Repressão mais brutal do Irã produz filas e filas de sacos com cadáveres: ‘É um banho de sangue’

O cenário é de “vítimas em massa”, a maior parte composta por “pessoas comuns”. O testemunho, relatado por um médico iraniano ao New York Times, ecoa outras vozes que, aos poucos, conseguem vir a público para tentar descrever ao mundo a realidade vivenciada no Irã desde o início das manifestações anti-governo que tomaram o país, há duas semanas. Em meio ao bloqueio quase total das comunicações imposto pelo governo, vídeos e depoimentos que conseguem ser coletados pela imprensa sugerem que forças de segurança conduzem uma das repressões mais mortais contra a agitação social em mais de uma década. — Vi com meus próprios olhos. Eles atiraram diretamente contra fileiras de manifestantes, e as pessoas caíam onde estavam — disse Omid, um iraniano de cerca de 40 anos cujo nome foi alterado por razões de segurança, à BBC, acrescentando que, em uma pequena cidade no sul do Irã, as forças de segurança abriram fogo contra manifestantes desarmados com fuzis de assalto do tipo Kalashnikov. — Estamos lutando contra um regime brutal com as mãos vazias. Apesar das limitações, uma imagem recorrente conseguiu sair do Irã: fileiras e mais fileiras de sacos para cadáveres. Vídeos publicados nas redes por ativistas da oposição mostram famílias chorando, reunidas em torno de corpos ensanguentados em sacos abertos. Em imagens exibidas pela televisão estatal iraniana, um funcionário de um necrotério, vestido com uniforme azul, aparece entre sacos cuidadosamente alinhados no chão de uma sala branca, sob luzes fluorescentes intensas. Nos hospitais, se antes as pessoas chegavam com ferimentos causados por balas de chumbo, agora elas dão entrada com ferimentos por arma de fogo. O número de mortos e feridos em todo o país é incerto. Grupos de direitos humanos têm dificuldade para contatar suas fontes dentro do Irã e seguir a metodologia que normalmente usam para verificar informações, mas dizem já ter contabilizado centenas de mortos. Enquanto estimativas mais conservadoras citam ao menos 650 óbitos, um alto funcionário do Ministério da Saúde iraniano afirmou que pelo menos 3 mil pessoas foram mortas em todo o país. A certeza, por enquanto, é uma só: tanto os que ainda apoiam o governo quanto os que estão nas ruas pedindo sua queda concordam que são dias de brutalidade como nunca tinham visto. Testemunhas relataram ter observado atiradores de elite posicionados em telhados no centro de Teerã e disparando contra multidões; protestos pacíficos que se transformaram abruptamente em cenas de carnificina e pânico quando balas atravessaram cabeças e torsos, fazendo corpos tombarem ao chão; e um pronto-socorro que atendeu 19 feridos por arma de fogo em apenas uma hora. À BBC Persian, um morador afirmou que manifestantes passaram a sair às ruas usando máscaras e roupas escuras para evitar identificação por câmeras de segurança. — Teerã virou um campo de batalha, com manifestantes e forças de segurança se posicionando e buscando abrigo nas ruas — disse um morador. — Em uma guerra, os dois lados têm armas. Aqui, as pessoas apenas gritam palavras de ordem e são mortas. É uma guerra de um lado só. Outros testemunhos apontam para a presença de agentes em hospitais, onde feridos seriam presos, e para a recusa das autoridades em entregar corpos às famílias. Em Ardabil, no noroeste do país, um morador afirmou que agentes de segurança se instalaram em uma unidade de saúde para deter manifestantes feridos. Em Mashhad, no leste do Irã, relatos mencionam um número elevado de mortos e o uso de rajadas de tiros, além da circulação de veículos armados em cidades vizinhas. “Atiram contra a multidão com espingardas”, escreveu um leitor. — O regime está em uma matança desenfreada — disse uma manifestante identificada como Yasi, afirmando que, enquanto marchava por uma avenida na capital na noite de sexta-feira, viu forças de segurança avançarem e atirarem na perna de um adolescente na frente da mãe dele. — [A mulher gritava:] ‘Meu filho! Meu filho! Eles atiraram no meu filho!’ ‘Banho de sangue’ Um dos maiores protestos nacionais contra o governo ocorreu na última quinta-feira, na 12ª noite de manifestações. Muitos parecem ter aderido aos atos depois dos apelos de Reza Pahlevi, filho exilado do último xá do Irã, deposto na Revolução Islâmica de 1979. No dia seguinte, o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, declarou que a República Islâmica não iria recuar. Tudo indica que o pior derramamento de sangue ocorreu após esse aviso, já que as forças de segurança da Guarda Revolucionária recebem ordens diretas dele, publicou a BBC. — Até bairros afastados de Teerã estavam lotados de manifestantes, lugares que você não acreditaria — disse um morador à rede britânica. — Mas, na sexta-feira, as forças de segurança só mataram, mataram e mataram. Ver isso com meus próprios olhos me deixou tão mal que perdi completamente o ânimo. Sexta-feira foi um dia sangrento. As pessoas passaram a ter medo de sair às ruas. Agora, muitos entoam slogans a partir de becos e dentro de suas casas. Nos últimos cinco dias, autoridades iranianas desligaram a internet, as linhas telefônicas internacionais e, em alguns momentos, até mesmo as conexões móveis domésticas. Isso deixou grupos de direitos humanos, jornalistas e famílias lutando para compreender a dimensão do que ocorreu. Os que relataram suas experiências à BBC Persian dizem que a realidade dentro do Irã é difícil de imaginar para quem está fora do país, e que o número de mortos divulgado até agora pela mídia internacional representa apenas uma fração de suas próprias estimativas. — Consegui me conectar por alguns minutos só para dizer que aqui é um banho de sangue — disse Saeed, empresário de Teerã, ao NYT. — Eu vi pessoalmente um jovem levar um tiro na cabeça. Testemunhei alguém ser baleado no joelho. A pessoa caiu no chão inconsciente, e então as forças de segurança se reuniram em torno dela. Reações diplomáticas Mais cedo nesta terça-feira, o presidente americano, Donald Trump, incentivou os manifestantes iranianos, instando-os a tomar instituições do país e a registrar os nomes de seus “assassinos e abusadores”. A declaração, feita nas redes sociais, terminou com o indício mais claro até agora de que o republicano está decidido a algum tipo de intervenção indireta: “A ajuda está a caminho”, escreveu. Ainda nesta terça, segundo a imprensa americana, altos funcionários devem discutir possíveis cursos de ação em uma reunião na Casa Branca. “Cancelei todas as reuniões com autoridades iranianas até que a matança sem sentido de manifestantes pare”, escreveu Trump, que no dia anterior anunciou tarifas de 25% sobre importações dos EUA provenientes de parceiros comerciais do Irã. Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia classificou a medida como “chantagem”e afirmou que as ameaças americanas de ataques contra o Irã são “categoricamente inaceitáveis”. Também nesta terça-feira, França, Alemanha, Espanha, Itália, Holanda, Reino Unido, Finlândia e Dinamarca anunciaram que convocaram os respectivos embaixadores do Irã em seus países para apresentar formalmente protestos contra as mortes. O Ministério das Relações Exteriores da Alemanha afirmou: “A repressão brutal do regime iraniano contra sua própria população é chocante”, enquanto o chanceler francês classificou os episódios como “violência de Estado desencadeada sem questionamentos contra manifestantes pacíficos”. O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, disse ter convocado o embaixador para “instar ao respeito aos direitos fundamentais dos iranianos”. Por sua vez, em visita diplomática à Índia nesta terça-feira, o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, afirmou acreditar que o governo iraniano está em seus “dias e semanas finais”, acrescentando que o regime carece de “legitimidade obtida por meio de eleições junto à população” e que, “se um regime só consegue se manter no poder pela força, então ele está, na prática, no fim”. (Com New York Times)