O que os analistas erraram ao explicar a queda de Maduro

Foram menos de três horas de guerra, a Venezuela durou menos de 3 horas. Parece que os militares de Nicolás Maduro não conseguiram sequer municiar as suas AK-47 russas nem calçar seus coturnos de solas gastas. A capital foi invadida pelo ar sem que nenhum sistema de defesa do país bolivariano tenha resistido. Foi um passeio para os Estados Unidos. Maduro, preso com sua mulher, foi levado para fora do país tal como levamos um menino travesso para ficar de castigo em seu quarto. O socialismo chanchada cobrou seu alto preço, pois, ao destruir a economia de seu país, Maduro destruiu também sua capacidade de investimento e de modernização militares. O resultado foi que a invasão norte-americana parecia mais um passeio de luxo para a elite dos militares dos EUA do que uma investida bélica. O machão comunista, que há poucas semanas instava Trump a ir pegá-lo em Caracas, teve que se esconder às pressas debaixo da cama quando o Laranjão norte-americano foi realizar seu pedido. Ao que consta, no momento da captura, seu Exército estava trocando as fraldas em vez de defender o bigodudo. https://www.youtube.com/watch?v=bsF4PKRgH30&pp=ygUUcmV2aXN0YSBvZXN0ZSBtYWR1cm8%3D Alguns especialistas consultados pela mídia tradicional — como André Pagliarini em entrevista à CNN, em 22 de outubro do ano passado — afirmavam que Trump pararia nas ofensas e nas ameaças, que não ousaria fazer com Maduro o que o Bush pai fez com Noriega em 1989. Imagino que o referido historiador da Universidade da Louisiana acreditava que Trump, ao final das contas, não afrontaria todo aquele acordo de cavalheiros do Direito Internacional, que não ousaria virar a mesa no jantar bem ajustado da diplomacia das Nações Unidas a fim de estabelecer uma zona de influência política e militar na América Latina, mesmo depois de China e Rússia mostrarem estar dispostas a retornarem aos tempos geopolíticos de Guerra Fria. Pois bem, quem pagou para ver, viu. + Leia mais notícias de Mundo em Oeste Agora, obviamente, especula-se as reais intenções de Trump com a ação na Venezuela, e no bolão das análises feitas com o fígado ideológico, a “causa do petróleo” vem ganhando popularidade. Na cabeça desses especialistas, Trump é uma espécie de ladrão clássico, aquele que entra numa propriedade à noite, pega algumas galinhas e um cofre de moedas para logo fugir para seu bairro ou taberna próxima. Obviamente tenho outra tese, mas a minha não se baseia nas afirmações de que Trump é um “porco capitalista transfóbico”, que os EUA são um país imperialista malvadão, e que o comunismo é o único remédio universal para todos os males geopolíticos, sexuais e espirituais da humanidade. Talvez por isso a minha análise não ganharia muito espaço nas mídias tradicionais, mas que bom que Oeste me deixa escrever aqui então. Para além de Trump X Maduro Trump participa de uma reunião do gabinete na Casa Branca em Washington, D.C. — 2/12/2025 | Foto: Brian Snyder/Reuters Muitos não se lembram, ou não estudaram, da invasão da Baía dos Porcos, em 1961, nem como ela ilustra de forma límpida o caso da prisão de Maduro e sua motivação geopolítica. Expliquemos então: depois de os EUA assistirem de camarote a Fidel Castro tomar o poder em Cuba em 1959 e, pouco a pouco, fazer da ilha um quartel caribenho da União Soviética no quintal do Tio Sam, o governo norte-americano tentou afobadamente apoiar, financiar e treinar combatentes para uma contrarrevolução. Por pura incompetência da CIA e do então presidente Kennedy, o ataque à Baía dos Porcos broxou sem sequer realmente ter iniciado. Fidel se estabeleceu no poder e, inspirado pela derrota dos contrarrevolucionários yankees , começava a receber apoio militar e político massivo da União Soviética, ao ponto de, já em 1962, iniciar o projeto soviético de transformar a ilha de Fidel em um satélite militar oficial da URSS, fato que se consumou com a descoberta dos mísseis balísticos soviéticos em Cuba apontados diretamente para a bunda de Kennedy e seus sucessores. "É tolice imaginar que um republicano — ainda mais Trump — assistiria a outro país da região se tornar o paiol militar da Rússia, da China e do Irã" Essa história — o leitor mais sagaz já deve ter notado — nos dá um vislumbre interessante, e crível do porquê os EUA não terem ficado muito tempo assistindo à