Botinhos ao mar: Projeto dos Bombeiros esgota as cinco mil vagas em oito minutos

As inscrições para o Projeto Botinho 2026 mal foram abertas e já se encerraram. Em apenas oito minutos, as cinco mil vagas disponibilizadas pelo Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ), em parceria com o Sesc-RJ, foram totalmente preenchidas, confirmando a força e a relevância da iniciativa, que é considerada pela corporação a mais tradicional colônia de férias gratuita da América Latina. O número elevado de acessos — mais de 15 mil registros no site oficial — evidencia a confiança das famílias em um projeto que há mais de seis décadas atua diretamente na prevenção de afogamentos e na formação de jovens mais conscientes. Recesso escolar: Parque Lage aposta em cursos de verão e atividades infantis para movimentar as férias de janeiro Ipanema dispara em valorização imobiliária em 2025 e encosta no Leblon; veja média de bairros do Rio Criado em 1963, em Copacabana, o Botinho nasceu em um contexto de crescimento populacional e aumento da frequência e da prática de esportes nas praias. — O projeto surge de uma pressão e de uma demanda da sociedade por uma população mais consciente dos riscos no mar. Havia um aumento dos afogamentos e da ocupação das praias, e era preciso agir — explica o tenente-coronel Fábio Contreiras, do CBMERJ. Segundo ele, não por acaso Copacabana, berço da iniciativa, segue sendo o polo com maior tradição e volume de vagas — com exceção deste ano. Copacabana. O bairro soma a maior quantidade de vagas do projeto Botinho na Zona Sul: são 230 inscritos Divulgação/Ricardo Cassiano Em 2026, o Botinho acontece entre os próximos dias 21 e 30, sempre das 8h às 11h, em 29 praias fluminenses. Embora esteja presente em todo o litoral do estado, o projeto mantém forte concentração na capital, especialmente na Zona Sul, onde surgiu e se consolidou como referência. Na Zona Sul, o Botinho 2026 terá turmas na Praia de Copacabana (Posto 6, ao lado da Colônia de Pescadores), na Praia do Flamengo (Posto 2) e em São Conrado (Posto 13). Copacabana contará com 230 vagas. No Flamengo, serão 70 vagas, assim como em São Conrado. Já a maior turma deste ano ficará no Recreio dos Bandeirantes, no Posto 12, com 420 vagas, em razão das obras no grupamento marítimo da Barra da Tijuca, que concentrou as atividades nessa região. Educação ambiental é um dos pilares das aulas Além das zonas Sul e Sudoeste, o projeto é realizado em praias como a da Moreninha (Paquetá), Barra de Guaratiba, Pedra de Guaratiba, Itaipu, Piratininga, Itaipuaçu, Ponta Negra e Farol de São Thomé e no Piscinão de Ramos, cobrindo diferentes realidades do litoral fluminense. — Cada praia tem suas particularidades, mas o cronograma é o mesmo. A aula é padronizada, o que muda são as condições do mar e a forma como o guarda-vidas orienta de acordo com aquele local — afirma o tenente-coronel Fábio Contreiras. Lição. Os participantes aprendem a diferença entre as bandeiras Divulgação/Ricardo Cassiano Crianças e jovens são divididos em três turmas, de acordo com a faixa etária: Golfinho (7 a 10 anos), Moby Dick (11 a 14 anos) e Tubarão (15 a 17 anos). A metodologia pedagógica respeita essas diferenças. — Os mais novos têm uma linguagem mais lúdica. No Moby Dick, a abordagem é intermediária. Já no Tubarão, são quase jovens adultos, com atividades mais complexas e progressivas. A divisão por idade reflete a preocupação em adaptar a comunicação e o conteúdo ao desenvolvimento de cada grupo — explica Contreiras. Durante o projeto, os participantes realizam exercícios físicos na areia, aprendem noções de primeiros socorros, recebem orientações sobre leitura do mar, identificação de valas, correntes de retorno, períodos de ondas e significado das bandeiras de segurança. A educação ambiental também é um dos pilares, com foco na preservação e na limpeza das praias. — O objetivo é transformar crianças e jovens em futuros adultos mais conscientes. Eles aprendem sobre segurança, mas também socializam, convivem com crianças com deficiência (que também podem participar da iniciativa) e levam esse conhecimento para casa. É um projeto educador e socializador — ressalta o tenente-coronel. As aulas são ministradas pelos próprios guarda-vidas que atuam nas praias, acompanhados por instrutores e monitores auxiliares. O envolvimento dos profissionais é tão grande que, segundo Contreiras, há uma disputa interna para participar do projeto. — Em dezembro, os bombeiros já põem seus nomes nas listas. Temos reuniões pedagógicas, estruturamos planos de aula e dividimos as equipes para que todos possam passar por essa experiência. É gratificante ver a transformação das crianças, o brilho no olhar ao final do projeto — conta. 