Médico desenvolve técnica inédita para localizar tumor renal e evitar retirada do rim Falar em tumor ainda é um assunto que causa apreensão, mas avanços na área médica têm buscado alternativas que preservem órgãos e reduzam danos durante o tratamento. No caso dos rins — essenciais ao funcionamento do organismo — doenças como pedras ou tumores costumam levar à retirada de um deles. Em sua pesquisa de doutorado, o médico urologista Felipe de Almeida e Paula, de Presidente Prudente (SP), desenvolve uma técnica que pretende facilitar a localização de tumores renais totalmente endofíticos - aqueles que se desenvolvem dentro do rim - e auxiliar na preservação do órgão durante a cirurgia. Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp Chamada de “Agulhamento de Prudente”, a proposta utiliza uma agulha guiada por tomografia para marcar o ponto exato onde o tumor está antes da operação. No meio científico, o método é chamado de ARgTC — Agulhamento Renal guiado por Tomografia Computadorizada. A ideia começou a ser estruturada em 2018, a partir da tese “Uma técnica nova e de baixo custo para o tratamento dos tumores renais totalmente endofíticos: agulhamento pré-operatório”. O estudo avalia a viabilidade, segurança oncológica, reprodutibilidade e possíveis benefícios do método como alternativa ao ultrassom laparoscópico, padrão atual para a localização desse tipo de tumor. Uma das vantagens destacadas na pesquisa é que a técnica pode ser reproduzida em qualquer hospital que tenha tomografia, sem exigir equipamentos adicionais ou de alto custo. Antes da operação, paciente é levado para a tomografia e a marcação é realizada Acervo pessoal/Felipe de Almeida e Paula/Hospital de Esperança de Presidente Prudente O que são tumores endofíticos Em entrevista ao g1, Felipe de Paula, que é mestre e doutor em oncologia pelo AC Camargo Cancer Center explicou que o tumor endofítico é aquele que se desenvolve dentro do rim. Segundo o especialista, os tumores renais costumam parecer com uma “orelhinha”. Quando eles crescem para fora do órgão — que são chamados exofíticos — no momento da operação é retirada a capa de gordura que envolve o rim e o tumor já pode ser observado. No entanto, os casos endofíticos correspondem a cerca de 10% a 15% dos registros e representam um desafio para os profissionais médicos. “Se a 'orelhinha de Mickey' cresce para dentro, quando você tira a capa de gordura do rim [durante a cirurgia], você olha para o rim e não consegue saber onde está o tumor”, citou. Nesses casos, existem alternativas para ajudar a encontrar o problema. Uma delas é um ultrassom intraoperatório que, porém, não é um equipamento acessível para todos os hospitais devido ao alto investimento para a aquisição. “Ele também não é suficiente, porque às vezes mesmo com o ultrassom você coloca e você tem dificuldade de achar, há alguns tumores que não aparecem direito no ultrassom. Então, ou você usa esse equipamento, que hoje é o padrão, ou você tira o rim”, comentou. Técnica auxilia na retirada do tumor endofítico sem a perda do rim Acervo pessoal/Felipe de Almeida e Paula/Hospital de Esperança de Presidente Prudente Localizando um tumor Na ausência do equipamento, é preciso abrir o rim para localizar o tumor. E então começa uma corrida contra o tempo. O médico descreveu que o rim sangra quando é cortado. Assim, na hora da cirurgia, é realizada uma manobra para fechar a chegada de sangue ao rim para que o cirurgião possa mexer e não ficar sangrando. “Quando você põe esse fechamento ali na artéria, você tem um tempo para tirar o tumor, que o ideal seria ao redor de 25 minutos. Depois disso, é como se fosse um infarto. O rim vai sofrendo e vai perdendo função”. Ao clampear, ou fechar, a chegada de sangue ao rim, o tempo está correndo e ainda é preciso localizar o tumor para retirá-lo. Passado o período ideal, pode ser necessário retirar o órgão. “É muito difícil para quem está executando a cirurgia. São casos desafiadores. Então, eu tive a ideia de trazer o que se faz na mama, no tumor de mama da mulher: a marcação pré-operatória”, disse ao g1. Agulha deixa um fio metálico flexível que guia o cirurgião até o tumor Acervo pessoal/Felipe de Almeida e Paula/Hospital de Esperança de Presidente Prudente Agulhamento De Paula lembrou que, no tratamento de nódulos de mama, há muito tempo é comum fazer a marcação pré-operatória com agulha. “Quando você coloca, é uma agulha; depois, a agulha sai e fica um fio, como se fosse um fiozinho metálico que é bem maleável”, indicou. Segundo complementa a tese, a agulha que deixa o fio metálico flexível apenas guia o cirurgião — ele não corta tecido nem causa dano ao rim — e já é amplamente usado em hospitais oncológicos. Essa marcação é colocada na radiologia, e a mulher segue para a cirurgia com o local do nódulo já marcado. Desta forma, o cirurgião abre a mama no ponto exato e retira o nódulo, gerando agilidade no