Entre celebridades e influenciadores que transformaram o Instagram em vitrine de negócios, uma virada silenciosa começa a ganhar espaço: menos foco em números inflados e mais atenção ao que realmente permanece na memória do público. Em um ambiente marcado pela saturação de conteúdo, impulsionada pela inteligência artificial e pela repetição de formatos, estratégias que priorizam consistência e identidade ajudam a explicar por que alguns perfis convertem mais do que aparentam. De Anitta aos tabloides: como o Brasil se tornou vitrine de personagens virais na mídia internacional De influenciadores a empreendedores: especialista analisa tendência que transforma o mercado digital Entenda como a mentoria impulsiona os negócios de celebridades e influenciadores Dados da Opinion Box mostram que, embora o Instagram siga como a principal rede social para compras no Brasil, 65% dos usuários afirmam sentir-se sobrecarregados pela repetição de formatos e discursos semelhantes. Nesse cenário de fadiga digital, ganha força o debate sobre a eficácia das métricas tradicionais e a busca por estratégias que vão além da corrida por curtidas e visualizações. Atuando no mercado desde 2014, Camyla Pacheco construiu sua trajetória ajudando profissionais altamente qualificados — inicialmente médicos e empresários — a enfrentar um paradoxo cada vez mais comum no ambiente digital: excelência técnica não garante relevância nas redes. A pandemia, segundo ela, escancarou essa realidade. "Eu trabalhava com pessoas muito boas no que faziam, mas invisíveis nas redes. A pandemia escancarou isso. Foi ali que comecei a estruturar métodos para transformar presença digital em ferramenta real de negócio, não em vitrine", relembra. O ponto central de sua abordagem está na diferenciação entre conteúdos que apenas chamam atenção e aqueles que constroem valor ao longo do tempo. Para Camyla, apostar em tendências passageiras ou fórmulas prontas pode gerar alcance momentâneo, mas dificilmente cria vínculo duradouro. "Um story que gera apenas visualizações chama atenção momentânea, mas não cria vínculo. Já um story que constrói patrimônio de marca trabalha em camadas: identidade, repetição estratégica e intenção clara. Visualização não é ativo. Memória é. Quando a pessoa lembra de você, reconhece sua linguagem e entende sua proposta, o desejo de compra acontece quase naturalmente", afirma. Na prática, isso significa tratar os stories como uma narrativa contínua, e não como peças soltas. Cada publicação prepara o terreno para a seguinte, educando o público e fortalecendo o relacionamento antes mesmo de qualquer oferta comercial. Com o tempo médio de atenção humana em queda, Camyla avalia que os primeiros segundos de um story ou vídeo curto se tornaram o novo horário nobre da comunicação digital. Ainda assim, ela alerta que retenção não se constrói com choque gratuito. "O principal gatilho hoje é relevância imediata. Nos primeiros segundos, a pessoa precisa entender para quem aquele conteúdo é e por que ele importa. Uso muito contraste de ideias e frases que quebram expectativas comuns do mercado. Não é sobre gritar mais alto, é sobre parecer mais próximo e mais claro do que todo o resto que está passando na tela naquele momento", explica. Especialista Camyla Pacheco explica a nova lógica dos perfis que vendem nas redes sociais Divulgação Outro ponto sensível, especialmente entre grandes empresários e executivos, é o receio de exposição excessiva. Para a estrategista, esse medo nasce da confusão entre aparecer e se posicionar. "Aparecer é mostrar. Posicionar é comunicar com intenção. Exposição sem estratégia gera cansaço e rejeição. Presença estratégica, não", diz. Segundo ela, é possível construir autoridade e proximidade sem abrir mão da privacidade. "Com roteiros objetivos, janelas curtas de gravação e mensagens bem definidas, o empresário deixa de ser refém do celular e passa a usar o conteúdo como ferramenta de crescimento", pontua. Para quem deseja sair das métricas superficiais, Camyla aponta indicadores mais sutis, e mais valiosos, para medir a eficácia dos stories: "Respostas diretas, mensagens privadas recorrentes sobre o mesmo tema e perguntas espontâneas sobre preço ou funcionamento antes da oferta são sinais claros de que a narrativa está preparando o terreno." De acordo com a especialista, stories eficientes geram conversa qualificada, não apenas reações rápidas. "Quando o público começa a antecipar a oferta, é porque houve entendimento e confiança", observa. Em um ambiente em que o algoritmo privilegia interações genuínas, a construção de comunidade tornou-se um diferencial competitivo. Para Camyla, isso acontece quando o conteúdo deixa de falar para as pessoas e passa a dialogar com elas. "Sequências narrativas criam contexto e continuidade. Quando o seguidor sente que faz parte de uma história, ele defende a marca, compartilha e indica. Não é sobre pedir engajamento, é sobre gerar identificação", reflete. Ela destaca que boa parte de seus novos clientes vem de depoimentos espontâneos de seguidores antigos, que acompanham sua trajetória desde o início. Mesmo entre marcas consolidadas, Camyla identifica um erro recorrente: tentar vender antes de educar. "Muitos ainda tratam os stories como vitrine, quando na verdade eles funcionam como bastidor estratégico. É ali que o relacionamento é construído, no dia a dia, em tempo real", avalia. Sua principal aposta para quem deseja crescer de forma consistente passa pela disciplina e pela constância, mesmo fora dos períodos de venda: "Quem constrói relacionamento constante vende com muito mais facilidade e previsibilidade." Saiba: Famosas aproveitam notoriedade digital para conquistar 'alta performance' nos negócios De influenciadores a empreendedores: especialista explica como brasileiros usam a internet para alcançar independência Ao falar sobre o valor que norteia o trabalho, Camyla é direta: "Presença digital não é talento, é método". Para ela, o mito do carisma e da sorte ainda impede muitos empresários de explorarem o potencial real das redes. "Resultado vem de clareza, consistência e estratégia. É possível vender, crescer e se posicionar sem se descaracterizar ou se expor além do necessário", comenta. Em um momento de consolidação e expansão de seu ecossistema digital, a estrategista aposta em novos produtos, parcerias e formatos de conteúdo. O objetivo, segundo ela, é escalar impacto sem perder proximidade. "Crescer, sim. Mas com entrega prática, humana e aplicável à realidade de quem empreende", conclui.