Em comunicado, Rocío San Miguel atribui soltura a atuação ‘determinante’ de Zapatero e do governo espanhol

Em manifestação oficial assinada pelo irmão após ser liberada pelo governo da Venezuela, a ativista e advogada Rocío San Miguel creditou sua saída da prisão à atuação direta do governo da Espanha e, especificamente, do ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero. Em comunicado divulgado neste sábado, a família de San Miguel revelou que a transferência para Madri foi fruto de negociações diplomáticas que se estenderam por meses. Entenda: Venezuela anuncia libertação de presos políticos como ‘gesto de paz unilateral’ Regime pós-Maduro: Familiares de presos políticos vivem dias de angústia e incerteza na Venezuela O texto, assinado por José Manuel San Miguel, irmão e único porta-voz autorizado da ativista, destaca o agradecimento aos governos da Venezuela e da Espanha, mas dá ênfase especial ao papel do político socialista espanhol. "Agradecemos (...) ao ex-presidente José Luis Rodríguez Zapatero, assim como aos atores que participaram nos recentes diálogos e conversas entre Venezuela e Estados Unidos, cujas gestões foram determinantes para que ocorressem estas excarcerações", diz o comunicado. San Miguel, que possui cidadania espanhola e venezuelana, foi detida em fevereiro de 2024 sob a acusação de conspiração, num movimento que, à época, foi interpretado como um endurecimento de Maduro contra a sociedade civil antes das eleições presidenciais. Segundo a nota oficial, a ida da ativista para a Europa não deve ser interpretada como um banimento forçado, mas como uma solução diplomática construída nos bastidores. O texto cita que a presença dela na Espanha ocorreu "especialmente graças às gestões sustentadas durante mais de um ano pelo ex-presidente José Luis Rodríguez Zapatero, a quem Rocío San Miguel expressou seu profundo agradecimento". Liberdade restrita e silêncio imposto Apesar de estar fora da prisão e em território europeu, a situação jurídica de San Miguel ainda é delicada. A nota da família faz questão de esclarecer, com "absoluta responsabilidade jurídica", que a ativista não recebeu liberdade plena. Trata-se de uma medida cautelar substitutiva. Como parte das condições impostas por Caracas para sua soltura, San Miguel está sob uma espécie de "lei da mordaça". Ela mantém medidas de proibição de declarar publicamente, o que impede que ela mesma narre as condições de seu cárcere ou emita opiniões políticas. "Nenhuma pessoa está autorizada, desde o momento de sua excarceração, a emitir declarações em seu nome, atribuir-lhe opiniões, posições (...) nem interpretar sua situação pessoal, legal, de saúde, nem as condições que viveu na reclusão", reforça o documento. Sobre seu estado de saúde, a família informou que ela se encontra bem, mas segue em reabilitação de um problema no ombro, tendo passado por cirurgias em abril e outubro de 2025. A 'dama de ferro' dos quartéis A prisão de Rocío San Miguel em 2024 gerou comoção internacional devido ao seu perfil técnico e respeitado. Presidente da ONG Control Ciudadano, ela não era vista como uma radical política, mas como a acadêmica que melhor conhecia as entranhas do mundo militar venezuelano. Fontes relataram ao GLOBO no ano passado que sua detenção foi um recado claro ao setor de defesa dos direitos humanos. Diferente de outros opositores, a "arma" de San Miguel era a informação privilegiada sobre a movimentação nos quartéis, algo que incomodava profundamente o Palácio de Miraflores. Sua trajetória de embate com o chavismo é antiga. Em 2004, quando trabalhava no Ministério das Relações Exteriores, foi demitida após assinar a "Lista Tascón", um abaixo-assinado pedindo a revogação do mandato de Hugo Chávez. San Miguel levou o caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos e, em 2018, obteve uma vitória histórica com a condenação do Estado venezuelano por violação de direitos civis — uma derrota que o chavismo jamais digeriu. Agora em Madri, a ativista manifestou, através do irmão, a esperança de que sua soltura seja apenas o primeiro passo de um "processo amplo de reconciliação nacional", desejando a liberdade plena para todos os detidos por razões políticas na Venezuela. Mais ativistas soltos A Foro Penal, uma organização sem fins lucrativos, afirmou nesta sexta-feira (9) ter confirmado que nove presos políticos foram libertados na Venezuela desde o anúncio feito pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, na quinta-feira (8). Rodríguez pontuou que o governo soltaria "um número significativo" de presos políticos. Agora, neste sábado, Alfredo Romero, presidente do Foro Penal, compartilhou no X que a ativista venezuelana Didelis Raquel Corredor também foi solta.