Presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, Reuters/Kevin Lamarque O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, confirmou neste domingo (11) ter se tornado alvo de uma investigação do Departamento de Justiça (DOJ), em meio a uma disputa com o presidente dos EUA, Donald Trump. Em mensagem de vídeo publicada na rede social X, Powell atribuiu a abertura do inquérito à pressão exercida pelo governo Trump sobre a política de juros do Banco Central americano. O depoimento de Powell ao Congresso em junho, a respeito da reforma de US$ 2,5 bilhões (R$ 15,6 bilhões) da sede do Fed em Washington, levou à abertura de uma investigação criminal por procuradores federais. Durante o primeiro mandato de Trump e desde o retorno do republicano à Casa Branca, há um ano, ambos entraram repetidamente em confronto devido a decisões sobre taxa de juros. Departamento de Justiça dos EUA processa presidente do Banco Central O presidente do Fed tem defendido que a instituição deve definir sua política monetária de maneira independente, guiada por dados econômicos, e não sob pressão política. O que gerou a disputa entre Trump e Powell? Trump tem se tornado cada vez mais explícito em suas críticas às decisões do Fed. Em março passado, quando o Fed manteve as taxas de juros estáveis, o presidente afirmou que o Fed estaria "muito melhor se cortasse as taxas". Em abril, no chamado anúncio do Dia da Libertação — quando anunciou a primeira leva de tarifas de importação —, Trump disse que taxas de juros mais baixas ajudariam a economia dos EUA a lidar com suas novas e abrangentes tarifas sobre bens adquiridos de importantes parceiros comerciais. Depois de chamar Powell de "estúpido" e "cabeça oca", Trump foi além nas suas críticas à política monetária em julho, após o Fed ainda não ter cortado as taxas, dizendo que ela estava "prejudicando as pessoas". Sede do Federal Reserv (Fed), Banco Central dos EUA. REUTERS/Joshua Roberts Trump também tomou medidas contra outras figuras importantes do Fed, incluindo a integrante do conselho de administração Lisa Cook, a quem tentou destituir sob a acusação de fraude hipotecária. O litígio ainda aguarda uma audiência na Suprema Corte dos EUA. Em meados de 2025, a imprensa dos EUA noticiou que o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, seria o principal nome para substituir Powell quando seu mandato terminasse, em maio. Em dezembro, Trump disse em reunião com o seu governo que havia oferecido o cargo a Bessent, mas que ele não o aceitou. No mesmo dia, Trump deu a entender que o seu conselheiro econômico, Kevin Hassett, seria o favorito. Outros relatos na imprensa americana sugerem que o governo Trump estava sondando uma lista mais ampla de possíveis sucessores, que inclui ainda o ex-diretor do Fed Kevin Warsh, o atual diretor Christopher Waller e Rick Rieder, executivo da gestora de investimentos BlackRock. No final do ano passado, Trump disse que anunciaria o sucessor de Powell em janeiro. A crescente especulação em torno do sucessor evidencia a enorme pressão que o presidente do Fed já vinha enfrentando muito antes de a investigação criminal se tornar pública, no fim de semana. Por que Powell está sendo investigado? A investigação decorre do depoimento de Powell perante o Comitê Bancário do Senado dos EUA em junho, quando ele minimizou os custos excessivos relacionados à reforma da sede do Fed e a recursos de luxo desnecessários, incluindo terraços e jardins na cobertura, pisos de mármore de alta qualidade e coleções de arte particulares. Presidente do Federal Reserve, Jerome Powell Reuters O presidente do Comitê Bancário do Senado, Tim Scott, havia expressado preocupação após um artigo do jornal New York Post comparar o projeto ao Palácio de Versalhes, na França – a antiga residência real perto de Paris, encomendada pelo rei Luís 15. Powell rebateu o que chamou de alegações "imprecisas" e "enganosas" e negou a aquisição de itens de luxo, afirmando que o projeto, autofinanciado pelo Fed e não com o dinheiro dos contribuintes, era voltado à modernização e redução de custos a longo prazo. Um mês depois, a congressista