Morre Scott Adams, criador da tira 'Dilbert', aos 68 anos

Scott Adams, cuja experiência como gerente intermediário em um banco e em uma empresa de telefonia lhe forneceu o material para criar a tira em quadrinhos “Dilbert”, uma sátira diária da vida corporativa que se tornou um fenômeno, mas que foi retirada de mais de mil jornais depois que ele fez comentários racistas em seu podcast em 2023, morreu na terça-feira em sua casa em Pleasanton, na Califórnia, na região da baía de São Francisco. Ele tinha 68 anos. Qual o prêmio do BBB 26? Valor dobra e vai ser o maior da história Caso Julio Iglesias: Justiça espanhola analisa denúncias de assédio sexual feitas por ex-funcionárias do cantor Sua ex-mulher, Shelly Adams, confirmou a morte e disse que ele estava sob cuidados paliativos. Adams havia anunciado em maio que tinha um câncer de próstata agressivo e que provavelmente teria apenas alguns meses de vida. Em novembro, ele escreveu na plataforma de mídia social X que sua saúde estava “piorando rapidamente” e que seu plano de saúde ainda não havia marcado a aplicação de um medicamento que já havia sido aprovado. Ele pediu ajuda ao presidente Donald Trump, a quem apoiava publicamente. “Já estou cuidando disso”, respondeu o presidente em sua rede social, a Truth Social. Por mais de 30 anos, “Dilbert” retratou as absurdidades do ambiente de trabalho no setor de tecnologia e satirizou a gestão corporativa. O personagem-título era um engenheiro frustrado que trabalhava em uma baia de escritório em uma empresa de alta tecnologia, enquanto seu animal de estimação antropomórfico e inteligente, Dogbert, sonhava em dominar o mundo. Outros personagens incluíam os colegas de Dilbert, Alice, Asok e Wally; o atrapalhado chefe de cabelo pontudo; e Catbert, o gato de pelagem vermelha e chefe maligno de recursos humanos. No auge, “Dilbert” era distribuído para cerca de 2.000 jornais em todo o mundo, colocando-se no mesmo patamar de outras tiras sindicadas populares, como “Peanuts”, “Doonesbury” e “Garfield”. Adams também publicou numerosas coletâneas de “Dilbert” e escreveu livros de negócios, incluindo “The Dilbert Principle”, que sustenta que “os trabalhadores mais ineficazes são sistematicamente promovidos para o lugar onde podem causar menos danos, a gerência”. A tira também levou à produção de uma série animada de televisão de curta duração, a bonecos de pelúcia de Dilbert, a jogos de computador e ao Dilberito, um burrito vegetariano congelado que fracassou nas vendas em supermercados após alguns anos. O próprio Dilbert foi a estrela de uma campanha publicitária de US$ 30 milhões para a rede Office Depot em 1997. Um dos fatores do sucesso, segundo Alan Gardner, editor do site The Daily Cartoonist, foi o fato de Adams ter sido o primeiro a criar uma tira ambientada em escritórios com personagens recorrentes com os quais o público podia se identificar. Ele citou Alice como exemplo de uma mulher extremamente inteligente que nunca recebia atenção ou reconhecimento. Adams dizia que Dilbert deu voz a trabalhadores isolados em seus cubículos. Em entrevista ao “The New York Times” em 1995, afirmou que havia descoberto algo surpreendente quando começou a usar a internet. “Ouvi todas essas pessoas que achavam que eram as únicas, que viviam uma situação única e absurda, e que não podiam falar sobre isso porque ninguém acreditaria nelas”, disse. Ao longo dos anos, Adams fez comentários sobre mulheres e judeus que lhe trouxeram repercussão negativa fora do universo do cartunista popular. Ele usou seu podcast, “Real Coffee With Scott Adams”, para comentar livremente as notícias, uma plataforma que acabou levando à queda de “Dilbert”. Em fevereiro de 2023, ao comentar uma pesquisa do instituto Rasmussen Reports que mostrava que apenas 53% dos americanos negros concordavam com a frase “não há problema em ser branco”, expressão promovida por supremacistas brancos segundo a Liga Antidifamação, Adams disse que, se quase metade dos negros não concordava com isso, então eles formariam um “grupo de ódio”. Em seguida, afirmou que o melhor conselho para pessoas brancas seria “ficar longe de pessoas negras”. A reação foi imediata. Muitos grandes jornais, incluindo The Washington Post, The Boston Globe, The Los Angeles Times e The New York Times em sua edição impressa internacional, deixaram de publicar “Dilbert”. O mesmo fez a rede USA Today, que na época reunia mais de 200 jornais. Logo depois, a Andrews McMeel Universal, que então distribuía “Dilbert” para