3° GMAR. Alunos são guiados por instrutor no início de uma aula na Praia de Copacabana Divulgação/Ricardo Cassiano O sucesso do Botinho também está relacionado ao período em que acontece: férias escolares e o auge do verão, com praias cheias e altas temperaturas. — É gratuito, é realizado nas férias, tem brincadeiras, atividade física e a credibilidade do Corpo de Bombeiros. As famílias confiam, deixam os filhos conosco — diz Contreiras. A parceria com o Sesc-RJ é fundamental para viabilizar a estrutura, frisa ele: — O Sesc custeia camisas, bonés, kits, lanches e dá suporte logístico. Sem esse apoio, seria difícil manter o projeto nesse formato. Ação voltada para crianças e jovens Ao longo dos anos, o Botinho também passou por mudanças na forma de inscrição. O modelo presencial, adotado no passado, foi substituído pelo sistema on-line para evitar filas, frustrações e situações extremas, como famílias que chegavam a dormir em frente aos grupamentos marítimos. — Hoje entendemos que a inscrição pelo site é o método mais democrático. Mesmo assim, a procura é enorme. Este ano, as vagas acabaram em oito minutos — relata Contreiras. Com mais de 22 mil salvamentos no mar por ano no estado, o CBMERJ investe fortemente em ações preventivas. — Fazemos quase dois milhões de ações de prevenção anuais, com orientações aos banhistas, vídeos, panfletos. Mas o Botinho é a nossa maior ação preventiva voltada para crianças e jovens. É um público que conseguimos educar de verdade e que se torna multiplicador. Enquanto os adultos são apenas conscientizados, as crianças têm sua mentalidade formada desde cedo, aprendendo, por exemplo, que bebida alcoólica não combina com banho de mar e que comportamentos de risco, como saltar de pedras, devem ser evitados — afirma o tentente-coronel. Guarda-vidas. Profissionais são os instrutores e monitores durantes as aulas Divulgação/Ricardo Cassiano Enquanto as crianças participam das atividades do Projeto Botinho, pais e responsáveis são acolhidos e orientados por meio da iniciativa conhecida como “Sereias”, criada inicialmente em Copacabana e depois adotada por outros grupamentos. Durante o período das aulas, mães, pais, tias e outros responsáveis podem participar de atividades conduzidas por guarda-vidas dentro dos grupamentos marítimos, com orientações sobre segurança no mar, palestras educativas e noções de primeiros socorros. O nome surgiu de forma espontânea, dado principalmente pelas mães que passaram a frequentar esses encontros, já que a participação é aberta a todos os responsáveis. — É uma forma de aproveitar esse tempo para conscientizar também os adultos, criando uma ação paralela que amplia o alcance do projeto. A iniciativa reforça o caráter educativo do Botinho, transformando a experiência em um momento de aprendizado não apenas para as crianças, mas para toda a família — explica. Ex-participante hoje é capitã bombeira militar O impacto do projeto ultrapassa o período das férias. Muitos ex-participantes se inspiram e acabam seguindo carreira no Corpo de Bombeiros. É o caso da capitã Panza, oficial combatente, que participou do Botinho entre 2009 e 2012, dos 13 aos 17 anos. — Mudou a minha vida. Conheci heróis, instrutores que viraram ídolos, e hoje trabalho lado a lado com eles. Eu estava em fase de escolha profissional, e o projeto foi decisivo para eu optar por ser bombeira militar — relata. Para as famílias que não conseguiram garantir vaga no Projeto Botinho, uma alternativa são as colônias de férias particulares realizadas na praia, que mantêm o foco no esporte, no contato com o mar e na atividade física. Flexões na areia. Exercícios físicos fazem parte das aulas na praia Divulgação/Ricardo Cassiano Um exemplo é quinta edição da colônia promovida pela Equipe Fabio ISK, do educador esportivo Fabio Iskandarian, no Posto 5, em Copacabana, voltada para crianças de 5 a 13 anos. Formado em educação física, Iskandarian é diretor-técnico da tradicional prova Rei e Rainha do Mar. A programação, entre os próximos dias 19 e 23, inclui modalidades como futevôlei, natação, stand up paddle, bodyboard e canoa havaiana, com atividades distribuídas ao longo da manhã. A chegada da criançada acontece às 9h50, com início das práticas esportivas às 10h, pausa para o lanche às 10h50, retomada das atividades às 11h e encerramento ao meio-dia. Os valores variam de acordo com o formato escolhido: R$ 470 para cinco dias, R$ 400 para dois ou três dias e R$ 200 na modalidade avulsa. Contato: 96975-0505 e equipefabioisk@gmail.com.