CV ataca provedores de internet para cortar comunicação de facções rivais e afeta moradores

Sem internet, sem TV e, em alguns casos, sem energia elétrica, moradores de comunidades da Zona Oeste do Rio tornaram-se vítimas colaterais da guerra entre facções. Para cortar a comunicação de grupos rivais, criminosos do Comando Vermelho (CV) passaram a atacar provedores de serviços, adotando táticas cada vez mais próximas de um conflito armado. Quase na rua: Criminosos tentam libertar chefe de facção de 'alta periculosidade' forjando alvará de soltura do STJ Geneviève Boghici quebra silêncio e diz que filha Sabine não se matou: 'Foi manipulada e morta' Além do impacto direto sobre os moradores, os ataques se inserem em um cenário de escalada da violência. O CV tem recorrido a estratégias típicas de guerra urbana — como o uso de fuzis, barricadas, fossos, óleo derramado em acessos e até drones — para disputar territórios e enfraquecer facções rivais, ampliando o controle sobre áreas estratégicas da cidade. No último dia 7, por volta do meio-dia, policiais da 34ª DP (Bangu) prenderam em flagrante Kaike Portugal de Assis, conhecido como 2K, de 27 anos, pelos crimes de associação ao tráfico e receptação, na comunidade do Conjuntão, em Bangu, na Zona Oeste do Rio. Os agentes receberam a informação de que o autor de recentes ataques às redes de internet e de eletricidade na região do Catiri, localidade vizinha, estaria nos arredores. No local, encontraram Kaike em uma motocicleta roubada. Moraes determina que desembargador preso passe por uma junta médica para confirmar se ele tem doença grave No celular do suspeito, os investigadores tiveram acesso a conversas entre Kaike e integrantes da cúpula do CV sobre os ataques aos equipamentos de concessionárias de energia elétrica e de provedores de internet do Catiri. Em um dos diálogos, por aplicativo de mensagens, havia o registro de uma ação realizada também no dia 7, durante a madrugada, contra a facção Amigos dos Amigos (ADA). Na delegacia, Kaike admitiu ser integrante do Comando Vermelho e afirmou ser subordinado diretamente a um dos chefes da facção, Diego Carneiro Gomes, conhecido como DG, cujo grupo é chamado de “tropa do Gat”. Segundo seu depoimento aos investigadores, esse grupo é responsável por ataques a facções rivais. Ele afirmou ainda que a motocicleta que utilizava pertence a outro chefe do CV, Carlos da Costa Neves, conhecido como Gardenal. Ambos, assim como DG, estariam baseados na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio. Kaike relatou também que os grupos de WhatsApp criados especificamente para destruir provedores de internet e redes de eletricidade são conhecidos como Fogooooo Net e Gat Net CTR. Cada grupo é formado por sete integrantes, escolhidos pela cúpula do CV, com o objetivo principal de atacar e danificar serviços de TV e internet. O acusado já foi condenado por tráfico de drogas e associação para o tráfico, a uma pena de 11 anos e oito meses de prisão. Segundo um dos investigadores da 34ª DP (Bangu), em depoimento, Kaike demonstrou ter relevância dentro da facção e participação direta nos ataques registrados na região. Para a polícia, há indícios de envolvimento da “tropa do Gat” do CV em homicídios. De acordo com relatório do titular da delegacia de Bangu, Alexandre Netto Cardoso, Kaike é “responsável direto pela coordenação e execução dos ataques” ocorridos na região, que resultaram em incêndios criminosos e na destruição deliberada de postes, cabos de fibra óptica e equipamentos pertencentes a concessionárias e provedores de serviços. O delegado destaca que, além de atingir facções rivais, o objetivo do Comando Vermelho é interromper serviços essenciais, impor controle territorial, intimidar moradores e comerciantes e gerar “instabilidade social”. O juiz Pedro Ivo Martins Caruso D’Ippolito, que presidiu a audiência de custódia de Kaike, converteu a prisão em flagrante em preventiva neste sábado (10/01). Ao fundamentar a decisão, o magistrado destacou que o acusado já havia sido condenado anteriormente e que, portanto, haveria “risco concreto de reiteração delitiva”, ou seja, de continuidade na prática criminosa. Em um trecho da decisão, o juiz afirmou: “A realidade da violência fluminense não abre margens à puerilidade ou à ablepsia ideológica. O nefasto cotidiano do Rio de Janeiro é assaz aterrorizante, diante da extensão do domínio territorial das organizações criminosas, o que redunda em verdadeiras zonas de exclusão da soberania estatal, onde imperam o terror e o caos. Em tais locais — autênticos ‘enclaves de microssoberania’ —, os criminosos atuam como insurgentes e senhores do poder normativo, ao arrepio do sistema de legalidade formal do poder público. Tornaram-se corriqueiras a instalação de barricadas e seteiras que impedem a livre circulação de moradores e agentes públicos, o que obsta, inclusive, em áreas já carentes, a prestação de serviços essenciais.” O magistrado também destacou a dificuldade das forças de segurança em conter a criminalidade no estado: “Ressalte-se, ainda, que as próprias forças oficiais de segurança, em muitos casos, precisam efetuar operações de guerra, incluindo a utilização de blindados e helicópteros, para ingressar em locais sob domínio do crime. Não se deve descurar, ainda, que policiais são caçados, torturados e mortos pela criminalidade organizada em razão do simples fato de exercerem suas funções. Além disso, os moradores das comunidades expugnadas, lastimavelmente, são os principais constrangidos pelas bestialidades impostas pela criminalidade. E, no caso concreto, há veementes indícios de que o custodiado integra organização criminosa dessa natureza, o que realça sua periculosidade concreta e a necessidade de sua segregação cautelar.”