Michael Jackson passava as madrugadas acordado, consumido por dúvidas que não o deixavam em paz. Nos últimos anos de vida, o artista viveu imerso em ansiedade, insônia crônica e um crescente sentimento de desconfiança — um retrato íntimo agora reconstruído por Dan Beck, ex-executivo da Epic Records e um de seus confidentes mais próximos, em entrevista, nesta semana, ao The Sun e no livro de memórias You’ve Got Michael. Segundo Beck, as ligações de Jackson por volta das 2h da manhã tornaram-se frequentes. O cantor, inquieto, repetia as mesmas perguntas sobre rumos da carreira, singles e estratégias. “A mente dele estava a mil por hora o tempo todo”, relatou ao tabloide britânico. A incapacidade de dormir vinha acompanhada de uma necessidade constante de reafirmação, levando o artista a revisitar, noite após noite, as mesmas decisões. A imagem pública como fonte de angústia Grande parte dessa inquietação estava ligada à forma como Jackson acreditava ser visto pelo público. Beck contou que levava ao cantor pesquisas e reações de fãs para orientar ações de marketing. Muitos comentários eram duros. “Foi difícil ficar sentada em silêncio e observá-lo ler. Ele estava pensativo, absorvendo tudo”, disse. Jackson fazia questão de analisar cada reação, interessado em compreender minuciosamente como era percebido fora do palco. Essa obsessão não surgiu do nada. Desde os anos 1990, a reputação do artista vinha sendo corroída por sucessivas controvérsias. Em 1993, ele foi acusado de abuso sexual contra o menor Jordan Chandler, caso encerrado com um acordo de US$ 22 milhões fora dos tribunais. Uma década depois, a entrevista à BBC conduzida por Martin Bashir reacendeu críticas e levou a uma nova investigação criminal, seguida da acusação de Gavin Arvizo. Rumores sobre sua vida privada, o fim do casamento com Lisa Marie Presley e aparições midiáticas reforçaram a imagem de um artista excêntrico e cercado de polêmicas. Dan Beck afirma que o Rei do Pop ligava para ele às duas da manhã em busca de aprovação para suas decisões musicais Reprodução/Redes sociais Inserido nesse cenário, Beck descreve seu trabalho como parte de uma “batalha de alto risco” para proteger o legado de Jackson. Ele afirma nunca ter testemunhado diretamente qualquer atividade criminosa. “Pensei nisso mil vezes, mas nunca consegui ligar os pontos com nada que eu realmente tenha visto”, disse ao The Sun. Ainda assim, reconhece que o círculo íntimo do cantor era dividido entre profissionais experientes e oportunistas, enquanto Jackson demonstrava certa ingenuidade sobre como suas atitudes eram interpretadas fora de seu entorno. Dan Beck trabalhou com o cantor desde 1991, no lançamento de Dangerous, álbum que vendeu cerca de 32 milhões de cópias e foi o mais vendido de 1992, e participou da estratégia de HIStory, que alcançou cerca de 20 milhões de unidades apesar das turbulências pessoais. Em You’ve Got Michael, publicado pela Trouser Press Books, o executivo revisita esse período de pressão constante, focando menos nas controvérsias e mais nos bastidores da indústria musical durante o auge — e o desgaste — do artista mais famoso do planeta.