Autoridade da ONU diz que Trump marca 'gol contra' ao retirar EUA de tratado climático

O chefe da ONU para o clima, Simon Stiell, liderou nesta quinta-feira uma onda de críticas contra a decisão do presidente americano, Donald Trump, de retirar os Estados Unidos de um tratado climático fundamental, classificando-a como um "gol contra colossal" que prejudicará o país. Trump emitiu um memorando presidencial na quarta-feira ordenando a retirada de seu país de 66 organizações e tratados internacionais — aproximadamente metade deles associados às Nações Unidas — por serem "contrários aos interesses dos Estados Unidos". O secretário-geral da ONU, António Guterres, "lamentou" a decisão. Clima extremo: Desastres ambientais custaram US$ 100 bilhões aos EUA em 2025, mesmo sem furacões Veja a retrospectiva: COP30, recordes de calor e mudanças políticas definiram o cenário climático de 2025 Uma delas é a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), que serve de base para os principais acordos internacionais sobre o tema. A retirada americana desse organismo entra em vigor um ano após sua notificação oficial, que ainda não foi recebida pelas Nações Unidas. Secretário-executivo da UNFCCC, Stiell afirmou que a decisão de Trump "apenas prejudicará a economia, o emprego e o nível de vida dos Estados Unidos". "É um gol contra colossal que deixará os Estados Unidos menos seguros e menos prósperos", afirmou em comunicado. Críticos do presidente republicano advertiram que a medida isolará ainda mais Washington no cenário global ao transformá-lo no único membro da ONU que não faz parte do tratado. Entrevista: 'Países ricos não admitem culpa pelas mudanças climáticas', diz porta-voz da Anistia Internacional — É um erro estratégico que desperdiça a vantagem americana sem obter nada em troca — afirmou David Widawsky, diretor do centro de estudos World Resources Institute. — O acordo, com 30 anos de existência, é a base da cooperação internacional em matéria climática. Abandoná-lo não apenas marginaliza os Estados Unidos, como também os exclui completamente do âmbito internacional. A medida gerou fortes críticas da União Europeia. A vice-presidente executiva para Transição Limpa, Justa e Competitiva da Comissão Europeia, Teresa Ribera, afirmou que "a Casa Branca não se importa com o meio ambiente, a saúde ou o sofrimento das pessoas". "Paz, justiça, cooperação ou prosperidade não estão entre suas prioridades". O responsável por políticas climáticas do bloco, Wopke Hoekstra, afirmou que a UNFCCC "fundamenta a ação climática global" e une as nações na luta coletiva contra a crise. "A decisão da maior economia do mundo e do segundo maior emissor de gases de efeito estufa de se retirar da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) é lamentável e infeliz", declarou Hoekstra no LinkedIn. COP30: Papa Leão XIV defende Acordo de Paris e cobra ações concretas de combate às mudanças climáticas Ele acrescentou que "certamente continuaremos apoiando a pesquisa climática internacional como a base de nossa compreensão e de nosso trabalho. Também continuaremos trabalhando na cooperação climática internacional". 'Presente para a China' O governador da Califórnia, Gavin Newsom, crítico declarado de Trump e amplamente considerado como provável candidato à Presidência pelo Partido Democrata, declarou: — Nosso presidente sem juízo está cedendo a liderança dos Estados Unidos no cenário mundial e enfraquecendo nossa capacidade de competir na economia do futuro, criando um vácuo de liderança que a China já está explorando — disse. A China é o maior poluidor do mundo, mas também se tornou líder mundial em energias renováveis. World Weather Attribution: Extremos climáticos atingem recordes em 2025, aponta relatório O memorando de Trump também determina que os Estados Unidos se retirem do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU responsável por avaliar a ciência climática, juntamente com outras organizações como a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA, na sigla em inglês), a ONU Oceanos e a ONU Água. Desde que retornou à Casa Branca, há quase um ano, o republicano vem implementando sua ideologia "América Primeiro", que vai além da questão climática. Trump também cortou drasticamente a ajuda externa dos EUA, o que impactou gravemente os orçamentos de diversas organizações da ONU, que foram forçadas a reduzir suas atividades em campo, como o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA). — Seja no clima, na proteção das crianças contra a violência ou nas questões de gênero, seguimos trabalhando com determinação — afirmou nesta quinta-feira o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric. O Departamento do Tesouro americano anunciou também nesta quinta-feira a sua retirada do Fundo Verde para o Clima da ONU, o maior fundo multilateral para o clima do mundo. — Nossa nação não financiará mais organizações radicais como o Fundo Verde para o Clima, cujos objetivos são contrários ao fato de que energia acessível e confiável é fundamental para o crescimento econômico e a redução da pobreza — declarou o secretário do Tesouro, Scott Bessent.