Bloqueio de internet, caça à Starlink e coleta de parabólicas no Irã; entenda como regime fecha comunicação

Em meio a uma onda de protestos que se espalharam por todo o Irã, o regime totalitário chefiado pelo aiatolá Ali Khamenei emplaca uma ofensiva contra os meios de comunicação no território. Mesmo após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que pretende conversar com o bilionário sul-africano Elon Musk sobre a possibilidade de restaurar o acesso à internet por meio do serviço de satélite Starlink, operado pela empresa SpaceX, o apagão quase total permanece. De acordo com a organização de monitoramento NetBlocks, os níveis de conexão com o mundo exterior permanecem em 1% dos níveis normais. A realização de chamadas telefônicas e o envio de mensagens de texto também foi dificultada por lá. Esta não é a primeira interrupção digital que o país enfrenta, mas especialistas em infraestrutura da internet, incluindo Doug Madory, acreditam que seja quase sem precedentes em sua gravidade e precisão. Contexto: Trump avalia ação militar, cibernética ou econômica ao Irã em meio a protestos que já deixaram ao menos 200 mortos Escalada dos EUA: Trump encoraja manifestantes no Irã a tomar instituições e diz que 'a ajuda está a caminho' Madory e alguns outros analistas supõem que o governo construiu um sistema de desligamento automático, capaz de cortar a energia para a maioria, mas colocá-la na lista de permissões para outros. Isso significa que, embora o público iraniano tenha ficado praticamente sem internet, outros, como o próprio líder supremo, ainda conseguiram postar no X e no Telegram. Initial plugin text O corte mais recente de internet no país foi uma das interrupções nacionais mais severas do mundo, segundo Alp Toker, fundador do NetBlocks. O Irã já bloqueou o acesso à internet durante protestos antigovernamentais anteriormente, inclusive durante um levante generalizado pela liberdade das mulheres em 2022, mas enquanto aqueles desligamentos foram graduais, o mais recente foi imposto em todo o país e de forma célere. — Vimos que o processo foi totalmente automatizado em um verdadeiro 'botão de desligamento' que permite à autoridade cortar a nação inteira, o que é extraordinário — disse Toker. Especialistas em direitos digitais alertaram na terça-feira que, embora o restabelecimento possa ajudar familiares a se reconectarem, ele pode criar novos riscos ao permitir que as autoridades monitorem os cidadãos e rastreiem suas atividades. — Há agora um risco muito maior associado ao uso dessas linhas fixas, porque elas não são seguras nem criptografadas — ponderou Toker, acrescentando: — E, de fato, é bem possível que seja por isso que esse serviço tenha sido habilitado seletivamente. Oficialmente, as autoridades disseram que o bloqueio foi ordenado após a conclusão de que os manifestantes estavam sendo orientados do exterior para criar o caos no país. Na terça-feira, Fatemeh Mohajerani, porta-voz do governo, disse que as autoridades ainda não decidiram quando restaurarão o acesso à internet. Entenda: Trump diz que Irã procurou EUA para negociar após ameaça sobre resposta militar a repressão a protestos Há relatos de que a teocracia recorreu a “jammers” — supostamente de uso militar — para bloquear o acesso ao Starlink, que é proibido no país. Paralelamente, forças de segurança passaram a apreender antenas parabólicas em cidades como Teerã, Sanandaj e Isfahan, além de Marivan, Mahabad e Baneh, noticiou a BBC Persian. Após anos priorizando o bloqueio eletrônico de sinais, o regime indica agora uma mudança de estratégia, com a retomada da retirada física das parabólicas como forma de controle das comunicações. O bloqueio da internet acendeu o alerta de organizações de direitos humanos sobre um possível endurecimento da repressão no Irã. A Anistia Internacional declarou que o corte da internet parece ter como objetivo ocultar a dimensão de violações graves de direitos humanos durante a repressão, uma acusação que as autoridades iranianas rejeitam. O comandante-chefe da polícia, Ahmadreza Radan, afirmou que o “nível de repressão” foi elevado e que prisões importantes foram realizadas. Segundo ele, parte das mortes teria ocorrido por golpes de faca ou disparos feitos por “elementos treinados”, e não pelas forças de segurança. O governo também acusa os EUA e Israel pelos distúrbios. Com o apagão, brasileiros em Teerã procuraram a embaixada nos últimos dias para contatar familiares no Brasil e tranquilizá-los, conforme antecipou a coluna Lauro Jardim. Esses cidadãos, segundo a reportagem, se dirigiram pessoalmente à sede da representação brasileira para pedir auxílio. A missão diplomática também enfrenta dificuldades de comunicação, mas tem buscado alternativas para falar com Brasília. 