O enigma Delcy

Delcy Eloína Rodríguez Gómez não é uma figura acidental, mas a herdeira da "aristocracia civil" bolivariana. Filha do mártir Jorge Antonio Rodríguez, ela combina capital simbólico revolucionário com uma formação europeia que a distingue da elite militar. Agora presidente interina sob a chancela do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela depois da captura de Maduro , Delcy emerge como o pivô de uma transição de alto risco, operando na interseção entre a retórica anti-imperialista e o pragmatismo da diplomacia financeira internacional. No tabuleiro de Caracas, ela governa em simbiose absoluta com seu irmão, Jorge Rodríguez, formando um bloco tecnocrata que se contrapõe à ala radical e ideológica de Diosdado Cabello. Sem comando direto de tropas, sua sobrevivência política depende do "pêndulo" de Vladimir Padrino López, pois o ministro da Defesa atua como o fiador dos militares chavistas. Enquanto Cabello personifica a brutalidade do Cartel de los Soles, os Rodríguez preferem a cooptação cirúrgica e a inteligência burocrática, sob a pressão asfixiante das sanções que pesam sobre Delcy desde 2018. Sua liderança, contudo, é assombrada pelas delações de Hugo "El Pollo" Carvajal e pela iminente colaboração de Maduro em solo norte-americano. Tais testemunhos são venenos de ação lenta que podem expor redes de financiamento ilícito, comprometendo sua viabilidade como interlocutora. Leia também: "Confissões explosivas" , artigo de Eugênio Esber publicado na Edição 293 da Revista Oeste Ela caminha sobre uma corda bamba geopolítica: depende do aparato de inteligência cubano (G2) para monitorar conspirações militares internas, mas qualquer transição que mantenha o cordão umbilical com a ditadura cubana será vista como uma "mudança cosmética" por Washington. Ela precisa projetar-se perante Trump como uma "Murillo venezuelana" — uma interlocutora técnica e moderada capaz de pacificar o país e garantir a estabilidade energética via PDVSA. https://www.youtube.com/watch?v=KXVddea6a1E&pp=ygUTcmV2aXN0YSBvZXN0ZSBkZWxjeQ%3D%3D Delcy, uma aliada confiável? Para os interlocutores internacionais, incluindo Washington, Delcy apresenta-se como uma gestora capaz de operacionalizar a retomada do setor petrolífero e a renegociação de ativos estratégicos. Mesmo sob o peso de investigações externas e da histórica influência de Cuba, ela aposta em uma política de "distensão", por enquanto, sem transição — uma reforma que torne o regime funcional e aceitável para o mercado global. O sucesso de sua gestão reside na capacidade de transformar o Estado venezuelano em um parceiro previsível, garantindo a permanência da elite civil antes de uma possível transição política definitiva. Para os Estados Unidos, Delcy não é uma aliada confiável, mas uma ferramenta de conveniência transacional. Sua sobrevivência dependerá de movimentos táticos milimétricos: ela poderá libertar presos políticos para sinalizar boa vontade, mas dificilmente desmantelará o aparato repressivo, sob risco de sofrer um golpe militar por traição à casta armada. Sua missão é tentar converter o regime em uma estrutura de distensão rumo a uma possível transição — uma autocracia mais palatável e funcional. A volta da democracia dependerá do sucesso deste processo, entretanto, serão passos lentos de graduais, evitando uma guerra civil que poderia eclodir com o retorno abruto da oposição ao poder em conflito com um aparato repressor e armado, alimentado por práticas, recursos e cooptação de grupos terroristas, narcotraficantes e de aparatos de inteligência estrangeiros presentes na Venezuela. https://www.youtube.com/watch?v=m8sdRT_5U54&pp=ygUTcmV2aXN0YSBvZXN0ZSBkZWxjedIHCQlNCgGHKiGM7w%3D%3D + Leia mais notícias de Mundo em Oeste Siga o canal da Revista Oeste no WhatsApp . O post O enigma Delcy apareceu primeiro em Revista Oeste .