A investigação relacionada ao Banco Master apura indícios de irregularidades com a “reavaliação indevida” de ativos financeiros, o que levou a fundos de investimentos a registrar “rentabilidade extraordinária”. O fluxo financeiro sob investigação tinha origem e destino no banco comandado por Daniel Vorcaro, liquidado no fim do ano passado por suspeita de fraude. A intrincada sequência de aportes começa quando o Master concedeu um empréstimo no valor de R$ 459 milhões para a empresa Brain Realty Consultoria. O valor representa 0,43% do capital social da empresa, que passou de R$ 100 para R$ 2,2 milhões quatro meses antes de a empresa realizar essa operação de crédito. Segundo a investigação, R$ 450 milhões foram transferidos para o fundo de investimento Brain Cash, que tem a Brain Realty como única cotista e é administrado pela Reag DTVM. Uma hora e meia depois de receber esses recursos, o dinheiro foi repassado para o Fundo D Mais, também ligado à Reag e que tinha em sua carteira de investimentos papéis considerados sem valor do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Três minutos depois, o Fundo D Mais transferiu o mesmo valor ao FIDC High Tower para liquidar parte de uma aquisição de papéis do Besc. Esse fundo, segundo a investigação, reavaliou esses ativos de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade de 10.502.205% em 2024. No mesmo ano, para efeito de comparação, a maior criptomoeda do mundo rendeu em torno de 120% de retorno em dólar, enquanto o ouro valorizou 61,6% em reais no mesmo período. A partir daí, segundo a investigação, foi registrada uma sequência de operações suspeitas, sendo que algumas delas foram feitas de forma fracionada, com passagens em diferentes camadas de fundos. Há indícios de que o objetivo disso era reavaliar os ativos dos fundos e gerar uma rentabilidade extraordinária sem correspondência com ganhos econômicos reais. Dinheiro de volta ao Master A investigação também suspeita que, após transitarem em diferentes fundos administrados pela Reag, os recursos voltaram para o próprio Master por meio de aquisição de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), principal forma de captação do banco no mercado. Procurada, a Reag explicou “que os recursos mencionados decorrem de operações de crédito estruturadas cujos desembolsos estavam vinculados ao avanço de projetos específicos” e que, “por determinação contratual, a liberação das parcelas só poderia ocorrer após a confirmação de marcos de execução e aprovação técnica desses projetos”. Em nota, argumentou ainda que “enquanto tais condições não eram verificadas, os valores não podiam ser utilizados e deveriam permanecer aplicados em instrumentos financeiros vinculados ao próprio credor”. Esse modelo, diz a gestora, seria “amplamente utilizado no mercado de crédito estruturado, assegura que os recursos permaneçam alocados e preservados até que os projetos atinjam suas fases de implementação e autorização formal”. Procurado, o Master não retornou. A Reag entrou na mira da Operação Carbono Oculto deflagrada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público no ano passado. A investigação apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustível e empresas financeiras. Ao menos três fundos administrados pela Reag que fizeram negócios com o Master também constam da lista de investigados na Operação Carbono Oculto, conforme mostrou reportagem do Uol em novembro de 2025. Dentre eles, estão o Hans 95, Reag Growth e Anna FIC, que realizaram repasses relâmpagos. A dinâmica dessas aplicações em uma estrutura de camadas de fundos se repetiu em operações de lavagem de recursos atribuídas ao PCC, de acordo com a apuração da Polícia Federal. A gestora de recursos nega qualquer irregularidade e tem enfatizado que a associação “não consta de nenhum documento oficial, de nenhuma denúncia, relatório de análise ou manifestação das autoridades competentes”.