Concha y Toro: chairman da gigante chilena revela segredos do best-seller Casillero del Diablo; a principal força da vinícola; como vai o mercado de vinhos; e rótulos que traduzem a marca

À frente da gigante chilena Concha Y Toro, a marca de vinho mais admirada do mundo, com presença em mais de 130 países, o chairman Rafael Guilisasti conta que seu maior desafio é que as vendas de vinhos cresçam novamente. Depois da pandemia, o mercado mundial passa por um ajuste, com redução tanto da oferta quanto do consumo, o que não ocorre no Brasil, que vive um cenário à parte. Em entrevista exclusiva durante visita ao Rio, Guilisasti revelou o sucesso do Casillero del Diablo, idealizado como uma marca global de vinhos, com sucesso em vários países. Ele destacou a importância da pesquisa e do enoturismo neste universo e enumerou cinco rótulos que traduzem a Concha y Toro; dois deles brancos. Casillero del Diablo A ideia por trás do Casillero del Diablo é que percebemos que, um pouco acima dos vinhos de entrada, ao contrário das bebidas destiladas, o mundo do vinho é muito fragmentado. Existem marcas, mas poucas marcas globais. Podemos comparar com o mundo da cerveja, onde existem marcas globais, e foi isso que fizemos com o Casillero del Diablo. O Casillero del Diablo Cabernet Sauvignon Divulgação Foi uma aposta que se materializou em uma marca global de vinhos, baseada em um conceito de marketing que se provou bem-sucedido. Brincamos com a imagem do fogo, do diabo e das cores, e expandir constantemente a linha Casillero del Diablo. Brincamos com isso, e isso nos leva à nossa aspiração: ter uma marca forte nesse segmento de mercado de massa em todos os mercados para os quais exportamos. Atualmente, a marca é forte no Brasil, no Chile, no Reino Unido e também nos Estados Unidos. No nível de consumo em massa, priorizamos não apenas preço, qualidade e eficiência, mas também uma identidade de marca diferenciada. E é isso que estamos conseguindo com o Casillero del Diablo. A lenda do Casillero del Diablo Divulgação O conceito único da Concha y Toro Temos um conceito único na indústria: no Chile e também na Argentina, temos muita produção própria. Fazemos um esforço grande: no Chile cultivamos mais de 10.000 hectares; na Argentina, cerca de 1.500. Isso nos dá capacidade de manter-nos ao longo do tempo. Naturalmente, os vinhos mais finos vêm dos vinhedos próprios; os vinhos mais massivos são um mix entre compras no mercado e produção própria. Isso nos dá permanência e foco, porque o vinho depende da origem, das microzonas dos vales. Nossos 10.000 hectares no Chile estão distribuídos em vales importantes, como Maipo, Limarí, Casablanca. Isso nos permite trabalhar nos dois sentidos. Temos equipes enológicas distintas, e nossa principal força, que nos diferencia de outras empresas, é a distribuição própria. Temos filiais que vendem nossos vinhos: cerca de 70% são vendidos por nós. Temos filiais no Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, México, Canadá (com joint ventures) e um escritório nos países escandinavos. No Chile, naturalmente, também. Ou seja, temos foco na distribuição, e nossa oferta pode atuar em todos os segmentos de preço do vinho. Participamos exclusivamente com vinhos, salvo no Chile, onde temos outros produtos. Rafael Guilisasti, chairman da Concha y Toro Divulgação / Foto de Beto Roma O cenário mundial do vinho A palavra que eu definiria é um cenário de ajuste, porque houve muitas mudanças nos últimos anos. Acredito que houve muitas mudanças desde o término da pandemia, que foi um período anormal. Houve uma explosão, mais consumo. Foi criado muito estoque porque havia muitas dificuldades logísticas de embarque, de abastecimento. O frete era escasso. E naturalmente diferentes países efetuaram ajudas sociais muito importantes, o que aumentou o poder de consumo. Além dessa elevação do poder de consumo, as pessoas ficaram em casa, o que também levou a um consumo muito elevado de vinho. Depois disso veio um ajuste, que tem três componentes. Primeiro, retiraram-se as ajudas sociais destinadas à pandemia, portanto ocorreu uma baixa no