Trump considera restaurar conexão de internet do Irã por meio de Starlink de Elon Musk; entenda

Duas semanas após o início da onda de protestos que se espalharam por todo o Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que pretende conversar com o bilionário sul-africano Elon Musk sobre a possibilidade de restaurar o acesso à internet no país por meio do serviço de satélite Starlink, operado pela empresa SpaceX. A declaração, feita no domingo, ocorre em meio a um apagão quase total das comunicações na República Islâmica, alimentando a preocupação da comunidade internacional com a possibilidade de repressões violentas aos manifestantes. — Ele é muito bom nesse tipo de coisa, tem uma empresa muito boa — disse Trump a repórteres, ao responder a uma pergunta sobre a possibilidade de dialogar com a SpaceX. Contexto: Trump avalia ação militar, cibernética ou econômica ao Irã em meio a protestos que já deixaram ao menos 200 mortos Entenda: Trump diz que Irã procurou EUA para negociar após ameaça sobre resposta militar a repressão a protestos Musk e Trump mantiveram uma relação marcada por aproximações e afastamentos depois que o bilionário ajudou a financiar a campanha presidencial vitoriosa de Trump e, posteriormente, orquestrou cortes significativos no governo federal. A dupla teve um rompimento público no ano passado, quando Musk se opôs ao principal projeto de lei tributária de Trump, mas o empresário parece ter reatado a relação com o governo republicano. Os dois foram vistos jantando juntos neste mês no resort Mar-a-Lago, do presidente. Embora o sul-africano e a SpaceX não tenham comentado o assunto, Musk tem apoiado a disponibilização do Starlink a iranianos para ajudá-los a contornar as restrições impostas pelo governo, inclusive durante protestos anteriores, em 2022. Naquele ano, a Casa Branca, ainda sob comando do democrata Joe Biden, dialogou com o bilionário para implementar os serviços da Starlink no Irã, depois que o país foi tomado por protestos após a morte, sob custódia policial, de Masha Amini, de 22 anos. Os protestos atuais seriam os maiores desde então. Atividades rastreadas A dimensão das ocorrências no país, no entanto, é limitada. Autoridades iranianas bloquearam serviços de internet e telecomunicações, o que restringe o acesso a redes sociais, aplicativos de mensagens e até chamadas telefônicas. A interrupção, segundo organizações de direitos humanos e veículos internacionais, dificulta a verificação independente do número de mortos, feridos e presos, restringindo o contato entre familiares e o envio de informações ao exterior. Segundo a agência de monitoramento NetBlocks, o apagão no Irã já dura mais de 84 horas. Exilado: Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, emerge como símbolo de protestos intensos contra o regime de Teerã De acordo com a empresa de segurança digital Cloudflare, interrupções generalizadas de serviços vêm ocorrendo desde quinta-feira. Ainda que apagões de internet sejam comuns no país, Amir Rashidi, diretor de segurança da internet e direitos digitais da ONG Miaan Group, disse à BBC que nunca tinha visto condições como essa. Outro pesquisador da área, Alireza Manafi, afirmou que a única forma provável de conexão seria via satélite Starlink, mas alertou que os usuários devem ter cautela, porque as atividades podem ser rastreadas pelo governo. — Eu nem quero pensar nisso. A ideia me assusta. Eu poderia ser acusado de espionagem — disse um morador ao ser questionado sobre o que as autoridades iranianas fariam se descobrissem que ele estava conectado. — [Mas] essa dor e essa fúria não deveriam ficar escondidas. O mundo precisa saber o que está acontecendo conosco aqui dentro. Repressão e vigilância Outros moradores conseguiram, em janelas curtas de conexão, relatar a situação em diferentes cidades. Em mensagens enviadas à BBC Persian, leitores descrevem um cenário de repressão e vigilância. Um morador de Karaj afirmou que, em um único dia, dezenas de mortos e muitos feridos foram levados a apenas um hospital. Segundo ele, manifestantes passaram a sair às ruas usando máscaras e roupas escuras para evitar identificação por câmeras de segurança. Em Fardis, na região metropolitana de Teerã, um leitor relatou que forças de segurança passaram a usar apenas munição real. De acordo com o depoimento, agentes teriam se posicionado em telhados para atirar contra a população. “Em cada rua morreram duas ou três pessoas”, escreveu, acrescentando que a internet estava completamente fora do ar. O mesmo relato diz que integrantes da Guarda Revolucionária e da milícia Basij substituíram a tropa de choque, armados com fuzis e apoiados por veículos com metralhadoras pesadas. Vídeos mostram manifestações no Irã apesar de bloqueio da internet Outros testemunhos apontam para a presença de agentes em hospitais, onde feridos seriam presos, e para a recusa das autoridades em entregar corpos às famílias. Em Ardabil, no noroeste do país, um morador afirmou que agentes de segurança se instalaram em uma unidade de saúde para deter manifestantes feridos. Em Mashhad, no leste do Irã, relatos mencionam um número elevado de mortos e o uso de rajadas de tiros, além da circulação de veículos armados em cidades vizinhas. “Atiram contra a multidão com espingardas”, escreveu um leitor. Mensagens recebidas pelo veículo indicam que serviços de telefonia e SMS também sofrem interrupções, sobretudo à noite, e que até aplicativos nacionais deixam de funcionar. Um leitor relatou que, após determinado ponto, sair de casa passou a ser visto como risco de morte. Sem correspondentes estrangeiros no país, não é possível verificar de forma independente os relatos, embora descrições semelhantes tenham sido enviadas à imprensa de diferentes regiões. Medida calculada Organizações de direitos humanos alertam que o apagão prolongado impede a confirmação de dados sobre vítimas. A ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, afirma ter confirmado ao menos 192 mortes, mas considera que o número real pode ser muito maior. A Hrana, outra organização com sede nos EUA, por sua vez, disse ter verificado a morte de 490 manifestantes e 48 integrantes das forças de segurança, além da prisão de mais de 10,6 mil pessoas em duas semanas de protestos. O Irã não divulgou um balanço oficial de mortos. Guga Chacra: Em defesa das iranianas e iranianos A Anistia Internacional declarou que o corte da internet parece ter como objetivo ocultar a dimensão de violações graves de direitos humanos durante a repressão, uma acusação que as autoridades iranianas rejeitam. O comandante-chefe da polícia, Ahmadreza Radan, afirmou que o “nível de repressão” foi elevado e que prisões importantes foram realizadas. Segundo ele, parte das mortes teria ocorrido por golpes de faca ou disparos feitos por “elementos treinados”, e não pelas forças de segurança. O governo também acusa os EUA e Israel pelos distúrbios. Os protestos tiveram início em 28 de dezembro, motivados pela disparada dos preços e pelo agravamento da crise econômica. Com o passar dos dias, as manifestações ganharam um caráter mais amplo e passaram a questionar diretamente a elite clerical que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979. A insatisfação também se voltou contra a Guarda Revolucionária, força poderosa com interesses bilionários em setores estratégicos da economia iraniana. (Com agências internacionais)