Ouro renova recorde e dólar cai, após presidente do Fed ser intimado pelo Departamento de Justiça dos EUA

O gabinete do procurador dos Estados Unidos no Distrito de Columbia abriu uma investigação criminal contra Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Em uma declaração contundente, por escrito e em vídeo, divulgada na noite de domingo, Powell disse que a medida está relacionada ao seu depoimento no Congresso, em junho, sobre as reformas em andamento na sede do Fed, em Washington. No entanto, afirmou que a iniciativa “deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua do governo”. Com a notícia, o ouro e a prata atingiram novos recordes. O ouro foi cotado a quase US$ 4.600 a onça-troy, enquanto a prata saltou 6%, para US$ 84.6090 a onça. Os futuros das ações dos EUA e o dólar recuaram com a notícia, De acordo com o New York Times, a investigação inclui a análise de declarações públicas de Powell e o exame de registros de gastos e foi aprovada em novembro por Jeanine Pirro, uma aliada de longa data do presidente Donald Trump, que foi nomeada para chefiar o gabinete do procurador dos Estados Unidos no Distrito de Columbia no ano passado. A apuração intensifica a disputa de longa data entre Trump e Powell, a quem o presidente tem atacado continuamente por resistir às suas exigências de cortes significativos nas taxas de juros. Trump ameaçou demitir o presidente do Fed — embora tenha sido ele quem indicou Powell para o cargo em 2017 — e levantou a possibilidade de um processo contra ele relacionado à reforma de US$ 2,5 bilhões, citando “incompetência”. Trump também tentou demitir a diretora do Fed Lisa Cook. A Suprema Corte deve analisar o caso de Cook ainda neste mês. “A ameaça de acusações criminais é consequência de o Federal Reserve definir as taxas de juros com base na nossa melhor avaliação do que serve ao interesse público, em vez de seguir as preferências do presidente”, disse Powell. Ele acrescentou: “Isso diz respeito a saber se o Fed poderá continuar definindo as taxas de juros com base em evidências e nas condições econômicas — ou se, em vez disso, a política monetária será direcionada por pressão política ou intimidação”. Em entrevista à NBC News no domingo, o presidente Donald Trump negou ter qualquer conhecimento sobre a investigação do Departamento de Justiça contra o banco central. Powell disse que o Fed recebeu as intimações na sexta-feira. Trump tem repetidamente defendido cortes agressivos de juros, argumentando que o Fed deveria agir para aumentar a acessibilidade à moradia e reduzir os custos de financiamento do governo. No mês passado, os formuladores de política monetária do Fed reduziram a taxa básica para uma faixa de 3,5% a 3,75% — o terceiro corte consecutivo de 0,25 ponto percentual, após manter as taxas estáveis durante grande parte de 2025. As autoridades sinalizaram que não têm pressa em reduzir os juros novamente até obterem mais dados sobre inflação e emprego. Os dirigentes voltam a se reunir nos dias 27 e 28 de janeiro, e o mercado futuro indica uma chance mínima de mudança nessa reunião. Na sua declaração de ontem, Powell afirmou que pretende continuar exercendo seu cargo “com integridade e compromisso de servir o povo americano”. Ele foi elevado pela primeira vez ao cargo de presidente do Fed em 2018 por Trump. Embora seu mandato atual como presidente termine em maio, seu cargo subjacente como diretor do Fed só se encerra em 2028. Ele não indicou se pretende deixar o cargo em maio ou permanecer no banco central. Trump disse que já escolheu seu indicado para substituir Powell. Ele não revelou o nome do sucessor, mas Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional, é apontado como um dos favoritos. O senador republicano Thom Tillis, membro do Comitê Bancário do Senado — que supervisiona o Fed — saiu em defesa do banco central na noite de domingo. Em uma declaração, prometeu “se opor à confirmação de qualquer indicado para o Fed — incluindo a próxima vaga de presidente do Fed — até que essa questão legal seja totalmente resolvida”. Sem o apoio de Tillis, os republicanos enfrentariam um obstáculo significativo para levar qualquer indicado do comitê ao plenário do Senado para confirmação. — Se ainda houvesse alguma dúvida de que assessores dentro do governo Trump estão ativamente pressionando para acabar com a independência do Federal Reserve, agora não deveria haver nenhuma. O que está em jogo agora é a independência e a credibilidade do Departamento de Justiça — disse Tillis. A procuradora-geral Pam Bondi orientou os gabinetes dos procuradores federais a analisarem casos de possível abuso de recursos dos contribuintes, disse uma das fontes, que pediu anonimato ao discutir a investigação. Um porta-voz do Departamento de Justiça não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. No último verão, o governo Trump intensificou o escrutínio sobre a reforma de dois edifícios históricos do Fed e o aumento dos custos associados ao projeto. Documentos orçamentários do Fed mostram que as estimativas de custo do projeto subiram para US$ 2,5 bilhões em 2025, ante US$ 1,9 bilhão em 2023. O Fed atribuiu os custos mais altos, em parte, a diferenças entre as estimativas originais e as reais de materiais, equipamentos e mão de obra, além de problemas imprevistos, como contaminação tóxica. Em depoimento em junho passado, Powell contestou amplamente reportagens da mídia e críticas de autoridades do governo e de alguns republicanos no Congresso de que o projeto teria elementos de design extravagantes, como uma sala de jantar VIP e jardins no terraço. Powell também afirmou, durante o depoimento, que os planos do projeto “continuaram a evoluir” e que algumas características iniciais “já não fazem mais parte dos planos”. O diretor do Escritório de Gestão e Orçamento, Russ Vought, citou esse depoimento em uma carta enviada a Powell em julho passado, solicitando detalhes sobre a reforma. Bill Pulte, diretor da Agência Federal de Financiamento Habitacional e um crítico ferrenho de Powell, alegou — sem fornecer detalhes — que Powell mentiu sobre aspectos específicos do projeto durante a audiência e sugeriu que o caso poderia constituir “justa causa” legal suficiente para destituir o chefe do Fed do cargo. Na época, a deputada republicana Anna Paulina Luna também pediu ao Departamento de Justiça que considerasse investigar e processar Powell por supostamente mentir sob juramento em seu depoimento. Em meio à controvérsia, Trump visitou o local da reforma e sinalizou que o projeto não era motivo suficiente para demitir Powell. Meses depois, em 29 de dezembro, Trump disse que estava considerando um processo por “incompetência grosseira” contra Powell relacionado ao projeto. Pela lei que criou o Fed, o presidente só pode remover membros do Conselho de Governadores por justa causa, geralmente interpretada como ineficiência, má conduta no cargo ou negligência no dever. — Isso soa como vingança ao estilo Trump e pressão para forçá-lo a sair em maio — disse Mark Spindel, autor de The Myth of Independence: How Congress Governs the Federal Reserve (O mito da independência: como o Congresso governa o Federam Reserve) Se Powell permanecer no conselho, isso complica a maioria de Trump.