E depois do adeus? Sem fim do chavismo à vista, quem manda em Caracas?

<p style="margin-bottom:11px">Os dias que se seguem à invasão militar da Venezuela pelos Estados Unidos fizeram com que a comunidade internacional temesse um vazio de poder, após 25 anos de um chavismo que foi esmagando a liberdade dos venezuelanos.</p> <p>Para o politólogo venezuelano Victor Mijares, a decisão da Administração Trump foi "um mal necessário".</p> <p>Em entrevista à CNN Portugal, o professor da Universidade Nacional dos Andes, especialista em temas de segurança e defesa e conhecedor da política interna venezuelana, mostrou-se preocupado com a possibilidade de um vazio de poder.&#xa0;</p> <p>"Há aproximadamente umas 15 definições distintas de soberania. E uma delas tem a ver, precisamente, com a soberania que emana da vontade popular. E neste caso, a soberania não se pode exercer (durante os governos de Nicolás Maduro)," disse.</p> <p>"Portugal tem uma forma de fazê-lo pacificamente se. Se amanhã não gosta do Governo, tem instituições que podem permitir-lhe, com liberdade, formar um novo Governo. E sem disparar uma bala," continuou Mijares.</p> <h2>Um equilíbrio de poder muito precário</h2> <p>Um vazio que poderá dar lugar a tensões entre as diferentes alas do chavismo, que se foram consolidando ao longo dos anos posteriores à morte de Hugo Chávez, em períodos de governação do Nicolás Maduro marcados por um agravamento do aparelho repressivo.&#xa0;</p> <p>E, uma vez decapitado o poder, Víctor Mijares acredita que a Venezuela vive dias tensos e que os próximos passos da Administração Bush podem ser decisivos e que eliminar o aparelho chavista das instituições federais e estaduais com um golpe é impossível.&#xa0;</p> <p>"O que vivemos na Venezuela é um equilíbrio muito precário, mas a alternativa a esse equilíbrio seria ter arrasado completamente com o regime e isso poderia ter sido muito pior, com violência e anarquia descontrolada."</p> <p>É que o exército da Venezuela, pilar fundamental da governação e repressão madurista, poderia fragmentar-se. Victor Mijares contempla todos as possibilidades, incluindo a de uma guerra civil.</p> <p>"As forças armadas poderiam fragmentar-se, as forças armadas venezuelanas. Mas também estamos a falar de grupos criminosos</p> <p>e de guerrilhas transnacionais, grupos colombianos, como o Exército de Libertação Nacional."</p> <p>Mijares refere ainda a influência na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia que exercerem os guerrilheiros que ainda operam em nome das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC.</p> <h2>Machado ainda pode chegar ao poder</h2> <p>Depois do rapto do Presidente Nicolás Maduro e da mulher, Cília Flores, sob o pretexto de ligação a narcotráfico, os Estados Unidos aceitaram, por agora, a decisão do Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela em nomear Delcy Rodríguez, próxima de Maduro, como presidente interina. O irmão da Presidente interina é Jorge Rodríguez, Presidente da Assembleia Nacional.&#xa0;</p> <p>A medida deixou os vizinhos da Venezuela e a comunidade internacional à espera de uma reação da Administração Trump. Ora, se Rodríguez disse e insistiu que governava apenas por e para os venezuelanos e que nenhuma potência estrangeira iria ingerir nos interesses nacionais, Trump respondeu que a Venezuela era controlada por Washington.</p> <p>Ao mesmo tempo, Trump parece ter prescindido da vencedora do Prémio Nobel da Paz e ua das mais destacadas líderes da oposição, Maria Corina Machado, que deixou o país clandestinamente, com medo de represálias do aparelho chavista.&#xa0;</p> <p>Trump e o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, explicaram, ao longo dos dias que se seguiram à nomeação de Delcy Rodríguez, que apostavam na capacidade dos venezuelanos em dar "continuidade ao processo."</p> <p>Victor Mijares diz que Maria Corina Machado ainda tem, no entanto, possibilidade de chegar ao poder:</p> <p>"Primeiro, Maria Corina Machado não viveu muito tempo fora da Venezuela. Todos os estudos universitários dela foram feitos em universidades venezuelanas. E vem de uma família de tradição política, para além de que o seu tio foi fundador do Partido Comunista da Venezuela nos anos 30." - Gustavo Machado.</p> <h2>Uma elite distanciada da maioria dos venezuelanos?</h2> <p>Sobre a capacidade dos membros da elite venezuelana, no poder antes do início do chavismo em 1998, em estabelecer ligação com a maioria do eleitorado, Victor Mijares acredita que isso é possível, mais não seja pelo desgaste dos governos chavistas. E isso aplica-se a Maria Corina Machado:</p> <p>"Tem uma ligação sim, com as elites uma conexão com essa elite branca de origem colonial. Pode encaixar nessa visão da elite colonial latino-americana branca," admite.</p> <p>"Mas teve uma aceitação grande por parte de alguns setores populares, que a vêm como uma alternativa viável para a modernização do país."</p> <p>Por agora, tanto a oposição, em Caracas e na diáspora, de Madrid a Miami, quanto o aparelho chavista, devem contar com o plano de três fases imposto pela Administração Trump para a Venezuela.</p> <p>E o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, um cubano-americano empenhado em eliminar do Hemisfério Sul das Américas qualquer réstia de sistema socialista, já avisou que o que se está a passar na Venezuela "não é improviso."</p>