Governo brasileiro vê crise interna como único freio a Trump

Integrantes do governo brasileiro avaliam que, diante da assimetria de poder e do enfraquecimento dos mecanismos multilaterais, o único fator que poderia funcionar como freio a uma escalada mais ampla da política expansionista americana viria do próprio ambiente doméstico dos Estados Unidos, hoje marcado por forte polarização política e social. Para diplomatas envolvidos com o tema, o cenário aberto pela ofensiva dos EUA contra a Venezuela é sombrio e acende um alerta para o risco de novas investidas de Washington não apenas na América Latina. Esses interlocutores observam que episódios recentes envolvendo ações do serviço de imigração dos EUA (ICE), como o ocorrido em Minneapolis — quando Renee Good, cidadã americana, foi morta a tiros por um agente do órgão, na quarta-feira —, são sinais de um ambiente interno cada vez mais tenso, com potencial de mobilização que ultrapassa os setores tradicionalmente associados à esquerda americana. Essa pressão doméstica, explicam, pode se tornar o principal fator de contenção política a uma agenda externa mais agressiva do governo de Donald Trump. Após a operação militar conduzida pelos EUA no último fim de semana, que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, Washington passou a detalhar o que pretende fazer com a Venezuela. Anunciou a intenção de assumir o controle das vendas e das receitas do petróleo venezuelano, além de orientar diretamente a reorganização econômica e política do país. Para auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a sequência de eventos configura uma intervenção direta e inédita na história recente da região. Colonialismo desavergonhado Conforme O GLOBO noticiou na quarta-feira, em Brasília, a leitura é que a ação contra a Venezuela não deve ser analisada como um caso isolado. Diplomatas avaliam que ela se insere em uma estratégia mais ampla, associada a uma nova doutrina de caráter expansionista, que recoloca práticas de viés colonial no centro da política externa dos Estados Unidos. Nos bastidores, essa postura é descrita como um “colonialismo desavergonhado”, agora assumido de forma explícita, com controle direto sobre recursos naturais e sobre os rumos políticos de países considerados estratégicos. Nesse contexto, a deposição de Maduro é vista como um precedente de alto risco. Interlocutores do governo classificam o episódio como “perigosíssimo” e avaliam que a resposta da comunidade internacional não pode ser fragmentada, sob pena de normalizar ações que violam a soberania dos Estados e os princípios básicos do direito internacional. O nível de alerta aumentou ainda mais após declarações de integrantes graduados da Casa Branca sobre a Groenlândia. A disposição do governo Trump de discutir alternativas para a aquisição da ilha, que pertence à Dinamarca, reforçou a avaliação de que o episódio venezuelano extrapola a América Latina e aponta para um padrão de atuação com implicações globais. A estratégia brasileira para lidar com esse novo cenário já começou a ser discutida no governo. Lula conversou sobre o tema nesta quarta-feira com o chanceler Mauro Vieira. Em breve, o presidente brasileiro pretende iniciar uma rodada de contatos com outros líderes internacionais, com o objetivo de articular uma defesa coordenada da soberania, do multilateralismo e do respeito às normas internacionais. Desde o início da semana, Vieira vem mantendo conversas com chanceleres e autoridades diplomáticas de diversos países e organismos internacionais, entre eles Canadá, Uruguai, México, França, África do Sul, Colômbia, Venezuela, Noruega, Espanha, Irã e Países Baixos, além da União Europeia e da Organização dos Estados Americanos (OEA). Segundo auxiliares, a maior parte desses contatos ocorreu a pedido dos próprios governos. Na visão do Itamaraty, o caso da Groenlândia ajuda a explicitar a natureza do desafio colocado pelo precedente aberto na Venezuela. O envolvimento potencial de Estados Unidos e Dinamarca — ambos membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) — amplia o alcance da crise e coloca tanto a aliança militar quanto a União Europeia no centro do debate. Para diplomatas graduados, ameaças feitas por Trump no início do mandato — envolvendo a Groenlândia, o Panamá e a própria Venezuela — deixaram de ser meramente retóricas no caso venezuelano. “A Venezuela já é uma realidade. A Groenlândia está no radar”, resume um embaixador ouvido pela reportagem. Soberania A posição oficial do governo brasileiro foi tornada pública no último sábado, quando o presidente Lula condenou o ataque americano e a captura de Maduro e de sua esposa. Ambos deverão ser julgados em território americano por acusações de narcotráfico e outros crimes. Integrantes do governo lembram ainda que, no ano passado, o próprio Brasil esteve na linha de fogo de medidas adotadas por Washington, como o tarifaço e a aplicação de sanções a autoridades brasileiras, entre elas o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. À época, ressaltam, o país recorreu à diplomacia para defender sua soberania. Esses interlocutores destacam que a postura brasileira mantém coerência com posições assumidas em outras crises recentes, como a condenação da invasão da Ucrânia pela Rússia e a atuação para conter a escalada de tensões entre Venezuela e Guiana, quando Maduro sinalizou a possibilidade de anexar a região do Essequibo, rica em petróleo e minerais. Para diplomatas, o fio condutor dessas crises é a erosão acelerada das normas que sustentaram a ordem internacional nas últimas décadas. Na avaliação deles, o retorno explícito de práticas de força e tutela sobre países mais frágeis aprofunda um cenário de instabilidade prolongada, no qual a defesa do multilateralismo deixou de ser apenas um princípio e passou a ser uma necessidade estratégica.