abertos a fazer negócios com praticamente qualquer país.