Empresária pesca pirarucu de 65 kg com vara comum em lagoa de Linhares, no ES A captura de um pirarucu de 65 quilos e 1,56 metro em uma lagoa de Linhares, no Norte do Espírito Santo, chamou a atenção não apenas pelo tamanho do peixe e pela forma improvisada da pescaria, mas também por um alerta ambiental. Especialistas explicam que a espécie é considerada invasora, não ocorre naturalmente no estado e pode causar impactos ecológicos. O peixe foi pescado pela empresária Marcella Ferreira, de 40 anos, durante um passeio de barco pela Lagoa do Aguiar, no sábado (10). Sem qualquer equipamento profissional, ela usou uma vara simples, daquelas levadas apenas para pescarias ocasionais, e levou cerca de meia hora para conseguir retirar o animal da água. Clique aqui para seguir o canal do g1 ES no WhatsApp “Eu achei que a vara tinha prendido em um toco. Quando a linha saiu, meu marido falou que era peixe. Aí pensei: se isso for peixe, é um monstro”, contou Marcella, que mora em Linhares e costuma pescar por lazer. Pirarucu de 65 kg é pescado com vara comum no Espírito Santo Arquivo pessoal Espécie amazônica fora do habitat natural Apesar de o feito ter viralizado como uma “história de pescador”, o episódio está relacionado a um alerta do ponto de vista ambiental. O biólogo e especialista em peixes João Luiz Gasparini, que trabalha com o monitoramento da atividade pesqueira na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) explicou que o pirarucu é um peixe tipicamente amazônico e não faz parte da fauna nativa do Espírito Santo. “O pirarucu é um peixe da Amazônia, podendo ocorrer também em áreas do Pantanal e do Brasil Central. A presença dele aqui não é natural”, afirmou. Segundo o especialista, a expansão da espécie para outras regiões do país está relacionada à criação em cativeiro. “O pessoal começou a criar o pirarucu e acabou soltando em rios, lagoas e açudes de várias regiões. Hoje ele está espalhado por muitos ambientes naturais do Brasil”, explicou. Pirarucu foi carregado nas costas por empresária no Espírito Santo Arquivo Pessoal Peixe resistente e impacto ambiental Gasparini destacou que o pirarucu é extremamente resistente, o que facilita sua adaptação fora do habitat original. “Ele respira fora d’água e consegue viver em ambientes com pouco oxigênio, até mesmo em águas mais degradadas. Isso ajuda na sobrevivência, mas do ponto de vista ecológico é um problema”, alertou. De acordo com o biólogo, a introdução de espécies de outros ecossistemas é considerada um dano ambiental. “Você não pode colocar uma espécie de uma bacia em outra. Isso desequilibra o ambiente, afeta espécies nativas e altera a dinâmica ecológica”, disse. No Espírito Santo, o pirarucu já foi registrado em locais como a Lagoa Juparanã e em diversas lagoas de Linhares. “Cada vez mais vamos ver esse peixe sendo pescado no Estado, porque continuam soltando a espécie em vários lugares”, afirmou. O biólogo também alertou para os riscos do chamado “peixamento”, prática comum após desastres ambientais, como o rompimento de barragens. “Em situações assim, muitas pessoas acreditam que comprar alevinos e soltar nos rios é uma forma de ajudar a repovoar o ambiente. Só que, muitas vezes, esses peixes vêm da Ásia ou da África”, disse. Segundo ele, a intenção costuma ser positiva, mas o resultado pode ser o oposto. “As pessoas acham que estão fazendo uma coisa boa, mas acabam criando um problema ambiental ainda maior, ao introduzir espécies que não são daquele ecossistema”, completou. Outras espécies introduzidas O pirarucu não é o único peixe de fora encontrado em águas capixabas. Segundo Gasparini, também há registros de tambaqui, pacu e até híbridos conhecidos como “tambacu”, além do bagre-cachara, todos originários de outras regiões do país. Enquanto espécies exóticas se espalham, peixes nativos de grande porte praticamente desapareceram. “Antigamente havia robalos grandes e o surubim do Rio Doce. Esse surubim hoje está extinto no Espírito Santo e só existe em alguns pequenos tributários em Minas Gerais”, explicou. Captura inesperada Ao g1, Marcella contou que não acreditou que iria conseguir tirar o peixe da água por causa do equipamento que estava com ela. Segundo o lojista de artigos de pesca Lucimar de Oliveira, um peixe desse porte exige material específico. “O ideal seria uma vara de cerca de 100 libras, até equipamento de pesca oceânica. O que foi usado é para pesca amadora”, afirmou. Depois da captura, o pirarucu foi dividido entre a família e acabou virando moqueca, prato típico da culinária capixaba. O episódio, no entanto, vai além de uma pescaria inusitada e reforça o debate sobre a introdução de espécies fora de seu ambiente natural e os riscos para os ecossistemas locais. Vídeos: tudo sobre o Espírito Santo Veja o plantão de últimas notícias do g1 Espírito Santo