A descoberta da penicilina, realizada por Alexander Fleming em 1928, foi uma revolução na medicina e, especificamente, na luta contra as bactérias patogênicas, pois, antes dele, muitas pessoas morriam em decorrência de doenças infecciosas muito comuns, como sífilis, pneumonia e meningite, ou de feridas infectadas. No entanto, foram necessários mais alguns anos para que a indústria farmacêutica conseguisse produzir esse antibiótico em massa. Leia também: 'Bactérias resistentes são um importante problema de saúde pública no Brasil', diz infectologista Melatonina: nunca se pesquisou tanto sobre o suplemento no Brasil, mostra levantamento do Google; veja as principais dúvidas Assim, no início da década de 1940, a penicilina salvou a vida de inúmeros soldados aliados que lutavam na Segunda Guerra Mundial e cujas feridas haviam sido infectadas. Durante a segunda metade do século XX, surgiram novas moléculas antibióticas que rapidamente se popularizaram, graças à sua extraordinária eficácia no combate a infecções não só em humanos, mas também em animais, frutas, vegetais e plantas ornamentais, e na promoção do ganho de peso em galinhas, porcos e gado. No entanto, o uso intensivo dessa classe de medicamentos desencadeou um aumento no que é conhecido como resistência a antibióticos, que ocorre quando certas bactérias se tornam resistentes aos seus efeitos. “A resistência aos antibióticos é um processo que ocorre há milhões de anos entre as bactérias. Elas produzem antibióticos para competir com outras bactérias por recursos em seu ambiente natural e sobreviver. Aquelas que são sensíveis a eles desaparecem. Mas, ao longo de sua evolução, as bactérias também desenvolveram mecanismos que lhes permitem escapar da resposta a essas substâncias químicas”, afirma Samuel Ponce de León Rosales, pesquisador da Faculdade de Medicina e coordenador do Programa Universitário de Pesquisa em Epidemiologia e Riscos Emergentes (PUIREE) da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Mesmo no processo de produção industrial da penicilina, observou-se que seu uso facilitava rapidamente o aparecimento de compostos que a inativavam. “O próprio Fleming salientou, em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Medicina em 1945, que era preciso ter muita cautela com os antibióticos. Ele enfatizou a importância das dosagens porque previa o que aconteceria com o uso intensivo e global desse tipo de medicamento”, acrescenta o acadêmico e pesquisador universitário. Infecções adquiridas em ambiente hospitalar Embora a resistência aos antibióticos tenha se espalhado para outras áreas, é na área da saúde que ela está ganhando mais força. As infecções contraídas por pacientes em hospitais ou outros centros de saúde são comuns; no entanto, com a concentração cada vez mais frequente de bactérias resistentes a antibióticos nesses locais, elas já representam um problema de saúde pública. “Uma complicação infecciosa em uma unidade de terapia intensiva, por exemplo, é mais grave e acarreta um risco maior de morte para o paciente se as bactérias causadoras forem resistentes a antibióticos. Por outro lado, o risco de infecção envolvido em qualquer procedimento médico, como uma cirurgia para remover a vesícula biliar ou o apêndice, um transplante de rim ou de medula óssea, ou a colocação de uma prótese de quadril ou de um dispositivo intravascular, é controlado com razoável segurança por meio do uso preventivo ou profilático de antibióticos, mas, diante dessa nova realidade, sua eficácia está diminuindo.” Conheça: injeção que cria cartilagem no joelho é a nova esperança contra lesões e artrite Sementes auriculares: conheça item que virou moda entre famosas e conquistou até astro da NFL Segundo Ponce, esse risco de infecção em procedimentos médicos ainda pode ser mantido sob controle com o uso criterioso de antibióticos. No entanto, se o aumento contínuo da resistência a essa classe de medicamentos persistir, chegará o momento em que esses procedimentos representarão um perigo muito sério para as pessoas. No setor agrícola Três quartos dos antibióticos produzidos em todo o mundo são utilizados na indústria agrícola para combater infecções em animais, para engordá-los ou para prevenir infecções em plantações. “No entanto, o consumo humano de produtos de origem animal ou de frutas e vegetais tratados com antibióticos contribui para o aumento da resistência a essas substâncias químicas em humanos. Além disso, seja usado corretamente ou em excesso, o uso de antibióticos impacta o meio ambiente, pois, uma vez excretado pelos organismos, ele atinge o lençol freático”, explica Ponce. Medidas Por meio de uma rede de informações formada com 60 hospitais, a UNAM realiza estudos há mais de 10 anos para obter uma ideia mais clara da extensão da resistência aos antibióticos em diferentes regiões do país. “Obtemos informações desses hospitais sobre o que está acontecendo neles e vimos como, na última década, os níveis de resistência a antibióticos em algumas bactérias, em particular, continuam a aumentar, apesar do apelo urgente da Organização Mundial da Saúde para conter esse problema. Isso, obviamente, não é fácil. Requer diversas políticas públicas e o monitoramento de sua implementação”, afirma o pesquisador. O que pode ser feito para deter a resistência aos antibióticos? Usar esses medicamentos de forma racional, somente quando necessário. “Todos os anos, são notificados mais de 20 milhões de casos de infecção respiratória aguda, ou seja, o resfriado comum, no país [México]; na realidade, ocorrem muito mais, talvez em torno de 100 milhões [… ] A verdade é que esses casos de resfriado comum não necessitam de antibióticos; eles se resolvem sozinhos porque têm origem viral. Mas, em mais de nove em cada dez casos, os antibióticos são usados rotineiramente, prescritos incorretamente por profissionais de saúde e solicitados indevidamente pelos pacientes e, além disso, sem qualquer fiscalização institucional. Estamos falando de pelo menos 50 milhões de prescrições desnecessárias de antibióticos emitidas anualmente no México. Claro, temos que recorrer a eles quando surge uma doença infecciosa. Quanto ao seu uso na produção intensiva de produtos agrícolas, não está claro se é sempre justificado. Entende-se que existem situações em que é, mas teria que ser severamente limitado.” Segundo Ponce, é urgente lançar uma grande campanha educativa e uma política pública que proíba a prescrição e o uso de antibióticos em situações injustificadas. “Há mais de 10 anos, houve uma tentativa de melhorar a prescrição de antibióticos, propondo que não fossem vendidos sem receita médica; no entanto, os médicos continuam a prescrevê-los de forma inadequada, o que contribui para o agravamento da resistência aos antibióticos e, consequentemente, enfraquece o combate às doenças infecciosas. Além disso, devemos compreender que os antibióticos são um recurso natural precioso e não renovável e que é imprescindível conservá-los para a nossa saúde e bem-estar.” De 18 a 24 de novembro, foi celebrada a Semana Mundial de Conscientização sobre a Resistência Antimicrobiana, patrocinada pela Organização Mundial da Saúde e pela Organização Pan-Americana da Saúde. “Esta questão deve ser abordada de forma efetiva, para além de cerimônias, discursos e declarações, para que seja possível modificar as práticas clínicas nas instituições e reverter a resistência aos antibióticos. [...] Além disso, o tema da resistência aos antibióticos deve ser incluído nos livros didáticos dos últimos anos do ensino fundamental, para que as crianças saibam que não é aconselhável administrar esses medicamentos sem justificativa médica.”