poder aquisitivo. Segundo, houve um menor consumo na China por razões econômicas e restrições. Terceiro, que também é importante, há tendências pós-pandemia muito relevantes no segmento dos jovens. Há uma mudança de consumo de mais coquetelaria. E existe uma tendência geral do jovem a consumir menor quantidade de álcool. Os ajustes do mercado Isso trouxe um novo ajuste na indústria que tem dois componentes muito importantes. Um deles é que a oferta de vinhos se reduziu. Houve programas ativos para arrancar vinhedos na Europa. De outro lado, em razão das altas taxas de juros em todo o mundo, o mercado está operando com pouca construção de estoque. Então os vinhos têm que ter uma altíssima rotação, os que funcionam mais rapidamente na cadeia de distribuição. Há uma diminuição de consumo, há uma diminuição de oferta. No segmento básico, pode ser que haja processos de concentração de oferta e muita demanda por eficiência logística. E no segmento de alta gama, em razão do menor consumo na China, há maior disponibilidade de vinho, o que também trouxe ajustes de preços, mas acredito que isso vai se recuperar. Vinhedos do Centro del Viño Concha y Toro Divulgação O Chile no mercado global Primeiro, tivemos no Chile uma redução nas nossas colheitas. Hoje, colhemos cerca de 800 a 900 milhões de litros, quando já tivemos 1,2 bilhão. Isso se deve, em parte, a mudanças em zonas que não puderam continuar cultivando, particularmente no Norte do país. Além disso, nosso país é muito agrícola, e outros cultivos ocuparam terras que antes eram vinhedos, por razões econômicas e de rentabilidade. Outro ponto particular é que nossa economia do vinho é altamente exportadora. Não temos, como outros países produtores (Itália, Estados Unidos – Califórnia –, França), um mercado interno relevante, nem mesmo como a Argentina. No Chile, isso não ocorre. Outro fator é um longo processo, de 20 a 25 anos, no qual várias empresas chilenas decidiram produzir vinhos de alta gama. Ampliamos nossa qualidade de oferta para esses setores. Os primeiros foram os grandes Cabernet Sauvignon da zona do Maipo. Depois, vieram zonas com Chardonnay, Pinot Noir, espumantes, e também regiões costeiras de clima frio, como Limarí. Tudo isso permitiu contar com melhor matéria-prima para produzir vinhos de alta gama. Acredito que o Chile está jogando nesses dois aspectos: na parte alta e também mantendo competitividade nos vinhos de consumo básico. O mercado brasileiro Vejo o Brasil um pouco alheio a essa tendência. É um caso diferente, que se afasta dessas tendências mundiais. Há um maior consumo, porque tem uma taxa muito baixa. O Brasil é talvez um dos mercados mais dinâmicos hoje na indústria do vinho tanto por importação como também pela própria indústria doméstica. O vinho premium chileno Don Melchor Divulgação Vinhos que traduzem da Concha y Toro O Casillero del Diablo Cabernet Sauvignon é a base, o fundamento da nossa oferta. É uma oferta exportadora há muitos anos, com identidade de marca. Em termos de pesquisa e desenvolvimento de novas zonas, sem dúvida a região de Limarí, com o Marqués de Casa Concha Chardonnay e o Amelia, nos vinhos brancos. Fizemos uma aposta na Concha y Toro, assim como outras vinícolas latinas, de não apenas ir para a costa para produzir vinhos brancos de clima frio, mas também para o Norte, pela mineralogia dos solos. Buscamos solos diferentes dos da Zona Central e fomos para o Norte, onde desenvolvemos bastante. Esse Chardonnay vem de uma zona com muita escassez de água, estressada, que produz vinhos brancos excepcionais. Almaviva: vinho ícone chileno Divulgação O Almaviva e o Don Melchor expressam a excelência da qualidade do vinho. O Almaviva é uma experiência única para a Concha y Toro, a visão mais importante que tivemos, de fazer algo completamente novo na indústria chilena. A casa é muito conhecida no mundo, e a aspiração foi buscar onde produzir vinho com base no Cabernet Sauvignon. Assim chegamos a Puente Alto e construímos essa joint venture com a francesa Baron Philippe de Rothschild, que tem sido muito bem-sucedido. É um vinho completamente