Após a revolução no tratamento da obesidade trazida pelas "canetas emagrecedoras", como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, resultados de estudos aguardados há anos e aprovações de medicamentos inéditos prometem ampliar o leque de alternativas contra a doença neste ano. Pílulas que facilitam a adesão ao remédio e injeções que elevam ainda mais a perda de peso, para algo próximo ao obtido com a bariátrica, são esperadas para os próximos meses. Uma das novidades mais aguardadas é a orforgliprona, da Eli Lilly, mesma fabricante do Mounjaro. No estudo, o comprimido uma vez ao dia levou a uma perda de até 12,4% do peso após 72 semanas. O laboratório já disse esperar que o medicamento seja aprovado pelas agências reguladoras neste ano. Paulo Miranda, ex-presidente e coordenador do Departamento Internacional da da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica o diferencial do remédio: — Ela tem uma forma de produção diferente, é uma molécula pequena e mais fácil de fazer. E não exige jejum ou espera em relação a outros medicamentos. Por isso tem um potencial grande de alcançar mais pacientes. Também deveremos ter a liberação da semaglutida (princípio ativo do Wegovy e do Ozempic) oral para obesidade na dose de 25mg por dia, que vai ser outra boa opção para os que não querem usar injeções. O Wegovy oral foi aprovado nos Estados Unidos no final de 2025 e deve receber o aval em breve também no Brasil. Nos testes clínicos, proporcionou uma diminuição de 13,6% do peso após 64 semanas. Ele, porém, além de ser mais difícil de produzir, tem restrições que tornam mais difícil a sua adesão. Enquanto a orforgliprona pode ser tomada em qualquer horário do dia, sem impeditivos de comida ou água, o Wegovy oral precisa ser tomado assim que o paciente acordar, com o estômago vazio e com um copo de água de até, no máximo, 118ml. Também é preciso esperar 30 minutos depois para poder comer, beber algo ou tomar outros remédios. Outra boa notícia em relação à orforgliprona é que um estudo da Eli Lilly avaliou pessoas que pesavam mais de 100kg, tomaram Wegovy ou Mounjaro e, depois de um período de 72 semanas em que tiveram uma redução significativa do peso, trocaram as injeções semanais pela pílula nova. O acompanhamento de mais 52 semanas tomando o comprimido mostrou que os pacientes conseguiram manter o peso perdido com as injeções, recuperando, no máximo, cerca de 6kg, enquanto geralmente aqueles que apenas interrompem as canetas recuperam quase totalmente o peso ao longo do tempo. — Essas medicações que temos até hoje, como a semaglutida e a tirzepatida (do Mounjaro) são proteicas, formadas por sequências de aminoácidos associadas a outras moléculas. São medicamentos biológicos, então a produção é cara e difícil. A orforgliprona, pelo contrário, é uma molécula pequena, não proteica e mais fácil de fazer. E é a primeira que chega perto da aprovação para obesidade — complementa Miranda. Remédios ainda mais eficazes Além da maior comodidade com as pílulas, novas opções injetáveis também devem chegar para se somar às terapias usadas hoje para perda de peso. Um deles é o CagriSema, da Novo Nordisk, mesma fabricante do Ozempic e do Wevovy. Ele une a semaglutida a uma molécula chamada cagrilintida, que atua de forma diferente. Os estudos mostraram uma redução de 22,7% do peso após 68 semanas, acima da observada com o Wegovy e com o Mounjaro (17,4% após 68 semanas e 20,9% após 72 semanas, respectivamente). Também são esperados mais resultados de fase 3 e uma possível aprovação de uso da retatrutida, uma nova molécula da Eli Lilly que promete elevar ainda mais a perda de peso e chegar a um patamar próximo ao da cirurgia bariátrica. Isso porque ela simula a ação de três hormônios, a primeira medicação do tipo. Os primeiros dados de fase 3 indicaram uma redução inédita entre fármacos, de 28,7%, em apenas 68 semanas. Outra expectativa para o tratamento da obesidade é o maior acesso com a redução dos preços, que hoje podem chegar a 2 mil reais por mês. Após uma batalha judicial, a patente da semaglutida está prevista para cair em março no Brasil. Farmacêuticas como Hypera Pharma, Biomm, Eurofarma, EMS e até mesmo a Fiocruz já anunciaram planos de lançar versões similares e genéricas no país. O que deve ampliar a concorrência e levar à redução dos preços, já que genéricos, por exemplo, precisam ser 35% mais baratos. — Essas medicações não são atalhos, mas intervenções baseadas em ciência importantes para o tratamento da obesidade, que é uma doença multifatorial, que, junto com mudanças nos hábitos de vida, conseguem dar maior qualidade de vida aos pacientes. Não haverá uma opção melhor para todo mundo, o tratamento é individualizado e deve ser feito com acompanhamento médico. A parte boa é que hoje temos múltiplas opções — diz Miranda. Initial plugin text