radicalização ideológica da Venezuela, país que publicamente trançava cada vez mais os laços políticos e militares com Putin e Xi Jinping. É tolice imaginar que um republicano — ainda mais Trump — assistiria a outro país da região se tornar o paiol militar da Rússia, da China e do Irã. https://www.youtube.com/watch?v=s0CFreEEPdo&pp=ygUUcmV2aXN0YSBvZXN0ZSBtYWR1cm8%3D Trump também quer o petróleo ? Não me parece de toda improvável essa possibilidade. É claro que o governo norte-americano se utilizará agora do caldo negro abundante da Venezuela. Mas afirmar que foi por isso que ele invadiu Caracas e prendeu Maduro, isso me parece mais uma daquelas leituras simplórias, feitas por estudantes chapados de diretórios de universidades federais do que por especialistas sérios. Afinal, os EUA invadiram países irrelevantes em questão de abundância de petróleo, tal como Panamá e Kosovo, e não interferiram na Revolução Islâmica do Irã, de 1979, mesmo sabendo que o território iraniano estava assentado — quase que literalmente — em um mar de petróleo. Mais exemplos históricos Fidel Castro assumiu o poder em Cuba no ano de 1959 | Foto: Reprodução/Wikipedia Basta aprofundar um pouco os exemplos históricos para ilustrar minha análise. O que Trump está fazendo é, claramente, aquilo que se convencionou chamar de "Doutrina Truman". Isto é: a contenção da expansão da influência inimiga nas regiões ocidentais, principalmente aquelas que estão próximas ao seu território. A invasão do Panamá para prender Manuel Noriega é um exemplo do meu ponto. Noriega era um ditador que usava o governo panamenho para lavar dinheiro para cartéis de drogas e atuava como agente duplo, espionando Cuba para os EUA, mas vendendo informações da CIA para Cuba. Além disso, como estratégia geopolítica, os EUA parecem plenamente tolerar países hostis que estão longe de sua esfera territorial, tal como China e Vietnã, enquanto que, depois do fracasso em Cuba, decidiu-se por não mais manter-se alheio às derrocadas de países para o plano totalitário em suas circunvizinhança. "O recado de Trump me parece muito claro: os EUA não aceitarão que países da América Latina se tornem satélites ideológicos e militares de seus inimigos" A Rússia age na Ucrânia pelo mesmo motivo que os EUA agem na Venezuela: zona de influência vital. Ambos rejeitam que potências rivais avancem militarmente até suas fronteiras estratégicas. E, em Taiwan, os EUA mantêm presença e ameaça explícita para evitar que a China crie um “fato consumado”. Confesso que aspecto de proteção geopolítica e reafirmação de influência na região não parecem ser os únicos motivos para prisão de Maduro, a crescente do narcotráfico instalado na Venezuela também explica bastante essa ação. O meu ponto é que, das explicações plausíveis, a mídia focou no porquê mais irrelevante possível a fim de pintar um Trump ganancioso e autoritário, em vez de gastar uma análise mais assertiva e historicamente plausível. Em suma, o recado de Trump me parece muito claro: os EUA não aceitarão que países da América Latina se tornem satélites ideológicos e militares de seus inimigos. https://www.youtube.com/shorts/m3b6pS8UW6w Quanto ao resultado efetivo das ações norte-americanas, devemos ter a prudência de esperar alguns meses para ter uma visão menos afobada. Todavia, a manifestação popular do povo venezuelano nas ruas, e tantos outros que, em silêncio, em suas redes e casas, comemoram a queda do ditador, tudo isso nos diz muito mais do que qualquer análise de pixels e cláusulas. Esta semana, a fala de uma venezuelana radicada no Brasil ficou gravada em minha mente, trata-se de duas perguntas, das mais significativas, perguntas essas que não vi ninguém fazer nos debates e análises da mídia tradicional: “O que o Direito Internacional fez por nós até hoje?” — perguntava a moça em lágrimas. “Onde estavam os direitos humanos da ONU quando, passando fome, tive que abandonar minha família na Venezuela?” Essa é a questão que torce o nariz dos âncoras, que faz o sovaco dos especialistas suar ao vivo e que contorce o estômago dos militantes do Psol. Leia também: "As vozes de quem fugiu da ditadura" , reportagem de Rachel Díaz publicada na Edição 304 da Revista Oeste E mais: "O retorno do limite" , por Ana Paula Henkel O post O que os analistas erraram ao explicar a queda de Maduro apareceu primeiro em Revista Oeste .