chileno, completamente francês, que nasce em um terroir único: Puente Alto. Dez anos antes, já desenvolvíamos nosso projeto próprio, Don Melchor, que continua até hoje. Ambos têm muito sucesso como vinhos de alta gama à base de Cabernet Sauvignon. De chateau, o Almaviva é um conceito de assemblage; o Don Melchor é mais puro. São dois vinhos que nos orgulham muito e que abrem caminho para produtos ícones. O Marques de Casa Concha Chardonnay Divulgação Vinhos com menos álcool Acredito que há uma demanda por vinhos com menor teor alcoólico. É um desafio fazer vinhos com menor teor de álcool. Pode-se trabalhar bem no vinhedo e na fase técnica. No final, temos que nos ajustar aos ciclos naturais da uva, não se pode ir muito diferente disso, porque se pode ter como resultado um vinho desequilibrado. Mas é possível fazer. Essa demanda é mais forte nos vinhos de entrada e nos vinhos para jovens. É outra tendência muito importante: os jovens têm demanda por vinhos com menor teor de álcool e por vinhos brancos. A oferta mundial de brancos e rosés está chegando a pelo menos à metade, dependendo dos países, mas como tendência global. E temos as mudanças climáticas também. Vinhos brancos e rosés Há uma dinâmica de vinhos mais leves, vinhos relacionados a coquetéis. Também acredito que o setor que cresce no consumo de vinhos é o feminino. O consumo por gênero estava antes mais voltado para o masculino, hoje acredito que a mulher entrou muito forte no consumo de vinho. Não tenho a estatística, mas uma vez a percepção dessas tendências, o espumante, ou sparkling ou champanhe, o vinho branco, estão indicando que há uma mobilização entre jovens e mulheres para esse tipo de consumo. Degustação de turistas na Concha y Toro Divulgação Mudanças climáticas Em uma tendência de longo prazo, acho que haverá uma escassez de terroir para produzir vinho. Geralmente, os vinhos se movem na faixa mediterrânea tanto no Hemisfério Norte como no Hemisfério Sul. E essa faixa mediterrânea está se deslocando. No caso do Chile, o que está ocorrendo é um avanço das zonas desérticas com escassez de água. A água está se transformando em um fator muito importante. Nossa agricultura irriga o vinhedo em algumas faixas mediterrâneas do Norte, que têm um regime de chuvas muito intenso. Então acredito que a zona produtora de vinho de alta gama está se reduzindo. Precisamos ter muita eficiência na irrigação, um sistema de irrigação adequado. Segundo ponto: há muita proliferação de doenças e vírus em vinhedos, que fazem com que eles durem menos tempo ou tendam a decair a produção. Há muita pesquisa para ter os porta-enxertos mais resistentes à menor temperatura, à menor quantidade de água e também aos vírus. As plantas e o mundo biológico sofrem ataques virais, como nós humanos sofremos com a Covid. Há processos virais que não são mundiais, mas que afetam a agricultura e é preciso buscar soluções para esses temas de longo prazo. Vinhos orgânicos No universo dos vinhos orgânicos, há dois caminhos. Um é a agricultura sustentável, que melhora suas práticas, mas não obtém certificação orgânica. Outro é o mundo dos vinhos orgânicos, que cumprem requisitos e ocupam um nicho de alta gama. Existe demanda, não é exponencial, mas existe. Porém, não basta ser orgânico: o vinho precisa ter qualidade sensorial. Os vinhos orgânicos costumam ser mais caros, e isso gera uma preferência em nichos específicos. Não é uma produção muito massiva, mas tem mercado. Acredito que, à medida que os consumidores evoluam, sobretudo por questões de saúde, os vinhos orgânicos terão mais demanda. Contudo, a oferta é restrita porque é uma agricultura complexa. Taxas dos EUA sobre os vinhos chilenos Vejo duas fases neste tema. O Chile tem uma taxa de 10%, e a União Europeia, 15%. Na primeira etapa, as vinícolas e os importadores fizeram um esforço para não repassar isso aos preços. Mas penso que, em dois ou três anos, se essas tarifas persistirem, os preços vão subir. No início, absorvemos o impacto porque o mercado mundial estava retraído, mas isso não é sustentável a longo prazo. Essa situação gerou ruído no comércio mundial de