Um dia após afirmar que aguardará “gestos” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva antes de decidir se apoiará a reeleição do petista, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), participa nesta terça-feira de cerimônia do governo voltada à regulamentação da reforma tributária. Motta chegou a Brasília na noite de segunda-feira, vindo da Paraíba onde passava o recesso parlamentar, e acompanhou Lula no lançamento da plataforma digital da reforma na sede do Serpro, na capital federal. O evento foi desenhado pelo governo para reforçar a marca política do novo sistema tributário e consolidar o encerramento da etapa de regulamentação. Na ocasião, Lula sanciona o projeto de lei que cria o Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), tributo estadual e municipal que, junto com a CBS (federal), compõe o IVA dual. A mudança unifica tributos e é tratada pelo Planalto como vitrine institucional para 2026, com o argumento de que o novo modelo amplia transparência e simplifica a arrecadação. A participação de Motta ocorre após uma sequência de gestos do deputado que evidenciou sua estratégia de equilíbrio entre governo e oposição. Na semana passada, ele decidiu não comparecer ao ato do 8 de Janeiro promovido pelo Planalto para marcar os três anos dos ataques às sedes dos Três Poderes, repetindo a ausência registrada em 2025. A falta chamou atenção porque ocorreu poucos dias depois de o governo encaminhar ao Congresso o primeiro projeto do ano, que cria o Instituto Federal do Sertão Paraibano, com sede em Patos (PB), reduto eleitoral do parlamentar. No município, o pai do deputado, Nabor Wanderley (Republicanos), foi reeleito prefeito em 2024 e tenta se viabilizar como nome ao Senado na chapa governista no estado. Interlocutores do Planalto viram no envio do projeto um aceno ao comando da Câmara, em meio à tentativa de recomposição do diálogo após os desgastes de 2025. Ainda assim, Motta optou por não aderir ao simbolismo do 8/1. Nesta segunda-feira, durante evento em João Pessoa em que o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, oficializou apoio do governo ao pré-carnaval da capital paraibana, Motta foi questionado sobre o cenário eleitoral e afirmou que a definição sobre endosso a Lula dependerá de reciprocidade. — A política se constrói com reciprocidade. Nós temos que nessa construção política entender o que vamos ter de apoios e de gestos para decidir quem vamos apoiar. É isso que temos que construir de maneira muito tranquila e respeitosa para com a população do nosso estado — declarou. No mesmo evento, o presidente da Câmara também tratou com “tranquilidade” o veto presidencial ao projeto que altera regras de dosimetria das penas dos condenados do 8 de Janeiro. Motta lembrou que o texto foi aprovado com folga na Câmara e disse que o Congresso analisará a decisão do Executivo. Líderes do Centrão e da oposição avaliam que o veto tende a ser derrubado, mas ainda não há prazo para a votação, que dependerá de decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Aliados do deputado afirmam que a presença desta terça-feira em um evento de perfil institucional segue a linha adotada por Motta desde que assumiu o comando da Câmara: marcar posição sem assumir, por ora, alinhamento automático a qualquer campo e preservando margem de negociação com o Planalto, especialmente em ano eleitoral. Fontes da Secretaria de Relações Institucionais (SRI) afirmam que a ida de Hugo Motta está alinhada ao protagonismo do Congresso ao longo da tramitação da reforma tributária. Aliados do governo reforçam que Motta esteve presente em outros eventos do tema.