O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a avaliar de forma mais concreta possíveis respostas à repressão do regime iraniano contra manifestações antigovernamentais que já deixaram ao menos 192 mortos desde o início dos protestos, há cerca de duas semanas, segundo funcionários em Washington familiarizados com o assunto em relatos ao New York Times. Auxiliares do governo americano preparam briefings com opções que vão de sanções e ações cibernéticas a eventuais ataques militares, enquanto Trump endurece o discurso público e afirma estar disposto a agir caso Teerã continue usando força letal contra civis. Contexto: Manifestantes desafiam governo e protestos se intensificam no Irã Entenda: Irã ameaça alvos dos EUA e de Israel se houver ataque americano As manifestações começaram como protestos contra o aumento do custo de vida, em meio a uma grave crise econômica, mas rapidamente se transformaram em um movimento de contestação ao regime teocrático que governa o Irã desde a Revolução Islâmica de 1979. Desde então, os atos se espalharam por várias cidades, incluindo Teerã e Mashhad, apesar de um bloqueio quase total da internet imposto pelas autoridades, que dificulta a comunicação e a verificação das informações. Segundo a ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, ao menos 192 manifestantes morreram desde o início das mobilizações, incluindo nove menores de idade. A entidade afirma que o número real pode ser maior, já que o apagão da internet impede a confirmação de novos casos. Já o Centro para os Direitos Humanos no Irã (CHRI), sediado nos EUA, relata ter recebido informações “críveis” indicando que centenas de pessoas foram mortas. As organizações apontam hospitais sobrecarregados, falta de sangue e feridos com disparos, inclusive nos olhos. É nesse contexto que Trump tem elevado o tom. Em publicações nas redes sociais, o republicano afirmou que “o Irã está olhando para a liberdade, talvez como nunca antes” e declarou que os Estados Unidos “estão prontos para ajudar”. Em declarações a jornalistas, foi mais direto: disse que, se o regime iraniano voltar a “matar pessoas como no passado”, os EUA “se envolverão”, ainda que sem o envio de tropas. — E isso não significa tropas em terra, mas significa atingi-los muito, muito duro onde dói — disse. Guga Chacra: Em defesa das iranianas e iranianos Cenários de resposta Autoridades americanas afirmam que Trump foi informado nos últimos dias sobre diferentes cenários de resposta. Entre as opções em discussão estão ataques direcionados a estruturas dos serviços de segurança iranianos usados para reprimir os protestos, operações cibernéticas contra alvos militares e civis, novas sanções econômicas e medidas para ampliar o acesso dos iranianos à internet, como o envio de terminais do sistema de satélites Starlink. Não há, até o momento, decisão final, já que as deliberações ainda estão em estágio inicial. Uma reunião formal com integrantes centrais da área de segurança nacional — como o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine — está prevista para discutir os próximos passos. Segundo funcionários do governo, há preocupação de que uma ação militar direta possa ter efeito contrário ao desejado, fortalecendo o discurso do regime de que os protestos seriam estimulados por potências estrangeiras, além de provocar retaliações que coloquem em risco forças e interesses americanos na região. As ameaças, porém, não ficaram sem resposta. No domingo, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, advertiu que bases militares e centros navais dos Estados Unidos seriam considerados “alvos legítimos” caso Washington realize um ataque. A declaração reforçou o risco de escalada em uma região já marcada por tensões elevadas, especialmente após confrontos recentes envolvendo Israel, Síria e grupos armados apoiados por Teerã. Entenda: Por que o Irã vive a maior onda de protestos desde 2022? O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, afirmou que o governo não recuará diante dos protestos, enquanto autoridades do Judiciário e da segurança adotaram um discurso ainda mais duro. O procurador-geral Mohammad Movahedi Azad classificou manifestantes como “inimigos de Deus”, acusação que, no sistema jurídico iraniano, pode levar à pena de morte. A polícia anunciou prisões “significativas” de figuras ligadas às mobilizações, sem divulgar números ou identidades. Por sua vez, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, adotou um tom conciliador em entrevista à televisão estatal, oferecendo condolências às famílias afetadas pelas “consequências trágicas” dos distúrbios. Ele afirmou que os protestos precisam “ser ouvidos”, prometendo aos iranianos que o governo tratará de “suas angústias”. Ainda assim, Pezeshkian acusou os EUA e Israel de trazerem “terroristas do exterior”, que, segundo ele, incendiaram mesquitas e mercados, “decapitaram alguns e queimaram outros vivos”. No exterior, as manifestações provocaram reações políticas e protestos de solidariedade. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse esperar que “a nação persa seja libertada do jugo da tirania”, enquanto Rubio discutiu a situação com o líder israelense em conversas que também abordaram Síria e Gaza. Em cidades como Paris, Londres e Istambul, milhares de pessoas foram às ruas em apoio aos iranianos. Trump, por sua vez, tem citado ações recentes para reforçar sua credibilidade ao ameaçar novos passos. Aliados lembram a ofensiva americana na Venezuela, no início do mês, e ataques conduzidos em países como Síria, Iêmen e Somália. Ainda assim, integrantes do próprio governo reconhecem que qualquer decisão sobre o Irã exigirá um equilíbrio delicado entre pressionar o regime e evitar uma escalada regional de grandes proporções, enquanto o número de mortos nas ruas iranianas continua a crescer. (Com Bloomberg, AFP e New York Times)