Quando posso deixar meu filho ter um perfil nas redes sociais?

Este conteúdo faz parte da newsletter Meus Filhos, Minhas Regras?, que responde a perguntas de pais, mães e cuidadores todas as semanas. Inscreva-se gratuitamente para receber toda quarta-feira no seu e-mail. Veja como enviar sua pergunta ao final desta reportagem. De Roblox a bullying: leia todas as dúvidas de pais e mães já respondidas nesta newsletter Dúvida da semana ?‍♀️? "Quais são as melhores e as piores redes sociais para crianças e adolescentes estarem? E qual é a idade certa para eles terem perfis nessas plataformas? Sou mãe de duas meninas adolescentes." As perguntas que chegaram nesta semana são diretas, como quase sempre são os bons questionamentos. As duas dúvidas foram colocadas por uma mãe e aparecem em um momento em que o debate sobre redes sociais deixou de ser apenas familiar e passou a ocupar as discussões públicas no Brasil. Com a aprovação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), o país entrou numa contagem regressiva. As plataformas terão até março deste ano para se adaptar a novas regras de verificação etária, supervisão parental e proteção de crianças e adolescentes. Com responsabilidades inéditas. Enquanto outros países, como a Austrália, optaram por proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais, no Brasil não há veto. Mas há mudanças significativas previstas: as redes sociais e plataformas com conteúdo impróprio para menores de 16 terão de verificar a idade do usuário, sem aceitar autodeclaração. Nesse contexto, ouvimos duas psicólogas. As respostas que você vai ler a seguir ajudam a organizar esse emaranhado e deslocam um pouco o foco da ideia de “rede certa” ou “idade ideal” para maturidade e presença adulta. Como sempre, deixo o convite: se você tem dúvidas sobre a educação dos filhos, sejam eles crianças ou adolescentes, envie sua pergunta ao final desta reportagem. Muitas vezes, a sua angústia é a de outras famílias também. Autonomia: Qual o momento certo para os filhos andarem sozinhos na rua? Palavra das especialistas ‍‍ Luciana Nunes, psicóloga, CEO Psicoinfo e autora do livro "Geração gamer: como os games estão redefinindo a adolescência" ? Eu sempre começo por um ponto que muita gente ignora: antes de perguntar “qual rede é melhor ou pior”, a gente precisa entender a dinâmica das redes sociais. Na adolescência, o digital deixa de ser só entretenimento e vira uma arena de formação pessoal. É nessa fase que a rede vira um espelho social poderoso e o jovem sai do primeiro núcleo, a família, para tentar se compreender no mundo: buscar pertencimento, experimentar voz, estilo, valores, tribos e referências. Dependendo do ambiente digital em que ele entra, essa experiência pode fortalecer ou fragilizar a identidade. Quando eu falo em “melhores ambientes digitais”, eu não estou falando de “ter muitos seguidores”. Isso não é sinônimo de pertencimento real. O que faz diferença, de verdade, são ambientes que favoreçam competência, autonomia e relacionamento — relacionamento com gente conhecida, com contexto, com algum tipo de validação baseada em vínculo e não em multidão. Porque para existir confiança e proporcionalidade emocional, é preciso alguma previsibilidade social: saber com quem se está falando, entender regras, limites e consequências. ️ Por isso, eu costumo dizer que tende a ser melhor quando a comunidade é fechada e mediada: com regras claras, com exposição limitada e sem transformar erro em espetáculo. Adolescente vai errar, vai se confundir, vai brigar. Isso é parte do desenvolvimento. O problema é quando essa fase vira palco público, e os erros passam a ter consequências desproporcionais para alguém que ainda está construindo repertório emocional. ⚠️ A partir daí, fica mais fácil entender o que eu considero mais perigoso. Os piores ambientes digitais são aqueles que expõem o adolescente a uma opinião pública, a métricas de validação e, principalmente, de comparação social. Uma rede que coloca todo mundo numa vitrine aberta, somando julgamento público + métricas + comparação social, pode aumentar vulnerabilidade emocional em qualquer idade, especialmente em adolescentes. E o risco cresce ainda mais quando existe anonimato, porque ele pressupõe uma baixa responsabilização. Isso aumenta desinibição, impulsividade e permissividade para cyberbullying. ? Outro ponto crítico é a cultura do cancelamento, quando o jovem aprende que o erro vira punição coletiva. Isso não fica restrito ao digital, porque existe rastro e registro. E é aí que entra uma frase que, para mim, resume muita coisa: a memória digital é muito mais cruel do que a nossa memória seletiva. O adolescente muda corpo, muda ideias, muda valores, muda pertencimentos. Ao mesmo tempo, a internet tende a congelar versões antigas dele como se fossem definitivas. Na prática, eu olho com atenção para alguns “fatores de risco”: plataformas muito abertas, DMs (mensagens diretas) abertas, recomendação agressiva de algoritmo, debate público hostil e lógica de viralização rápida. E, sim, quem vive o mundo digital costuma reconhecer quais redes entram nesse pacote. ? Quando me pedem exemplos, eu digo que existem ambientes potencialmente mais seguros, desde que haja curadoria, mediação e uma relação familiar próxima e genuína. YouTube pode ser mais manejável com filtros e moderação do responsável. Instagram e TikTok têm configurações para adolescentes, mas muita gente ignora (porque existe o perfil “dos pais” e o perfil real, aberto para a comunidade). WhatsApp pode ser “ok” se for em grupos fechados, com pessoas conhecidas e limites claros: as “tretas” vão acontecer, mas isso não vira um palco público. Agora, sobre os mais arriscados: Twitter, ou X, como hoje é chamado, é arriscado até para adultos. Eu considero uma plataforma com cultura de conflito e exposição, com barreiras frágeis na prática. E também coloco um alerta importante sobre servidores abertos do Discord: combinação de multidão, contato com desconhecidos, anonimato e dinâmica intensa de jogo — o risco emocional aumenta muito se não houver olhar e presença dos pais. Quando eu digo presença, é presença real: pais precisam entender onde o adolescente está navegando. TikTok merece um cuidado especial quando a lógica é viralização e bolhas rápidas: o algoritmo pode empurrar o jovem para “novelinhas do cotidiano”, conflitos, polarizações e conteúdos que parecem enormes quando, na verdade, são apenas bolhas alimentadas por recomendação contínua. ❓ E a pergunta final sempre volta: qual idade é a certa? Oficialmente, quase tudo ainda gira em torno dos 13 anos. Mas idade “no papel” não resolve o que importa: maturidade, repertório emocional e letramento digital. Crianças até 12 anos, idealmente, não deveriam ter perfil próprio. E eu sei que isso esbarra em pressão social, especialmente no Brasil. ? Então, eu reforço um caminho mais realista: na primeira infância, a prioridade é construir habilidades sociais no mundo presencial (brincadeiras, psicomotricidade, convivência, resolução de conflitos). Depois, quando chega a fase de 13 a 16, entra uma etapa que precisa de mediação: orientar, conversar, combinar limites, ensinar posicionamento e defesa diante das ameaças do digital. Por volta dos 16, em muitos casos, o jovem já tem mais autonomia para lidar com isso, mas tudo depende do que foi “treinado” antes. ️ Para fechar, eu gosto de usar um exemplo simples: a internet é uma extensão da vida. Então, eu pergunto: com quantos anos você deixaria seu filho sozinho dentro de um shopping lotado, em época de Natal? A resposta costuma apontar para a mesma lógica: o ambiente pode ser público, cheio de desconhecidos, com riscos e não dá para fingir que isso não existe no digital. Não existe uma regra única que sirva para todas as famílias. Existem dinâmicas, valores e realidades diferentes. Mas existe, sim, uma linha geral: proteger a construção da identidade, favorecer pertencimento com vínculo real e impedir que o erro vire espetáculo público. É essa curadoria — e a qualidade da relação entre pais e adolescentes — que define muito mais do impacto das redes do que o nome do