'Guerra eletrônica' Sobre a caça aos usuários da Starlink, apontada ao Wall Street Journal por Amir Rashidi, diretor do Miaan Group, uma organização sem fins lucrativos dos EUA que se opõe à censura na internet, a avaliação dele é de que se trata de uma "guerra eletrônica" em curso. Ele afirmou que as interrupções são piores justamente em partes de Teerã onde ocorrem protestos e à noite, quando os manifestantes se reúnem. Exilado: quem é Reza Pahlevi, ex-príncipe herdeiro do Irã citado durante protestos no país Embora o sul-africano e a SpaceX não tenham comentado o assunto, Musk tem apoiado a disponibilização do Starlink a iranianos para ajudá-los a contornar as restrições impostas pelo governo, inclusive durante protestos anteriores, em 2022. Naquele ano, a Casa Branca, ainda sob comando do democrata Joe Biden, dialogou com o bilionário para implementar os serviços da Starlink no Irã, depois que o país foi tomado por protestos após a morte, sob custódia policial, de Masha Amini, de 22 anos. Os protestos atuais seriam os maiores desde então. Os vídeos das ruas nas manifestações costumam funcionar como uma das poucas maneiras de divulgar informações capazes de dimensionar os protestos e as ações das autoridades iranianas. De acordo com a empresa de segurança digital Cloudflare, interrupções generalizadas de serviços vêm ocorrendo desde quinta-feira. Ainda que apagões de internet sejam comuns no país, Amir Rashidi, diretor de segurança da internet e direitos digitais da ONG Miaan Group, disse à BBC que nunca tinha visto condições como essa. Outro pesquisador da área, Alireza Manafi, afirmou que a única forma provável de conexão seria via satélite Starlink, mas alertou que os usuários devem ter cautela, porque as atividades podem ser rastreadas pelo governo. — Eu nem quero pensar nisso. A ideia me assusta. Eu poderia ser acusado de espionagem — disse um morador ao ser questionado sobre o que as autoridades iranianas fariam se descobrissem que ele estava conectado. — [Mas] essa dor e essa fúria não deveriam ficar escondidas. O mundo precisa saber o que está acontecendo conosco aqui dentro. Repressão e vigilância Outros moradores conseguiram, em janelas curtas de conexão, relatar a situação em diferentes cidades. Em mensagens enviadas à BBC Persian, leitores descrevem um cenário de repressão e vigilância. Um morador de Karaj afirmou que, em um único dia, dezenas de mortos e muitos feridos foram levados a apenas um hospital. Segundo ele, manifestantes passaram a sair às ruas usando máscaras e roupas escuras para evitar identificação por câmeras de segurança. Em Fardis, na região metropolitana de Teerã, um leitor relatou que forças de segurança passaram a usar apenas munição real. De acordo com o depoimento, agentes teriam se posicionado em telhados para atirar contra a população. “Em cada rua morreram duas ou três pessoas”, escreveu, acrescentando que a internet estava completamente fora do ar. O mesmo relato diz que integrantes da Guarda Revolucionária e da milícia Basij substituíram a tropa de choque, armados com fuzis e apoiados por veículos com metralhadoras pesadas. Vídeos mostram manifestações no Irã apesar de bloqueio da internet Outros testemunhos apontam para a presença de agentes em hospitais, onde feridos seriam presos, e para a recusa das autoridades em entregar corpos às famílias. Em Ardabil, no noroeste do país, um morador afirmou que agentes de segurança se instalaram em uma unidade de saúde para deter manifestantes feridos. Em Mashhad, no leste do Irã, relatos mencionam um número elevado de mortos e o uso de rajadas de tiros, além da circulação de veículos armados em cidades vizinhas. “Atiram contra a multidão com espingardas”, escreveu um leitor. Mensagens recebidas pelo veículo indicam que serviços de telefonia e SMS também sofrem interrupções, sobretudo à noite, e que até aplicativos nacionais deixam de funcionar. Um leitor relatou que, após determinado ponto, sair de casa passou a ser visto como risco de morte. Sem correspondentes estrangeiros no país, não é possível verificar de forma independente os relatos, embora descrições semelhantes tenham sido enviadas à imprensa de diferentes regiões. Guga Chacra: Em defesa das iranianas e iranianos Organizações de direitos humanos alertam que o apagão prolongado impede a confirmação de dados sobre vítimas. A ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, afirma ter confirmado ao menos 192 mortes, mas considera que o número real pode ser muito maior. A Hrana, outra organização com sede nos EUA, por sua vez, disse ter verificado a morte de 490 manifestantes e 48 integrantes das forças de segurança, além da prisão de mais de 10,6 mil pessoas em duas semanas de protestos. O Irã não divulgou um balanço oficial de mortos. Os protestos tiveram início em 28 de dezembro, motivados pela disparada dos preços e pelo agravamento da crise econômica. Com o passar dos dias, as manifestações ganharam um caráter mais amplo e passaram a questionar diretamente a elite clerical que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979. A insatisfação também se voltou contra a Guarda Revolucionária, força poderosa com interesses bilionários em setores estratégicos da economia iraniana. (Com agências internacionais).