Com a diminuição das inundações em algumas partes da Albânia nesta terça-feira, a poluição dos cursos d'água do país balcânico é apontada como responsável pelo agravamento dos impactos, em meio a temores de que as águas das enchentes, carregadas de lixo plástico, possam chegar ao Mar Adriático. Desde o início de janeiro, chuvas torrenciais deixaram 14 mil hectares inundados, cerca de 1.200 casas alagadas e pelo menos uma pessoa morta na Albânia. Veja também: tempestades de neve e gelo fecham aeroportos e afetam transportes em várias capitais da Europa Alpes franceses: número de mortos chega a seis em avalanches durante o fim de semana Embora as águas das enchentes estejam baixando em algumas partes do país, a força das torrentes danificou barragens e algumas áreas permanecem submersas. Mas os moradores locais e o primeiro-ministro do país disseram que o fluxo de resíduos para os cursos d'água agravou o problema, obstruindo rios já transbordando. 'Completamente sufocado' "Este ano foi um verdadeiro desastre. O leito do rio ficou completamente obstruído por lixo plástico, arrastado pelas águas transbordantes", disse à AFP Ramazan Malushi, morador de Shkozet, perto da costa do Adriático. Na sequência das inundações, que forçaram centenas de evacuações, o primeiro-ministro do país, Edi Rama, publicou uma foto de um rio entupido de lixo. "É isso que acontece quando se jogam garrafas na beira da estrada", disse o líder em sua publicação. O líder de esquerda foi criticado pela oposição do país pela forma como lidou com as inundações e pela alegada negligência com os canais de drenagem e cursos de água, depois de Rama ter rejeitado os apelos para declarar estado de calamidade pública. Mas Mihallaq Qirjo, da ONG Environmental Resource Centre, afirmou que o problema da má gestão dos rios já era antigo. Além dos resíduos, décadas de acúmulo de cascalho e sedimentos nos rios do país reduziram seu fluxo, disse Qirjo. 'Desabando' sob o peso dos resíduos As cheias na cidade portuária de Durrës, que foi duramente atingida pelas fortes chuvas, deixaram para trás montes de lama e resíduos em muitas das margens dos rios da cidade, segundo um jornalista da AFP nesta terça-feira. Sacos plásticos descartados, brinquedos sujos, garrafas e outros tipos de lixo também podiam ser vistos obstruindo os cursos d'água em algumas partes da cidade. Com o aumento da frequência das inundações devido às mudanças climáticas, as baixas taxas de reciclagem na Albânia estão agravando seu impacto Adnan Beci/AFP À medida que as águas da enchente descem em direção ao mar, há receios de que, tal como em tempestades anteriores, os resíduos sejam despejados no Adriático e possam ser transportados pelas correntes para outros países. Uma tempestade que atingiu a região no final de novembro deixou praias tão distantes quanto Dubrovnik, na Croácia, poluídas com resíduos que se acredita serem da Albânia — a mais de 100 quilômetros ao sul. "Rios e córregos estão colapsando sob centenas de toneladas de lixo", afirmou o biólogo Ferdinand Bego, da Universidade de Tirana. Com o aumento da frequência das inundações devido às mudanças climáticas, as baixas taxas de reciclagem na Albânia estão agravando seu impacto, disse Bego. Segundo ele, o país recicla apenas cerca de 15% de seus resíduos plásticos, sendo o restante descartado em aterros sanitários ou ilegalmente na natureza. Ele afirmou que o efeito da poluição plástica é abrangente e "polui gravemente todos os ecossistemas – solo, água, ar – com sérias consequências para a saúde". O governo de Rama adotou uma estratégia nacional sobre clima e energia e também planeja leis para punir crimes ambientais com mais severidade, como o descarte ilegal de lixo. De acordo com um relatório do Banco Mundial de 2024, a Albânia está entre as nações europeias com maior risco de desastres climáticos.