Apesar de ofensiva de Trump contra o Fed, bolsas norte-americanas fecham em alta. Entenda

O mercado acompanhou mais um capítulo da ofensiva do governo Trump contra o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano), depois que o presidente da instituição, Jerome Powell, foi intimado pelo Departamento de Justiça dos EUA e reagiu afirmando que a investigação tem motivação política. Apesar deste novo embate, os principais índices de ações de Nova York fecharam em leve alta e o dólar caiu pouco. Por que isto ocorreu? Análise: Ação criminal contra Powell expõe tentativa inédita de intimidação ao Fed Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, disse que os movimentos no mercado foram tímidos porque o episódio de conflito não traz grandes novidades. - Não é novidade que o Trump não gosta do Powell. É só mais um capítulo dessa guerra que já é declarada. Essa animosidade já existia e o mercado já precifica que, após o fim do mandato de Powell, ele será substituído por alguém mais alinhado ao Trump. Mesmo com as bolsas abrindo o dia em queda, o movimento foi revertido ao longo do pregão. O Dow Jones e o S&P 500 renovaram seus recordes de fechamento. Dow Jones subiu 0,17%, aos 49.590,20 pontos. O S&P 500 avançou 0,16%, para 6.977,31 pontos, e Nasdaq teve alta de 0,26%, aos 23.733,90 pontos. O índice do dólar (DXY), que mede o desempenho da moeda americana frente a uma cesta de divisas, caiu 0,37%. Já o ouro, ativo que responde bem a cenários de incerteza, subiu 2,38%, para US$ 4.617, tendo atingido um recorde de US$ 4.627 no início do dia. - O dólar hoje caiu contra as demais moedas e o ouro subiu de forma mais forte, mas muito mais por causa da tensão geopolítica com o Irã do que pelo fato dessa investigação contra o Jerome Powell - opina Max Bohm, estrategista de ações da Nomos. Na avaliação de Costa, a intenção da investigação não é afastar Powell do cargo neste momento, até porque o mandato do presidente do Fed termina em maio. Mas lembra que o episódio reacende o debate sobre a independência do Fed - A ideia é tirar ele do jogo, ou seja, abrir caminho para que o Trump tenha mais votos e consiga colocar pessoas mais alinhadas a um viés desenvolvimentista, de juros mais baixos, que é o que ele quer. Isso coloca à prova um dos pilares da confiança global na economia americana. Para o economista Álvaro Bandeira, trata-se de uma nova forma de interferência do governo no Fed. Segundo ele, até então as críticas de Trump e também do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, se concentravam na política de juros, mas agora o embate ganhou outra dimensão. - Antes ele vinha falando sobre taxa de juros, e agora fez uma interferência maior, dizendo que o Jerome Powell não entende nada, enquanto, supostamente, ele entende. Mas é uma interferência que envolve a Suprema Corte americana, porque se trata de uma intimação judicial. Isso é algo novo em termos de Fed, nunca aconteceu nada semelhante e pode alterar o desenho da autonomia do banco central - explica Bandeira, ponderando, no entanto, que o movimento também pode gerar resistência no Congresso. - Alguns parlamentares republicanos estão questionando essa iniciativa e dizendo que não vão aprovar nenhum nome indicado por Trump para cargos no Fed enquanto essa questão não for resolvida. É uma faca de dois gumes. De um lado, você pode perder apoio no Congresso; de outro, força a barra em relação à autonomia do banco central e à condução da política monetária. Bandeira lembrou ainda que, no primeiro mandato, Trump adotava postura semelhante, mas com impacto menor. - Ele falava e ninguém dava muita bola. Agora, o mercado reage mais, porque ele tem sido mais incisivo. Isso é muito ruim, porque gera incerteza sobre o comportamento da taxa de juros e atrapalha as projeções para 2026 e os anos seguintes.