“Só compro roupas extremamente duráveis e faço questão de usá-las muitas vezes”, conta Tamara Klink

Ela cresceu ouvindo histórias de aventuras em alto-mar, entre paredes cobertas de livros sobre navegações. Pisou pela primeira vez na Antártica aos 8 anos. Divertia-se quando via o pai se encharcar com o sopro das baleias e quando pinguins se aproximavam do barco. Filha de Marina e Amyr Klink – ela, fotógrafa de natureza e travel influencer; ele, um dos maiores navegadores do mundo –, aos 28 anos, a menina que se achava esquisita na infância coleciona feitos e histórias. Gêmea de Laura e três anos mais velha que Marina Helena, Tamara Klink nunca esteve entre os populares do colégio. Enquanto os colegas passavam feriados na Disney, ela ia até Paraty. Na volta às aulas, assistia ao desfile de mochilas e estojos novos, em posse de objetos de anos anteriores. Pensava ser bailarina ou cabeleireira. No ensino médio, mudou de escola, e os episódios de bullying ficaram para trás. A grande virada, porém, aconteceu no campus da USP, onde iniciou a formação em arquitetura. “Só ali percebi que vivia numa bolha absurda e não tinha a menor noção do mundo”, conta. Foi nessa época que começou a se interessar por temas sociais. E, ao mesmo tempo que abria a cabeça, o futuro ganhava contornos mais nítidos. Fez uma disciplina sobre projetos de veleiro na Poli e, no fim daquele semestre, sabia que havia encontrado seu caminho. Partiu então para um intercâmbio em Nantes, na França, onde terminou os estudos, fez pós-graduação em arquitetura naval e mestrado. “Foi muito importante essa experiência fora do Brasil porque meu pai não era tão conhecido por lá”, conta. Assim, teve a chance de errar, dizer que não sabia. O contrário do que vivia em São Paulo, onde imaginavam que Amyr tivesse lhe ensinado tudo. Longe disso, sempre que tentava tirar uma dúvida, ouvia do pai: “Não conte comigo. Se quiser aprender, pesquise”. Aquela atitude, entende hoje, escondia o desejo de criar mulheres autônomas. “Mais jovem, me sentia frustrada. Agora vejo o quanto isso foi formador.” Saiba mais Quando foi estudar fora, viver da navegação ainda não era um projeto. “Achava que ia desenhar barcos para as pessoas e, nos fins de semana, velejar.” Quem a convenceu a comprar o Sardinha, seu primeiro barco, foi o professor de engenharia naval Henrique Gaspar. Juntando o pouco dinheiro que tinha sobrado das bolsas de estudo que havia ganhado, dava para pagar a entrada do veículo. A primeira viagem foi da Noruega para a França, pelo Mar do Norte. Os pais torceram o nariz. “Sabia o quanto ela era destemida, mas não tinha experiência para fazer uma viagem desse tamanho sozinha”, lembra Marina. Por isso, quando tomou a decisão de percorrer sozinha as 9.000 milhas que ligam por mar Ålesund, na Noruega, ao Recife, a única familiar que soube de seus planos foi Anna, sua avó materna. “Tentei fazê-la mudar de ideia, mas quando a Tamara põe uma coisa na cabeça, não tem quem tire”, diz a matriarca. Era com ela também que gastava a pouca bateria que sobrava das conversas técnicas com Henrique. “Ela me contava onde estava e eu tentava demovê-la de alguma coisa louca que quisesse fazer, como ficar longe da terra”, conta Anna. Recebida com festa em Pernambuco, Tamara tornou-se a pessoa mais jovem da América Latina a atravessar o Atlântico sozinha. Os contratos para dar palestras foram muitos, assim como o convite para publicar seu primeiro livro individual, Um Mundo em Poucas Linhas (Peirópolis, 2021). Nascia uma navegadora profissional. Um ano depois, embarcou no mesmo ponto e desceu até Paraty. Na rota seguinte foi até o Círculo Polar Ártico e atravessou 2.500 milhas da França à Groenlândia. Mas o grande destino ainda estava por vir. Era 2023, quando partiu para a invernagem no Ártico. Durante os oito meses de inverno polar, permaneceu com o barco preso no mar congelado da Groenlândia. Por três, não viu a luz do dia; por quatro, um humano sequer. A experiência, garante, foi das melhores. “Essas oportunidades de epifania ou tédio são enormes portais de criatividade”, observa a moça, que mandava escritos sobre sensações e sonhos para a terapeuta. Compor músicas no violão que mal sabia tocar, ler obras não adaptadas