republicana Anna Paulina Luna anunciou que encaminharia ao Departamento de Justiça uma acusação contra Powell de perjúrio e de fazer declarações falsas. O DOJ raramente comenta investigações em andamento. Neste domingo, um porta-voz da agência se recusou a reagir à declaração de Powell, afirmando apenas que "a Procuradoria-Geral instruiu os procuradores federais a priorizar a investigação de qualquer abuso do dinheiro dos contribuintes." Powell chama investigação de ameaça Em sua mensagem de vídeo, Powell classificou a investigação como uma "ação sem precedentes" que, segundo ele, estaria ligada à pressão do governo Trump sobre a política de taxas de juros. "Esta nova ameaça não tem que ver com meu depoimento em junho passado ou com a reforma dos prédios do Federal Reserve. Esses são pretextos", afirmou. "Trata-se de saber se o Fed será capaz de continuar a definir as taxas de juros com base em evidências e condições econômicas ou se, em vez disso, a política monetária será dirigida por pressão política ou intimidação." "O serviço público às vezes exige firmeza diante de ameaças", sublinhou Powell, acrescentando que continuaria a exercer o cargo "com integridade e o compromisso de servir ao povo americano". A investigação fez o dólar cair nesta segunda-feira, enquanto o ouro atingia o recorde de 4.600,33 dólares por onça (o equivalente a 31,1 gramas). A Casa Branca negou que Trump esteja por trás da investigação lançada pelo Departmento de Justiça. O próprio Trump negou qualquer conhecimento ou envolvimento, mas reiterou sua crença de que Powell "certamente não é muito bom no Fed e não é muito bom em construir prédios". "O que deveria pressioná-lo [Powell] é o fato de que as taxas estão muito altas. Essa é a única pressão sobre ele", disse Trump neste domingo em entrevista à emissora NBC News. O que faz o Fed e por que sua independência é crucial? Como Banco Central da maior economia do mundo, a missão principal do Fed é a execução de uma política monetária, o que inclui definir as taxas de juros, manter a inflação próxima à meta de 2%, apoiar o nível máximo de emprego e manter o sistema financeiro estável. A instituição também supervisiona os bancos, atua como credor de última instância durante crises financeiras e ajuda a manter o fluxo de crédito na economia dos EUA, que por décadas também tem sido o mercado de investimentos mais atraente do mundo. Como o dólar americano é a chamada moeda de reserva mundial, com a qual grande parte do comércio global é realizado, as decisões do Fed sobre as taxas de juros têm efeitos globais em cascata, influenciando custos de empréstimo, fluxos de capital e crescimento econômico muito além dos Estados Unidos. Presidente dos EUA, Donald Trump Julia Demaree Nikhinson/AP O Fed não é financiado pelo governo dos EUA. Ele obtém rendimentos de empréstimos a bancos corporativos e de seus investimentos em títulos do governo americano, moedas e outros valores mobiliários. A independência do Fed é amplamente vista como crucial para evitar pressão política, que muitas vezes se baseia em objetivos de curto prazo devido ao ciclo eleitoral presidencial de quatro anos dos EUA. As decisões de cortar ou aumentar as taxas de juros são vitais para evitar alta inflação e estabilizar a economia americana durante recessões. Embora essas medidas possam ser impopulares entre os eleitores, os defensores da independência do Fed dizem que entregar o controle das taxas de juros a políticos eleitos coloca em risco a estabilidade da economia. Nesta terça-feira, um grupo de presidentes de bancos centrais de todo o mundo manifestou seu apoio a Powell. "A independência dos bancos centrais é um pilar fundamental da estabilidade de preços, financeira e econômica, no interesse dos cidadãos a quem servimos", afirmam os signatários, entre eles o brasileiro Gabriel Galípolo e Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu. Muito além das decisões do Fed, economistas e líderes empresariais alertaram que as tarifas comerciais sem precedentes de Trump prejudicaram a confiança dos investidores na dívida soberana dos EUA e no futuro da economia em longo prazo.