aplicativo em si. Antes de perguntar “qual rede é melhor ou pior”, precisamos entender a dinâmica das redes sociais, afirma especialista Freepik Sexo: Como falo sobre esse tema com crianças e adolescentes? Luisa Sabino Cunha, psicóloga, pós-graduada em Neuropsicologia Clínica e Orientação Educacional, especialista em Dependência Digital e fundadora do Instituto Mentis Digitalis ❓ Essa é uma dúvida muito comum entre pais, mães e cuidadores — e é natural que gere insegurança. Não existe uma resposta única ou uma rede social “ideal”. Mais importante do que separar plataformas em boas ou ruins é entender como, para que e em que momento do desenvolvimento crianças e adolescentes estão usando as redes sociais. ? Crianças e adolescentes ainda estão aprendendo a lidar com emoções, frustrações, comparações e com a própria imagem. As redes sociais, por outro lado, são ambientes pensados para prender a atenção, estimular curtidas, comentários e comparação constante. Quando esse uso acontece sem acompanhamento, pode aumentar sentimentos de ansiedade, insegurança e exposição a situações para as quais muitos jovens ainda não estão preparados. Algumas redes favorecem mais a comparação de aparência e popularidade; outras funcionam com vídeos rápidos e estímulos contínuos. Nenhuma plataforma é neutra: todas entregam mais daquilo que desperta interesse, o que nem sempre significa algo saudável para quem ainda está em formação emocional. No Brasil, atualmente não há uma proibição geral para que menores de 16 anos utilizem redes sociais, mas esse cenário está mudando. A partir de março de 2026, com a implementação do ECA Digital, contas de crianças e adolescentes até 16 anos deverão ser vinculadas às de seus responsáveis legais, com ferramentas de supervisão parental. Também deixará de ser permitida a simples autodeclaração de idade para acesso a conteúdos de risco, exigindo verificação em atividades mais sensíveis, além de restrições a conteúdos adultos, de apostas e de manipulação de imagem para menores de 18 anos. ‍‍‍ Mesmo antes dessas mudanças, é importante lembrar que o mundo digital faz parte da vida familiar. Mais do que decidir qual rede permitir, vale observar como esse uso afeta o humor, o comportamento e as relações. ? No fim, redes sociais não substituem vínculos reais. Quando os adultos conseguem estar próximos, atentos e disponíveis, o ambiente digital pode ser atravessado com mais segurança, com adolescentes mais amparados, orientados e menos expostos a riscos silenciosos. O mais importante não é controlar cada passo, mas caminhar junto e ajudar a construir senso crítico e equilíbrio ao longo do tempo. DESCOMPLICA. Em resumo, o que dizem os especialistas ? Desenvolvimento: Redes sociais impactam diretamente a formação da identidade, do pertencimento e da autoestima de crianças e adolescentes. ? Ambiente: O risco não está só na plataforma, mas no grau de abertura, exposição pública, métricas de validação e anonimato. ⚖️ Comparação: Likes, seguidores e viralização intensificam comparação social e podem aumentar ansiedade e insegurança emocional. ? Mediação: Presença adulta, diálogo, regras claras e acompanhamento fazem mais diferença do que proibir ou liberar redes específicas. Maturidade: Idade legal não garante preparo: letramento digital e repertório emocional são decisivos para um uso mais seguro. Amizades: O que fazer quando a criança diz que não tem amigos? No radar: classificação indicativa das redes sociais no Brasil, de acordo com o Ministério da Justiça ‍ A atividade de classificação indicativa no Brasil é exercida pelo Ministério da Justiça com base na Constituição e no Estatuto da Criança e do Adolescente. Pela lei, esse mecanismo não pode proibir a exibição de obras, por exemplo, mas, sim, orientar a população. Veja abaixo algumas recomendações segundo classificação indicativa oficial do Brasil: WhatsApp: 12 anos YouTube: 14 anos Kwai: 14 anos TikTok: 14 anos Instagram: 16 anos Facebook: 16 anos ️ X: 18 anos Discord: 18 anos Envie sua pergunta sobre crianças e adolescentes Initial plugin text