Edson Cordeiro evoca os balangandãs de Carmen Miranda, com a voz ainda notável, em show no Rio de Janeiro

Edson Cordeiro canta o repertório de Carmen Miranda (1909 – 1955) com propriedade em show no Teatro Rival Petrobras Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Edson Cordeiro canta Carmen Miranda e outros bambas Artista: Edson Cordeiro Data e local: 10 de janeiro de 2026 no Teatro Rival Petrobras (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ 1/2 ♬ Foi impressionante como Edson Cordeiro manipulou a notável voz de contratenor para evocar os balangandãs do canto matricial de Carmen Miranda (9 de fevereiro de 1909 – 5 de agosto de 1955) em show que voltou ao Teatro Rival Petrobras, no Rio de Janeiro (RJ), neste segundo fim de semana de 2026. Idealizado para lembrar em 2025 os 70 anos da morte da cantora de origem portuguesa e criação carioca, primeira popstar do Brasil na era do rádio, o show “Edson Cordeiro canta Carmen Miranda e outros bambas” resultou cativante quando o cantor se portou como o senhor da cena. Pareceu até que Cordeiro emulava o registro da Pequena notável tamanha a similaridade vocal quando interpretou sambas como “E o mundo não se acabou” (Assis Valente, 1938), “Bambo do bambu” (Patrício Teixeira e Donga, 1926) – este com um canto de andamento ágil e acento por vozes percussivo – e “Como vaes você?” (Ary Barroso, 1936). Nesses números, o intérprete soltou a voz com vivacidade e malícia evocativas do canto de Carmen nos anos 1930, antes da ida da artista para os Estados Unidos. Quando Cordeiro saiu de cena para abrir espaço para números do trio Gato com Fome, hábil no acompanhamento do cantor, o show perdeu pique pela opacidade do repertório autoral do grupo, pelo menos na apresentação de ontem, sábado, 10 de janeiro. A um mês de completar 59 anos em 9 de fevereiro, também o dia do aniversário de Carmen Miranda, como o artista ressaltou em cena com o orgulho, Edson Cordeiro mostrou que ostenta voz ainda notável, mesmo que já sem o alcance fenomenal dos anos 1990, década em que o cantor foi revelado como prodígio vocal da música brasileira. A destreza e a agilidade com que Cordeiro encarou o choro “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu, 1931) impressionaram em número em que o tema foi turbinado com batucada à moda brasileira. Sem falar que o cantor jamais recorreu ao teleprompter para ler as letras de músicas como “Recenseamento” (Assis Valente, 1940), samba de versos longos. Após cantar o samba “Camisa listrada” (Assis Valente, 1938), Cordeiro engatou o alusivo samba de breque “Camisa de listra” (2024) que ganhou de Zeca Baleiro há dois anos. Ao vivo, o samba resultou sem graça tal qual na gravação feita pelo cantor em estúdio para o álbum “Ouve a minha voz [Cordeiro canta Baleiro]” (2024). Tampouco teve graça a participação afetiva do companheiro do artista, Oliver Bieber, que cantou versão em alemão de “South american way” (Jimmy McHugh e Al Dubin, 1939) após Cordeiro reviver, com a letra original em inglês, este sucesso do repertório da fase irregular de Carmen Miranda nos Estados Unidos. Faltou musicalidade a Oliver para fazer do número mais do que mera curiosidade. Edson Cordeiro conta com a participação do companheiro, Oliver Bieber, no show em que canta o repertório de Carmen Miranda (1909 – 1955) Rodrigo Goffredo Após a segunda das duas trocas de figurino, Cordeiro aumentou a temperatura do show ao reaparecer no palco para cantar o samba “Disseram que eu voltei americanizada” (Luiz Peixoto e Vicente Paiva, 1940), resposta irônica às críticas de que Carmen Miranda perdera a vivacidade brasileira ao migrar para os Estados Unidos. Com a sonoridade potente do trio Gato com Fome, Cordeiro fez de “O samba e o tango” (Amado Régis, 1937) um samba folião, preparando o clima Carnavalesco para a lembrança (fora do conceito do show) do samba-enredo “Bidu Sayão e o canto de cristal”, com a qual a escola Beija-flor de Nilópolis desfilou no Carnaval carioca de 1995. Com direito a trinados operísticos de Cordeiro, a escapada do conceito do show se justificou afetivamente porque o autor do enredo, Milton Cunha, estava na plateia do Teatro Rival Petrobras. E tudo acabou em marchinhas como “Eu dei...” (Ary Barroso, 1937), “Touradas em Madrid” (João de Barro e Alberto Ribeiro, 1938) – com o charme de o cantor ter tocado castanholas no número, “Taí (Pra você gostar de mim)” (Joubert de Carvalho, 1930), “Balancê” (João de Barro e Alberto Ribeiro, 1937) – marcha hoje mais associada a Gal Costa (1945 – 2022), mas lançada por Carmen Miranda – e “Mamãe, eu quero” (Vicente Paiva e Jararaca, 1937), esta, sim, associada à Pequena notável desde que a cantora a propagou em escala mundial no filme norte-americano “Serenata tropical” (1940) em gravação feita com o Bando da Lua. Teve até trenzinho puxado pelo cantor na plateia nesse bloco final. No bis, de clima mais melancólico, o canto interiorizado do artista em “Adeus, batucada” (Synval Silva, 1935) reiterou a propriedade com que Edson Cordeiro aborda o repertório geralmente vivaz de Carmen Miranda neste show que somente perdeu poder de sedução quando o artista deixou a cena ser dominada por quem não tem os mesmos balangandãs na voz e no repertório. Edson Cordeiro em cena com o último dos três figurinos que veste ao longo do show em que canta o repertório de Carmen Miranda (1909 – 1955) Rodrigo Goffredo