Segundo a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, "ataques aéreos seriam uma das muitas opções" que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem sobre a mesa para uma possível ofensiva militar contra o Irã, palco de uma onda de protestos que já duram mais de duas semanas e deixaram centenas de mortos. Em continuidade com suas constantes ameaças de ataque à República Islâmica, caso o regime mate manifestantes, Trump afirmou nesta terça-feira que todas as reuniões com autoridades iranianas foram canceladas até que a repressão pare e — em tom enigmático, como de praxe — acrescentou: "a ajuda está a caminho". 'A ajuda está a caminho': Trump encoraja manifestantes no Irã a tomar instituições Protestos no Irã: Em meio a repressão, apagão de internet ultrapassa 108 horas; autoridade fala em 2 mil mortos Em Teerã, o ministro das Relações Exteriores Abás Araqchi afirmou, na segunda-feira, que o Irã está pronto para "negociações justas", mas também "preparado para uma guerra". — A República Islâmica do Irã não busca a guerra, mas está totalmente preparada para ela — afirmou Araqchi durante um discurso para embaixadores estrangeiros em Teerã, alertando os adversários contra qualquer "erro de cálculo". — Também estamos prontos para negociações justas, com igualdade de direitos e baseadas no respeito mútuo. Initial plugin text No último domingo, o presidente do Parlamento iraniano afirmou que, caso os EUA lancem um novo ataque, Teerã retaliaria mirando alvos militares e navais americanos, além de instalações israelenses. — Em caso de um ataque militar dos Estados Unidos, a ocupação [referindo-se a Israel] e as bases militares americanas e navios serão ambos nossos alvos legítimos — declarou Mohammad Bagher Ghalibaf ao Legislativo iraniano, em comentários transmitidos pela televisão estatal. As declarações ocorrem em um momento de forte escalada retórica entre Teerã e Washington. Trump, que anunciou na segunda-feira uma tarifa de 25% para países que fazem negócios com o Irã, tem ameaçado intervir "muito duramente" o país caso manifestantes fossem mortos — não só pelo meio militar, mas também com sanções e ações cibernéticas, como revelado pelo jornal americano New York Times no domingo. 'Regime silencia e mata': Sem contato com a família após apagão de internet, iraniana revive trauma da repressão em protestos Na última sexta-feira, por exemplo, o republicano disse a repórteres que o Irã estava em "sérios apuros" e que "é melhor" o regime "não começar a atirar, porque nós também começaremos". Nesta terça, o presidente americano deve se reunir com altos funcionários de segurança nacional. Entre as autoridades que devem participar do encontro estão o secretário de Estado Marco Rubio e o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, que comandou o ataque à Venezuela seguido da captura do líder chavista Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, no início do ano. E a operação bem-sucedida para capturar Maduro gerou especulações de que as opções de Trump poderiam incluir uma ofensiva semelhante para decapitar o regime iraniano. Militares americanos no Oriente Médio Atualmente, segundo a emissora americana ABC News, há 30 mil soldados americanos destacados no Oriente Médio e na região do Golfo Pérsico, incluindo 2.500 no Iraque e 1.000 na Síria. Além disso, existem seis navios da Marinha americana na região, incluindo três destróieres de mísseis guiados. O Pentágono deverá deslocar recursos adicionais para a área, a fim de ajudar a proteger essas tropas contra possíveis ataques retaliatórios, como ameaçado pelo presidente do Parlamento iraniano. Ex-autoridades americanas ouvidos pela ABC afirmaram que as opções sobre a mesa de Trump variam de ataques militares em larga escala aos mais direcionados a líderes iranianos específicos ou ainda à infraestrutura policial que supostamente ajudou o regime a reprimir violentamente os protestos. Mapa mostra alcance balístico do Irã e bases usadas pelos EUA no Oriente Médio NYT À ABC, Mick Mulroy, ex-secretário adjunto de Defesa para o Oriente Médio no Pentágono, afirmou que o presidente provavelmente receberá uma avaliação de inteligência sobre o impacto de um ataque militar direto e se isso poderia levar a uma mudança de regime. — Acredito que, se optarem por prosseguir [com um ataque militar], este se concentrará em alvos do regime específicos para controlar ou reprimir os protestos — avaliou Mulroy. — Isso incluiria as forças Basij da Guarda Revolucionária Islâmica ou outros