Em meio à repercussão de denúncias sobre preços considerados abusivos na orla do Rio publicado pelo O GLOBO — tema que levou o prefeito Eduardo Paes a afirmar, nas redes sociais, que estuda o tabelamento de valores — barraqueiros da Zona Sul afirmam que já avançam em uma proposta própria de regulação. A diretoria da Associação dos Barraqueiros das Praias da Zona Sul (Ascopra), que reúne cerca de 550 barraqueiros ativos nas praias da região, diz que trabalha na criação de uma tabela única de preços, com valores de referência para cadeiras, guarda-sóis e bebidas, construída a partir da realidade dos custos do setor. Ordenamento: Barraqueiros de Barra e Recreio apoiam tabelamento de preços nas praias estudado pela prefeitura Crueldade: MP denuncia responsável por hotel para cães após morte de cadela em Guaratiba Diretor da entidade, Marcio Oliver, conhecido como Marcinho, atua há mais de 40 anos em Ipanema, no Posto 8, e afirma que a maior parte das barracas já trabalha com preços visíveis ao público. — O barraqueiro que trabalha certo já tem a tabela de preços exposta. Quando surge uma história de alguém pagando R$ 50 num latão de cerveja, isso não representa a gente. Se isso aconteceu, a pessoa tinha que chamar a polícia ou a guarda. Não dá para generalizar e colocar todo mundo como criminoso — afirma. Marcinho, um dos diretores da Associação dos Barraqueiros das Praias da Zona Sul (Ascopra), diz que a entidade estuda a criação de uma tabela única de preços para cadeiras, guarda-sóis e bebidas na orla carioca Arquivo Pessoal Segundo ele, a repercussão das denúncias acabou atingindo quem atua dentro das normas. — A gente está sendo taxado como se estivesse sempre tentando passar a perna em alguém, e essa não é a realidade da maioria. Os barraqueiros que trabalham errado vão continuar trabalhando errado, mas quem trabalha certo não pode pagar essa conta — diz. Marcinho explica que há modelos diferentes de funcionamento ao longo da orla, o que influencia os valores. — Na minha barraca, a cobrança é feita no ato. Não tem 10%, não tem consumação. Mas existem outros formatos, com consumação mínima ou taxa de serviço, e isso varia de praia para praia — afirma. Ele também rebate críticas sobre o preço de cadeiras e guarda-sóis, apontando o custo elevado dos equipamentos. — Eu vi gente dizendo que compra cadeira por R$ 30. Se me levarem onde vende por esse preço, eu compro para todos os barraqueiros. Hoje, uma cadeira custa mais de R$ 200. Guarda-sol também. A pessoa quer conforto, quer estrutura, mas não quer pagar nada — diz. Marcinho ressalta que ninguém é obrigado a consumir nas barracas. — A pessoa pode chegar com a cadeira dela, guarda-sol, isopor, o que quiser. Para mim, é indiferente. A única coisa que eu peço é que não consumam vidro em frente à minha barraca, porque eu sou proibido de trabalhar com isso e zelo pela segurança — afirma. A Barraca do Hulk, em São Conrado: barraqueiros da Zona Sul defendem tabelamento de preços como forma de dar transparência e proteger quem trabalha dentro das regras Arquivo Pessoal A proposta de tabelamento, segundo a associação, não é rejeitada pelo setor — ao contrário. A defesa é que a medida seja construída com diálogo e critérios técnicos. — O ideal é um tabelamento, sim, para cadeiras, guarda-sóis e bebidas, mas feito com pesquisa e conversa com os barraqueiros. Não dá para se basear em um único caso, como o de quem ficou famoso por alugar cadeira a R$ 3. Ninguém entende essa matemática — diz. Hoje, segundo a Ascopra, os preços praticados na Zona Sul durante o verão variam dentro de uma média considerada comum: cadeiras entre R$ 20 e R$ 25; guarda-sóis a partir de R$ 30, dependendo do tamanho; água entre R$ 7 e R$ 8; refrigerantes a R$ 10; cervejas em latão entre R$ 15 e R$ 17; e caipirinhas a partir de R$ 25, variando conforme fruta, destilado e tamanho do copo. — Já estamos estudando a criação de uma tabela única, com a logomarca da associação, para ser usada em todas as barracas. Mas é preciso considerar que existem barracas com combos, drinques diferenciados e cardápios mais elaborados — afirma Marcinho. A iniciativa é apoiada por outros barraqueiros da Zona Sul. Em São Conrado, no Posto 13, Robson Vieira, conhecido como Hulk, proprietário da Barraca do Hulk há quase dez anos, também afirma que a discussão sobre preços tem afetado a imagem de quem trabalha corretamente. — Eu acho válido estudar o tabelamento, porque isso acaba manchando a reputação de quem trabalha certo. No meu caso, tudo é tabelado, tudo conforme as normas. Quem frequenta aqui sabe que nossos valores não mudaram por causa da alta temporada — diz. Integrante da diretoria da Ascopra, Hulk ressalta que os custos variam entre praias, mas defende regras mais claras para o público. — Logicamente, de praia para praia o custo muda, e isso influencia no valor. Mas uma tabela ajuda a dar transparência e evita desconfiança. Hoje as pessoas já chegam meio ressabiadas por causa de tudo que está acontecendo — afirma. Segundo ele, os reajustes feitos na barraca se limitam ao repasse de aumentos de fornecedores. — Reajuste a gente só faz quando a bebida sobe. Fora isso, mantemos o padrão que já está no cardápio — diz. Para a associação, a discussão sobre preços precisa avançar junto com a fiscalização direcionada. — O ideal seria uma fiscalização descaracterizada em barracas que já têm histórico de problema. Quem trabalha certo vai continuar sem dificuldade. Basta observar: as barracas mais cheias são as que atendem bem. Cliente volta onde é bem tratado — conclui Marcinho. Initial plugin text