Um novo estudo publicado na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology estima que mais de 1 em cada 4 adultos no mundo se enquadra em condições que os tornam elegíveis para tratamento com análogos de GLP-1 para perda de peso. A classe de medicamentos das chamadas “canetas emagrecedoras”, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, é aprovada para pacientes com diabetes tipo 2, obesidade e sobrepeso com uma comorbidade associada. O trabalho foi conduzido por pesquisadores da rede de saúde Mass General Brigham, da Escola de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis e da Escola Rollins de Saúde Pública da Universidade Emory, nos Estados Unidos. Os cientistas analisaram dados de 810,6 mil adultos, de 25 a 64 anos, coletados de pesquisas domiciliares de saúde feitas em 99 países, entre 2008 e 2021. Os dados foram selecionados com base na disponibilidade de biomarcadores de diabetes, medições de pressão arterial e índice de massa corporal (IMC), além de histórico de hipertensão e diabetes. Foram considerados elegíveis para uso dos remédios para perda de peso aqueles com IMC superior a 30 (obesidade) ou IMC superior a 27 (sobrepeso) associado a hipertensão, diabetes ou ambos. No Brasil, por exemplo, o Ozempic tem o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para diabetes tipo 2, e o Wegovy, que tem o mesmo princípio ativo, a semaglutida, é aprovado para obesidade ou pacientes com sobrepeso e ao menos uma comorbidade ligada ao peso. Já o Mounjaro, que tem como princípio ativo a tirzepatida, é aprovado para as duas condições. Como resultado da análise, os pesquisadores observaram que, globalmente, 27% dos adultos se enquadravam nos critérios ligados à perda de peso e estariam dentro do indicado na bula para realizar o tratamento. O número não considera aqueles elegíveis apenas para tratar diabetes. “Diante da prevalência constantemente crescente da obesidade, não é surpreendente que nossa análise tenha encontrado que mais de um quarto dos adultos em todo o mundo pode ser elegível para esse medicamento. Esse medicamento tem o potencial de ajudar muitas pessoas, embora mais pesquisas sejam necessárias para compreender melhor sua segurança e sustentabilidade a longo prazo”, diz Sang Gune K. Yoo, autor do trabalho e pesquisador em Cardiologia na Universidade de Washington, em comunicado. As taxas foram mais altas na Europa e na América do Norte (42,8%) e nas ilhas do Pacífico (41,0%). Por outro lado, foram mais baixas na África Subsaariana (16,4%) e no Sul, Leste e Sudeste da Ásia (23,1%). Na região da América Latina e do Caribe, 38,8% dos adultos foram considerados elegíveis para uso das canetas emagrecedoras, acima da média mundial. Em relação ao gênero, as mulheres foram levemente mais propensas a cumprirem os critérios do que os homens (28,5% contra 25,5%). Já para a idade, quanto mais avançada, maior foi o percentual, indo de 38,3% entre aqueles com 55 a 64 anos até 17,9% entre os de 25 a 34. Os pesquisadores avaliaram ainda os diferentes percentuais de acordo com os aspectos econômicos. De um modo geral, países de alta renda tiveram uma proporção maior (41,8%) de indivíduos elegíveis ao tratamento para perda de peso, que caiu gradualmente até chegar a 11,7% entre as nações de baixa renda. A nível individual, pessoas no quintil mais rico (divisão que separa a renda em cinco grupos) apresentaram uma taxa maior (27,5%) que também caiu progressivamente até 19,3% entre os do quintil mais pobre. O mesmo foi observado para a escolaridade: entre aqueles que completaram pelo menos o ensino médio, 28,2% foram elegíveis ao uso dos remédios para perda de peso, enquanto o número foi de 22,8% entre os sem educação formal. Segundo os cientistas, os números estão inseridos dentro de um contexto em que a prevalência mundial da obesidade mais do que dobrou nas últimas três décadas, trazendo consigo um aumento de doenças relacionadas ao peso, como diabetes, doenças cardiovasculares e cânceres e gerando uma crise global de saúde pública. “Nunca houve uma ferramenta potencialmente tão transformadora e escalável para a obesidade, o diabetes tipo 2 e outras complicações de saúde relacionadas à obesidade. Por muitas décadas, dissemos a todos que o problema era você, que precisava se movimentar mais e comer menos para não enfrentar esse problema. Os remédios nos permitiram compreender que a biologia é muito mais poderosa do que isso, e que ‘comer menos, mover-se mais’ é apenas uma forma excessivamente simplificada de pensar a questão”, afirma Jennifer Manne-Goehler, médica da Divisão de Doenças Infecciosas do Brigham and Women’s Hospital e do Departamento de Medicina do Mass General Brigham e autora do estudo. No último ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a indicar os fármacos como parte do tratamento da obesidade, que é uma doença crônica, multifatorial e recidivante. Entidades médicas, como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), também recomendam os medicamentos. Um entrave, no entanto, é o acesso em meio aos altos preços. No Brasil, o tratamento mensal pode chegar a quase 2 mil reais, e os remédios não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) nem são cobertos pelos planos de saúde. “O acesso global aos GLP-1s é uma questão de equidade em saúde. O objetivo é garantir acesso em larga escala para as pessoas que mais se beneficiariam, e não apenas para aquelas mais fáceis de alcançar", afirma Felix Teufel, pesquisador da Escola Rollins de Saúde Pública da Universidade Emory e autor do estudo. Ainda assim, nos países de renda mais alta, a adesão às canetas tem crescido rapidamente. Nos EUA, por exemplo, cerca de 15 milhões de pessoas fazem uso dos análogos de GLP-1 (para diabetes e perda de peso) – número que, embora alto, seja pouco mais de 10% dos 137 milhões elegíveis, segundo uma análise de pesquisadores publicada na JAMA Cardiology no final de 2024. Já no Reino Unido, 1,6 milhão de adultos usaram os medicamentos especificamente para emagrecer entre o início de 2024 e o início de 2025, de acordo com um novo estudo publicado na BMC Medicine. Outras 3,3 milhões de pessoas afirmaram que teriam interesse em usar os remédios ao longo do próximo ano.