Imagine ligar o PC, iniciar seu jogo favorito e ver a tela “se abrir” na sua frente. Sem óculos 3D, sem headsets de realidade virtual ou quaisquer outros acessórios extras. De repente, os personagens ganham volume, os cenários parecem se aprofundar e os objetos saltam em direção a você, como se o monitor se transformasse em uma janela para dentro do game. É essa a aposta da Samsung com a nova geração de monitores Odyssey: levar o 3D sem óculos para o desktop e dar um passo além na imersão dos jogos. Em conversa com o TechTudo durante a feira de tecnologia CES 2026, o Diretor Global de Produtos e Experiências de Plataforma da Samsung, Kevin Lee, contou que a empresa está apostando suas fichas em uma experiência verdadeiramente imersiva e independente de acessórios. Segundo ele, o 3D sem óculos é uma tecnologia de transição hoje, mas pode se tornar comum em poucos anos, impulsionando uma nova geração de jogos, conteúdos e monitores voltados ao público mais exigente. Samsung quer que casa inteligente seja 'para todos'; veja entrevista Canal do TechTudo no WhatsApp: acompanhe as principais notícias, tutoriais e reviews Monitor gamer Odyssey G9 com tecnologia 3D Ana Letícia Loubak/TechTudo Monitor bom e barato para jogos: qual devo comprar? Veja opções no Fórum do TechTudo Odyssey G9 3D: como funciona a tecnologia 3D sem óculos O carro-chefe dessa aposta é o monitor Odyssey G9 3D (G90XH), que usa tecnologia de rastreamento ocular para criar o efeito tridimensional. Funciona assim: duas câmeras na parte superior do monitor seguem a posição dos olhos do usuário em tempo real e captam duas imagens diferentes. Com base nesses dados, os algoritmos calculam a imagem exata que cada olho precisa ver para ter a sensação de profundidade e reposicionam os pixels. A Samsung ainda aplica Inteligência Artificial (IA) para converter vídeos 2D em 3D. Além da tecnologia 3D, o Odyssey G9 3D impressiona com especificações de ponta. Com 32 polegadas, o monitor traz resolução 6K, taxa de atualização de 165 Hz — ou 330 Hz no modo Dual Mode com resolução 3K — e tempo de resposta de 1 ms. Atualmente, são 60 jogos compatíveis com a tecnologia 3D, mas a Samsung promete dobrar o número em 2026. 6K não é um pouco demais? Nem tudo no line-up Odyssey é para todos — e a Samsung sabe disso. Kevin Lee explica que a empresa divide o público gamer em três grandes grupos: os casuais, que querem apenas se divertir jogando e representam a maioria (53%); os hardcore (33%), que priorizam especificações mais robustas e estão dispostos a gastar mais dinheiro com o hobby; e os do tipo ultimate (13%), o topo da pirâmide. É justamente neste último que o Odyssey G9 3D mira. Trata-se do usuário que prioriza a melhor e mais atualizada experiência possível, buscando por especificações que ultrapassam o “necessário” para a maioria das pessoas. Essa proposta, porém, convive com um cenário bem mais pé no chão. O último relatório mensal da Steam mostra que a maioria dos jogadores ainda permanece no 1080p (53,68%), seguida pelo 1440p (21,77%), enquanto o 4K aparece com apenas 5,47% dos usuários. Trocando em miúdos, o mercado ainda está concentrado em resoluções tradicionais, enquanto produtos 5K e 6K falam com um nicho muito específico. Para esse público, números que parecem exagerados à primeira vista, como os 1.040 Hz do monitor Odyssey G6, podem fazer sentido. Segundo Lee, eles não seriam números “inflados” para material de marketing e sem benefícios no mundo real. Maioria dos jogadores são casuais, segundo levantamento conduzido pela Samsung Reprodução/Freepik “Recursos como frequência de 1.040 Hz ou resolução 6K não são números vazios. Muitos consumidores realmente percebem diferenças. Há estudos que mostram que até 30% das pessoas precisam de 1.040 Hz para não perceberem cintilação. Não fomos nós [Samsung] que produzimos essa pesquisa; são trabalhos acadêmicos de universidades renomadas. Nós apenas nos apoiamos nesses resultados para orientar nosso desenvolvimento", afirma. A ciência por trás do número citado por Lee vem de estudos sobre a Modulação de Luz Temporal e o chamado Efeito de Matriz Fantasma. Segundo artigo publicado pelo Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico em 2024, embora o olhar fixo não perceba oscilações acima de 90 Hz, o cenário muda drasticamente durante as guinadas rápidas que os olhos dão ao percorrer uma tela — como ao buscar um inimigo em um jogo de FPS. Nessas condições, o sistema visual humano pode detectar rastros de imagens em frequências de 1.000 Hz, 2.000 Hz e, em casos de sensibilidade extrema, até 11.000 Hz. “Há perfis de jogadores que exigem resoluções mais altas, como 5K e 6K. Pode parecer exagero perguntar por que alguém precisaria disso em um monitor, mas essa demanda é real, especialmente em jogos de RPG, onde a precisão de pixels e o nível de detalhe são fundamentais. Em gêneros como FPS, por outro lado, a prioridade é taxa de atualização alta", completa o executivo. A pergunta, então, não é apenas “quem precisa disso?”, mas “quem sente isso?”. Kevin Lee, Head Global de Produtos, Experiências e IA da Samsung Divulgação/Samsung Imersão além de números: como se mede o que não é palpável? Quando o assunto é a experiência gamer, todas as marcas batem na tecla da "imersão" e repetem números como taxa de atualização e latência para convencer o consumidor. Mas, afinal, é possível medir algo tão subjetivo? Foi essa a pergunta que fiz a Kevin Lee: como a Samsung mede "imersão" e a "experiência" além de métricas objetivas? Para ele, a resposta está na fidelidade entre a intenção do criador e a experiência entregue ao jogador. Quanto menos o conteúdo é distorcido entre essas duas pontas — hardware e software —, maior é a sensação de estar “dentro” da cena. "Nosso papel é garantir que a intenção original do criador seja traduzida para o usuário final sem distorções. Quanto mais fiel essa tradução, maior o nível de imersão", explica. Imersão é o ponto de encontro entre intenção do criador e experiência do gamer, diz executivo da Samsung Unsplash/Sam Pak No 3D sem óculos, essa percepção fica ainda mais evidente: a tecnologia funciona, mas pode causar sensações diferentes em cada pessoa, incluindo desconforto visual ou náusea em alguns casos. Por isso, Lee recomenda manter distância correta do monitor, priorizar o tamanho de 27" — que representa o melhor equilíbrio hoje — e seguir orientações visuais adequadas. Segundo o executivo, a empresa também aplica recursos de IA para aprimorar a renderização e o conforto visual. “Estamos aplicando inteligência artificial para melhorar a forma como o conteúdo é renderizado e para aumentar a qualidade percebida. Nosso objetivo é proporcionar conforto visual, seja em sessões de 10 minutos ou de uma hora. Ainda é uma tecnologia em transição, com limitações, mas acreditamos que, dentro de 24 meses, veremos uma transformação rápida nesse espaço", avalia Lee. E quem só quer jogar sem gastar uma fortuna? O novo lançamento da Samsung ainda não está à venda no Brasil, mas, para fins de referência, o monitor Odyssey 3D 4K custa R$ 10.325,46 à vista na loja virtual da marca por aqui. O valor elevado reflete o custo de integrar painéis de alta densidade de pixels com um sistema complexo de câmeras de rastreamento e algoritmos de IA que processam profundidade em tempo real. Ainda assim, nem todo mundo pode — ou quer — pagar por um monitor 3D com resolução 6K. Se você segue a linha dos perfis casual e hardcore, a Samsung mantém outros modelos da série Odyssey, incluindo opções OLED e telas 5K e 4K sem 3D. O Odyssey G4, por exemplo, aposta em 300 Hz em Full HD para FPS competitivos, enquanto outros modelos priorizam HDR, conforto visual e uso híbrido entre trabalho e entretenimento. A estratégia, segundo Lee, é intencional: há quem só queira jogar; há quem alterne entre jogos, trabalho e consumo de mídia; e há quem busque o máximo possível em performance. A linha é ampla justamente para abraçar esses comportamentos. Tecnologia 3D sem óculos é o futuro dos games? Como qualquer nova tecnologia, a estreia do primeiro monitor 3D sem óculos 6K é recebida com um quê de desconfiança. De um lado, há quem veja o monitor 3D como o próximo grande passo em imersão — algo que pode, nas palavras de Lee, “entrar na lista de presentes de Natal de qualquer casa” nos próximos anos. De outro, surgem dúvidas difíceis de ignorar: vale pagar por resolução 6K agora? Os jogadores realmente querem — ou precisam — de tudo isso no momento atual do mercado, marcado por preços altos de hardware? O 3D sem óculos funciona, impressiona e abre espaço para novas experiências — mas ainda precisa mostrar, na prática, se melhora a jogabilidade de forma consistente e confortável, e se a adoção será ampla o suficiente para sair do nicho “ultimate” e alcançar o mainstream. A própria Samsung admite que se trata de uma tecnologia em transição. Há limitações, há um público específico e um caminho de maturação que depende tanto de hardware quanto de conteúdo — incluindo o engajamento de desenvolvedoras para que os jogos acompanhem o ritmo. *A jornalista viajou para Las Vegas a convite da Samsung. Com informações de Samsung (1 e 2), Steam e PNNL Samsung apresenta TV Micro RGB de 130" na CES 2026 Samsung apresenta TV Micro RGB de 130" e visão de casa 'do futuro'