procedimento. “Eu falei: ‘vou fazer a mesma coisa no rim’. Parece uma coisa boba, mas nunca tinha sido feito no mundo. Totalmente inédito. É uma coisa simples, que a gente tem a possibilidade de impactar com bons resultados e a custo muito baixo”, disse. Estudo, pesquisa e experimentação Novas técnicas não podem ser executadas sem prévias consultas e autorizações. Com a ideia desenvolvida, houve então consultas aos conselhos regulatórios e conselhos de ética, como a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), órgão regulador de pesquisas em seres humanos. Aprovados, 20 pacientes de Presidente Prudente e região passaram pelo experimento e há cinco anos recebem acompanhamento regrado. Assim, a tese foi defendida em 15 de dezembro de 2025, para então ser publicada. A tese detalha que todos os pacientes tiveram margens cirúrgicas livres, sem tumor residual, e não houve complicações graves relacionadas à técnica. Além disso, o método reduziu o tempo gasto procurando o tumor durante a cirurgia, preservando o rim e permitindo manter a isquemia dentro do limite seguro. “Do ponto de vista oncológico, os resultados foram excelentes. Tivemos 100% de sucesso. Todos os tumores foram encontrados, retirados e os pacientes foram curados”, destacou ao g1 o urologista. Os procedimentos começavam com a passagem do paciente pela tomografia, no setor de radiologia, e, com o apoio do equipamento, os médicos colocavam a marcação do ponto exato do tumor. Na sequência, o paciente seguia para o centro cirúrgico. “Começa a cirurgia, acha o rim, você vê exatamente onde a marcação está entrando no rim, daí nós vamos atrás, achamos o fio e vamos indo, abrimos exatamente nesse lugar e vamos dissecando até achar o tumor. Aí tira o tumor, reconstrói o rim e a gente preserva o rim, sem retirar”, descreveu. Conforme ressaltou o médico, a ideia era propor uma técnica de baixo custo, pois as agulhas são as mesmas utilizadas nos procedimentos de mama e já estão presentes em hospitais que trabalham com câncer, sem demandar aquisição de equipamentos de alto custo. “Fazendo a análise de procedimento, ele chega a ser às vezes até 10 vezes mais barato fazer com a agulha do que fazer com o uso do ultrassom”, completou. Técnica auxilia na retirada do tumor endofítico sem a perda do rim Acervo pessoal/Felipe de Almeida e Paula/Hospital de Esperança de Presidente Prudente Agulhamento de Prudente Chamada de “Agulhamento de Prudente”, a proposta recebeu esse nome não apenas por ter sido concebida em Presidente Prudente, cidade natal de Felipe, mas também pelo sentido simbólico do próprio termo. “Prudente” remete à prudência — “virtude que nos faz prever e evitar faltas e perigos; cautela, precaução; calma e reflexão ao lidar com assuntos delicados”, como define o dicionário — valores que refletem os princípios de precisão e cuidado que orientam o método em estudo. Há ainda uma conexão histórica curiosa: Presidente Prudente leva o nome de Prudente de Morais, primeiro presidente civil do Brasil. Seu neto, Antônio Prudente, fundou a Fundação Antônio Prudente, mantenedora do AC Camargo Cancer Center, em São Paulo, instituição ligada a esta pesquisa de doutorado. Essa coincidência une a origem da técnica, a cidade e a instituição científica em torno do mesmo nome, reforçando o caráter nacional e simbólico da inovação. Próximos passos O estudo demonstrou que a técnica é segura, reprodutível e economicamente vantajosa, e tem sido apresentada Brasil afora. Em 2019 o especialista esteve em Chicago e, em 2021, em Las Vegas, ambos nos Estados Unidos; em 2022 e em 2024, São Paulo recebeu profissionais para conhecer o procedimento; e, em outubro do ano passado, foi a vez da cidade do Panamá. A proposta, conforme o médico, tem sido discutida há algum tempo e, após a publicação, o profissional visa divulgá-la e difundi-la no Brasil — inclusive com apoio governamental — e, inicialmente, nas Américas Latina e Central, através do Latin American Renal Cancer Group (LARCG), grupo latino-americano de estudo de câncer de rim, que faz um trabalho multi-institucional. O estudo foi desenvolvido pelo médico Felipe de Almeida Paula, com apoio do urologista Ravisio Israel dos Santos Junior e do radiologista Fábio Adriano Barbosa Pinheiro Penteado, e orientado pelo uro-oncologista chefe no AC Camargo, Stênio de Cássio Zequi. Felipe ressaltou que não tem retornos financeiros sobre a pesquisa e que o importante é entregar algo que é bom para todos. “Quero para as pessoas a mesma coisa que eu quero para mim. Então, estou sempre buscando desenvolver e melhorar o lugar onde eu estou. Se eu não consigo deixar o melhor, que ele possa ficar muito próximo do que seria o ideal na minha concepção. É gratificante”, destacou ao g1. Urologista defendeu sua tese de doutorado em dezembro de 2025 Acervo pessoal/Felipe de Almeida e Paula Veja mais notícias em g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM