Por que esta onda de protestos no Irã difere das anteriores?

Sob ameaça de Trump, Irã diz que está pronto para negociar, mas 'preparado para a guerra' A primeira impressão é a de que já assistimos a ondas parecidas de protestos no Irã, e o regime dos aiatolás se manteve intacto. A resposta ao movimento que sacode o país há mais de duas semanas tem os ingredientes costumeiros — repressão brutal das forças de segurança, com centenas de mortos e milhares de presos, e bloqueio da internet e da telefonia para isolar o país e sufocar os manifestantes. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Mas há dados novos em relação às maciças mobilizações de 2009, em protesto ao resultado eleitoral, e de 2022, contra a morte de uma jovem de 22 anos por não usar o véu. A insatisfação popular de agora encontra um regime vulnerável pela grave crise econômica e pela guerra de 12 dias com Israel, em junho passado. O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, está fisicamente debilitado, sem um claro sucessor. Seus parceiros regionais, como Hezbollah e Hamas, estão enfraquecidos. E, de outro lado, há também a disposição do presidente dos EUA a socorrer os manifestantes e os avisos de que, embalado pela intervenção militar na Venezuela, examina opções militares para o Irã. De acordo com o jornal “The Wall Street Journal”, as alternativas incluem ataques militares, uso de armas cibernéticas, ampliação das sanções e fornecimento de ajuda online a fontes antigovernamentais e serão apresentadas nesta terça-feira a Trump. De antemão, pressiona com tarifas de 25% os países que fizerem negócios com o Irã. O presidente americano admitiu que analisa a situação no Irã “com muita seriedade” e disse acreditar que, diante da violência da repressão aos manifestantes, o regime tenha cruzado a sua linha vermelha para a intervenção. A onda de protestos atravessou as 31 províncias do país, e o regime luta para contê-la. Mesmo que diminua, a economia do país está em espiral descendente, e a indignação pública só crescerá a médio e longo prazo, conforme analisa o iraniano Vali Nars, professor de Relações Internacionais e Estudos do Oriente Médio da Universidade Johns Hopkins. “Um colapso total da República Islâmica não é necessariamente iminente, mas a revolução iraniana está chegando ao fim”, ponderou Nars em um artigo divulgado pelo Project Syndicate. O descontentamento, com a desvalorização de 40% do rial e a inflação descontrolada, foi deflagrado pelos comerciantes do Grande Bazar do Irã, um dos setores mais leais ao regime desde a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o xá Reza Pahlavi. Não surtiram efeito as reformas de austeridade anunciadas pelo presidente Masoud Pezeshkian, para liberar subsídios para as camadas mais pobres. Rapidamente, os manifestantes desviaram o foco de questões econômicas e corrupção para a mudança de regime. A lacuna geracional entre o ultrapassado sistema clerical que rege o país e a população jovem se faz presente: 47% dos iranianos nasceram após a Revolução Islâmica e têm menos de 30 anos. São eles que impulsionam os protestos, invadem prédios estatais e queimam fotos de Khamenei. O bloqueio total do acesso à internet, decretado na quinta-feira passada, visa a desconectar a população, mas, ao mesmo tempo, alimenta o ciclo vicioso acarretando custos pesados à economia do país. Esta conjunção de fatores deixa evidente que o medo vem perdendo força no país, assim como o regime parece ter pouca manobra para imprimir reformas de curto prazo.