cerca de 1.400 jornais, rompeu com Adams. O selo de negócios da Penguin Random House, uma das maiores editoras do mundo, também cancelou os planos de publicar seu livro de conselhos semihumorístico “Reframe Your Brain”. Adams o lançou por conta própria ainda naquele ano. Em um podcast posterior, ele se defendeu, dizendo que não era racista e que havia usado hipérbole ao chamar negros de “grupo de ódio”. Reconheceu que os comentários haviam destruído sua carreira. “A maior parte da minha renda vai desaparecer na semana que vem”, disse. “Minha reputação para o resto da vida acabou. Não dá para se recuperar disso.” Ele rapidamente relançou a tira como “Dilbert Reborn”, disponível por assinatura na plataforma Locals. Scott Raymond Adams nasceu em 8 de junho de 1957 em Windham, no estado de Nova York, na região das montanhas Catskill. Seu pai, Paul, era funcionário dos correios. Sua mãe, Virginia Adams, era corretora de imóveis e operária de linha de montagem. Em uma casa tranquila, onde Scott era o filho do meio, destacou-se como piadista. Em entrevista ao “San Francisco Chronicle” em 1998, Adams disse que a parte cínica de sua personalidade vinha do pai, a quem descreveu como alguém que raramente dizia algo sério. Desde os 5 anos, queria ser cartunista. Mas, como contou ao “The New York Times” em 2003, ao entender probabilidades e estatísticas, perdeu a inocência de acreditar que tudo era possível. Seguiu então um caminho empresarial. Formou-se em economia em 1979 no Hartwick College, em Oneonta, Nova York. Naquele ano, começou a trabalhar como caixa no Crocker National Bank, em San Francisco, mas, por causa da dislexia, tinha dificuldade para fechar os balanços. Também foi assaltado à mão armada duas vezes. Depois de enviar ao chefe um memorando sobre como melhorar a gestão do banco, foi encaminhado para um programa de treinamento gerencial, subiu de cargo e concluiu um MBA na Universidade da Califórnia, em Berkeley, em 1986. “Dilbert” surgiu durante reuniões entediantes no Crocker, quando Adams desenhava caricaturas de colegas e chefes, que depois eram enviadas por fax dentro do banco. O visual simples, mas marcante, do personagem foi inspirado em um colega de trabalho “com um corpo em forma de batata, divertido de desenhar”, disse Adams à revista Publishers Weekly em 2008. Segundo ele, a falta de habilidades sociais de Dilbert era baseada em sua própria personalidade, enquanto suas competências profissionais eram uma mistura de engenheiros que conheceu. Em 1986, Adams foi para a Pacific Bell e, dois anos depois, enviou amostras da tira a sindicatos de cartunistas. A United Feature Syndicate concordou em distribuí-la em 1989, inicialmente para 35 jornais. Ele permaneceu na Pacific Bell até 1995, quando passou a se dedicar integralmente a “Dilbert”. O sucesso da tira deu a Adams uma plataforma para comentar uma ampla gama de temas em seu blog e podcast, o que também lhe trouxe críticas intensas. Em 2006, questionou em seu blog se o número de seis milhões de judeus mortos no Holocausto era preciso. Em 2011, escreveu que as mulheres eram tratadas de forma diferente pela sociedade “pela mesma razão que crianças e pessoas com deficiência mental”. Em 2015, atribuiu ao então empresário imobiliário e estrela de reality show Donald Trump 98% de chance de vencer a eleição presidencial do ano seguinte, com base em seu poder de persuasão. Em 2016, disse no programa “Real Time With Bill Maher” que o desprezo de Trump pelos fatos fazia parte de sua estratégia, ao evitar detalhes e reduzir os alvos de crítica. Adams escreveu “Win Bigly: Persuasion in a World Where Facts Don’t Matter”, lançado em 2017, um livro sobre a capacidade de Trump de persuadir. A capa traz Dogbert com um penteado inspirado no do presidente. A obra lhe rendeu um convite para visitar a Casa Branca. Em 2025, Adams afirmou em seu podcast que apoiar Trump lhe custou a vida social, a carreira, a reputação e possivelmente a saúde, mas que acreditava que o sacrifício havia valido a pena. Seus casamentos com Shelly Miles e Kristina Basham terminaram em divórcio. Ele deixa os enteados Hazel, Marin e Savannah, além dos irmãos Cindy e Dave. Outro enteado, Justin Miles, morreu de overdose de fentanil em 2018. Em uma tira de “Dilbert Reborn” publicada em 2025, Dilbert é confrontado por um personagem chamado Covid Carl, obcecado por sua recusa em tomar vacinas contra a Covid-19, que diz que vai julgar a credibilidade do que Dilbert afirma com base em seu histórico de vacinação.