à vida urbana – Tamara adora Fernando Pessoa – e criar trilhas sonoras para os bichos que batizava – à raposa Helena cantava “Thriller”, de Michael Jackson – eram algumas de suas ocupações prediletas. Do urso polar que, às 3h20 da madrugada, tentou subir em seu barco, tem menos medo do que dos homens. Ao machismo, que percebe em comentários sobre seu corpo enquanto discute um possível patrocínio ou no mecânico que não lhe dirige a palavra, responde com trabalho. “Meus feitos superaram eventuais limitações e crenças ligadas ao gênero.” Tamara Klink usa camisa e saia Coven, colar Tiffany & Co. e sapatos Aquazzura Camila Tuon Da última vez que se lançou ao mar, velejou do Atlântico ao Pacífico pelo Ártico, na Passagem Noroeste, uma das rotas mais difíceis do planeta. Com isso, se tornou a mulher mais jovem do mundo e a primeira pessoa da América Latina a completar o trajeto sozinha. “Quero acreditar que outras fizeram isso antes, só não deixaram registros.” O que o mundo chama de coragem, ela classifica como medo constante. “Mesmo dormindo, tenho medo de bater em um iceberg e afundar. Ou de ter um incêndio porque houve um curto-circuito e demorei a ver”, descreve. Mesmo que seus ciclos de sono durem apenas 20 minutos e aconteçam a cada 1h30, somando entre três e seis horas diárias – o que jura ser suficiente. Mais cansada fica quando navega com o francês Clement Jaffre, seu namorado há três anos. “Ele gosta de seguir o relógio e dormir três horas seguidas”, conta. Está aí um dos poucos atritos do casal de navegadores. Embora ele, que vive em Lorient, a quisesse por perto durante períodos mais longos, ela considera a (não) rotina ideal para o relacionamento. “Não vejo como poderia ser diferente.” Seu endereço, afirma sem pestanejar, é no barco. Com dez metros de comprimento, o espaço interno do Sardinha 2 é equivalente ao de uma quitinete. Na parte da frente, ficam o banheiro e o lugar para guardar a âncora. No espaço central, é onde dorme, administra a navegação e cozinha legumes enlatados, arroz, feijão e lentilha que leva – as poucas exceções à dieta vegana são os peixes da Groenlândia, que não geram lixo e são a única opção de comida local. A parte de trás funciona como estoque e é onde guarda a arma que nunca precisou usar, mas faz parte do protocolo. Revistas Newsletter GRITO DE ALERTA A próxima navegação acontece este mês, num barco de pesquisa que vai até a Antártica. O objetivo é sensibilizar as autoridades sobre o papel do krill (crustáceo base da cadeia alimentar da região austral, em extinção). Poucos sabem, mas cápsulas de ômega-3 e rações de salmão comercial vêm do krill. “Sem ele não existem baleias, focas nem pinguins.” Tamara estende seu grito de socorro à saúde dos mares, arrasados com a sobrepesca. “Não existe vida na terra sem o oceano”, crava. O primeiro sinal de alerta foi a destruição dos corais, consequência do aumento das concentrações de dióxido de carbono na atmosfera. Os danos são visíveis. “No caminho para o Brasil, a gente encontra cada vez mais algas e sargaços, que têm a ver com o uso de pesticidas, agrotóxicos, fertilizantes e com o aumento da temperatura do oceano.” Por isso, a importância de sua participação na COP30. “Se estamos expondo seres vivos a uma situação de vulnerabilidade climática com riscos de perda tão grandes, talvez estejamos perdendo a dimensão do que é importante.” Com estreia prevista para agosto deste ano, o documentário Tamara, uma viagem interna pelo Ártico durante a invernagem, parte de 200 horas de filmagens e 42 canções de autoria própria. “Tamara inspira sem ser panfletária. Ao mesmo tempo em que abraça o que significa ser mulher, quebra noções de gênero”, derrete-se a codiretora do longa, Estela Renner. O dinheiro que ganha hoje, de dois patrocínios robustos, ela usa para fazer sua mensagem chegar a cada vez mais pessoas. O guarda-roupa segue o estilo despojado herdado dos pais. “Só compro roupas extremamente duráveis e faço questão de usá-las muitas vezes”, diz. No que depender da jovem navegadora, o mundo terá mais cabeças pensantes, menos interferência da internet e muito mais gente, bichos e cores para contar o próximo capítulo do planeta. * Rodapé Um Só Planeta - Novembro 2025 Vogue Brasil