elementos de segurança interna, que foram responsabilizados pelas mortes dos manifestantes. Ameaça de Trump: Entenda como guerra em Gaza enfraqueceu Irã e por que Venezuela alimenta vulnerabilidade do regime Ao mesmo tempo, porém, autoridades americanas disseram que precisavam ter cuidado para que quaisquer ataques militares não tivessem o efeito oposto — galvanizando a opinião pública iraniana a apoiar o governo — ou desencadeassem uma série de ataques retaliatórios que pudessem ameaçar o pessoal militar e diplomático americano na região. Ao jornal americano New York Times, um alto oficial dos EUA afirmou que os comandantes na região gostariam de ter mais tempo antes de qualquer possível ataque para consolidar as posições militares e preparar as defesas para eventuais contra-ataques do Irã. Possíveis respostas do Irã Caso os EUA realizem, de fato, um ataque militar, uma das possíveis repostas de Teerã já foi revelada pelo presidente do Parlamento: equipamentos militares e navais americanos, além de instalações israelenses, seriam "alvos legítimos". O Irã possui uma lista de alvos com cerca de 20 bases americanas para escolher em toda a região do Oriente Médio. Um dos alvos mais próximos é o extenso quartel-general da poderosa Quinta Frota da Marinha dos EUA em Mina Salman, no Bahrein. Em entrevista à rede catári al-Jazeera, Araqchi respondeu às recentes ameaças de ação militar de Washington devido à repressão dos protestos, reiterando que seu país estava pronto para a guerra se os EUA quisessem "testar" sua capacidade de resistência. — Se Washington quiser testar a opção militar que já testou antes, estamos prontos para isso — disse o chanceler iraniano, acrescentando que esperava que os EUA escolhessem “a opção sábia” do diálogo, ao mesmo tempo que alertava para “aqueles que tentam arrastar Washington para a guerra a fim de servir aos interesses de Israel”. Na entrevista, quando falou que os EUA já "testaram antes" a capacidade de resistência do Irã, o ministro se referia à guerra de 12 dias em junho do ano passado, travada entre Teerã, Tel Aviv e Washington. À época, seis bombardeiros B-2 americanos lançaram 12 bombas antibunker sobre uma instalação nas montanhas de Fordow, e submarinos da Marinha dispararam 30 mísseis de cruzeiro contra as instalações nucleares de Natanz e Isfahan. Um B-2 também lançou duas bombas antibunker sobre Natanz. Imagem de satélite com antes e depois da instalação de Fordow após os ataques dos EUA AFP PHOTO/ SATELLITE IMAGE ©2025 MAXAR TECHNOLOGIES A ofensiva americana representou um pesado ataque direto ao Irã, com dano ao programa nuclear e de mísseis do país. As principais instalações foram atingidas e importantes líderes militares e cientistas nucleares foram mortos. No ocasião, em retaliação, Teerã atacou as forças americanas estacionadas na base aérea de al-Udeid, no Catar — a maior instalação militar dos EUA no Oriente Médio, que funciona como quartel-general avançado do Comando Central dos EUA (Centcom, na sigla em inglês). Já em 2020, quando Trump ordenou o assassinato do líder da Força Quds do Irã, Qassim Suleimani, o Irã respondeu atacando militares americanos no Iraque. O Irã também poderia lançar "ataques em enxame" contra os seis navios de guerra naval dos EUA que estão na região, usando drones e lanchas torpedeiras rápidas, algo que a Marinha do Corpo da Guarda Revolucionária iraniana tem praticado exaustivamente ao longo dos anos, segundo a rede britânica BBC. O objetivo, caso seguisse esse caminho, seria sobrepujar as defesas navais americanas pela superioridade numérica. Poderia também solicitar a seus aliados no Iêmen, os rebeldes Houthis, que retomassem os ataques contra navios americanos que transitam entre o Oceano Índico e o Mar Vermelho. 'Viva o xá!' e 'Pahlevi voltará': Quem é Reza Pahlevi, ex-príncipe herdeiro do Irã citado durante protestos no país Na segunda-feira, em entrevista ao Financial Times, um alto funcionário do governo Trump afirmou que "o presidente está ciente dos impactos de todas as opções" de ataque e enfatizou que o republicano ainda considera o Irã o maior patrocinador do terrorismo em todo o mundo. Trump, porém, nem sempre cumpre suas ameaças. — Ele ameaçou mandar o Hamas de volta à Idade da Pedra diversas vezes. Não vimos isso acontecer — dissea Matthew Levitt, ex-funcionário americano de contraterrorismo do Instituto de Washington para Política do Oriente Próximo, ao Financial Times. — Trump é a incógnita aqui, e eles (os líderes iranianos) o temem. (Com New York Times)