vinhos e também afetou os vinhos californianos em mercados como Canadá e até na Europa. Alguns países rejeitaram o consumo de vinho americano, não apenas por tarifas, mas como resposta à guerra comercial. Em particular, no Canadá, que era um mercado importante para vinhos californianos, houve uma reação forte contra consumir vinho americano. Inovação e enoturismo O nosso centro do vinho é uma iniciativa com 10 anos de existência, que visa a fortalecer toda a área da inovação. Até o momento, focamos em três aspectos. Um deles é a eficiência hídrica, que acreditamos ser uma questão muito importante no Chile, e onde ainda há muito trabalho a ser feito. Isso inclui sistemas de irrigação tecnologicamente avançados, irrigação no momento certo com base em princípios científicos — determinando quando irrigar e quando não irrigar — e sensores de umidade do solo. Isso abrange toda a área da viticultura. E o uso eficiente da irrigação. O novo empreendimento de enoturismo da Concha y Toro, em Pirque Divulgação O segundo ponto, naturalmente, é o desenvolvimento de plantas resistentes a vírus e adaptáveis a novas condições climáticas, especialmente as plantas que serão consumidas. Não há transgênicos envolvidos; trata-se simplesmente de buscar e reproduzir plantas com as melhores características para resistir a esses desafios. E depois, em terceiro, há o consumidor. No wine center, realizamos extensas pesquisas com consumidores para identificar e validar tendências e testar nossos produtos. Enoturismo Já com relação ao enoturismo, acabamos de inaugurar nossa unidade principal em Pirque, focada no conceito de experiência do visitante. Não se trata apenas de uma visita rápida. Projetamos o espaço para ser uma experiência educativa, ampliando o conhecimento sobre o vinho como produto natural da uva. Também permite que os visitantes se familiarizem com um aspecto muito importante: a identidade da marca Casillero del Diablo. E que tenham uma experiência verdadeiramente prazerosa. A experiência está se tornando cada vez mais importante. Hoje em dia, vivenciar experiências é muito atraente para os consumidores. Bem, no Brasil e no Chile, as pessoas vêm por dois motivos. Aqui, você precisa beber vinho. E temos a sorte de Santiago ter estações de esqui bem próximas no inverno. O enoturismo brasileiro é muito importante. Em nosso centro, mais da metade dos nossos visitantes estrangeiros são brasileiros. Pesquisa x tradição Acredito que a pesquisa é essencial na agricultura. A tradição faz repetir práticas agrícolas; se não houver pesquisa, repetimos práticas. Com pesquisa, entendemos as condições desse campo, os vírus que afetam as vinhas, como limpar as plantas desses vírus. Isso nos mobiliza para uma agricultura moderna, como ocorre na fruticultura, que tem muita pesquisa. O vinho, por ser mais tradicional, está um pouco alheio a isso, mas hoje está mudando. Graças a centros como Davis, ao que fazem na Austrália, e aos viveiristas, essa parte da pesquisa é fundamental para a agricultura. E, além disso, precisamos entender os consumidores. O premiado vinho branco Amelia Divulgação Exportação Exportamos 80%. Para o país também é importante, porque não temos mercados naturais. Somos um país pequeno, nossa produção é impossível de consumir internamente, nem mesmo a metade. Brasil e espumantes Tenho observado com atenção dois fenômenos positivos: o dos espumantes brasileiros, que são produtos de alta qualidade, e os vinhos de inverno. Acredito que o Brasil está desenvolvendo muito potencial nos dois. Há um chileno envolvido com os espumantes, Mario Geise (da Cave Geise, no Rio Grande do Sul). O maior desafio O maior desafio que vivemos é o crescimento. Ou seja, continuar a desenvolver o crescimento através da eficiência na nossa cadeia de suprimentos, na nossa rede de distribuição, e crescer à medida que conseguimos oferecer produtos em diferentes faixas de preço. Não operamos em um nicho de mercado que simplesmente segue o consumidor. Em outras palavras, o setor atual está estagnado; não vivenciamos uma recessão, mas queremos retomar o crescimento. Initial plugin text