Temendo instabilidade, rivais do Irã no Golfo alertam EUA contra ataque para tentar derrubar regime

Liderados pela Arábia Saudita, os rivais árabes do Irã na região do Golfo Pérsico vêm contatando o governo de Donald Trump para pedir que não recorra a uma ação militar contra a República Islâmica, como ameaça desde o fim do ano passado. O republicano, que na segunda-feira anunciou tarifas de 25% contra parceiros comerciais do Irã, nesta terça-feira instou os manifestantes, que desde 28 de dezembro protestam contra o regime e que são alvo de uma repressão que deixou milhares de mortos, a tomar o controle de instituições, prometendo que "a ajuda está a caminho". Contexto: Entenda como guerra em Gaza enfraqueceu Irã e por que Venezuela alimenta vulnerabilidade do regime 'Regime silencia e mata': Sem contato com a família após apagão de internet, iraniana revive trauma da repressão em protestos Embora em público mantenham silêncio perante a crise e não esteja claro de qual ação os EUA podem lançar mão, Arábia Saudita, Omã e Catar vêm usando canais diplomáticos para advertir a Casa Branca de que uma tentativa de derrubar o regime abalaria os mercados do petróleo, impactando negativamente seus países econômica e politicamente e prejudicando a própria economia americana, afirmaram ao Wall Street Journal funcionários da região. De acordo com o jornal americano, os Estados árabes temem que ataques no Irã atrapalhem petroleiros que se movem pelo Estreito de Ormuz, a estreita passagem na boca do Golfo Pérsico que separa a República Islâmica de seus vizinhos árabes e pela qual passa um quinto dos carregamentos petrolíferos do mundo. Galerias Relacionadas Espaço aéreo vetado Funcionários sauditas garantiram a Teerã que o país não se envolverá em um potencial conflito ou permitirá que os EUA usem seu espaço aéreo para lançar ataques, em um esforço para se distanciar e tentar evitar qualquer ação americana, diz o jornal. Erfan Soltani: Irã marca primeira execução de manifestante detido em meio à onda de protestos antigovernamentais Segundo analistas ouvidos pelo WSJ, a Arábia Saudita é especialmente sensível à crescente precariedade da situação. O reino ordenou que a mídia local limitasse a cobertura e o apoio às manifestações para evitar uma retaliação iraniana. Embora os países do Golfo não se oponham ao enfraquecimento das capacidades militares e nucleares do Irã, preocupam-se com as alternativas que possam surgir caso haja uma escalada que leve à queda do líder supremo, Ali Khamenei. — Eles não apreciam o regime iraniano de nenhuma forma, mas têm uma grande aversão pela instabilidade — afirmou ao jornal Michael Ratney, que serviu como embaixador dos EUA na Arábia Saudita durante o governo de Joe Biden. — Quando se abre uma caixa de Pandora de mudança de regime, seja orgânica internamente ou instigada pelo exterior, cria-se uma ampla incerteza. 'Viva o xá!' e 'Pahlevi voltará': Quem é Reza Pahlevi, ex-príncipe herdeiro do Irã citado durante protestos no país Vídeos mostram manifestações no Irã apesar de bloqueio da internet Na avaliação dos líderes sauditas, há o risco de que a instabilidade possa desencadear protestos dentro de suas próprias fronteiras e possivelmente causar interrupções em seu ambicioso plano de desenvolvimento econômico e social, chamado Visão 2030, que visa a impulsionar o turismo e reduzir a dependência do reino em relação aos petrodólares. O controle exercido pelo regime iraniano ao menos provê ao Golfo alguma previsibilidade, disse Ratney, completando: "Uma vez que isso acaba, torna-se muito perigoso." Initial plugin text Limites para Trump No último ano, os EUA reduziram sua presença militar no Golfo e no Mediterrâneo, enviando alguns navios de guerra para se juntarem à campanha de Trump contra barcos narcotráficos no Caribe e no Pacífico. Atualmente, segundo a emissora americana ABC News, há 30 mil soldados americanos mobilizados no Oriente Médio e na região do Golfo Pérsico, incluindo 2.500 no Iraque e 1.000 na Síria. Além disso, existem seis navios da Marinha americana na região, incluindo três contratorpedeiros de mísseis guiados. Ao New York Times, uma autoridade dos EUA afirmou que os comandantes na região gostariam de ter mais tempo antes de qualquer possível ataque para consolidar as posições militares e preparar as defesas para eventuais contra-ataques do Irã. No caso de ataque, Teerã também prometeu retaliar contra quaisquer ativos dos EUA na região, e Trump prometeu revidar "em níveis nunca antes vistos", aumentando o risco de uma escalada rápida. Bloqueio de internet, caça à Starlink e coleta de parabólicas no Irã: Entenda como regime fecha comunicação em meio a crise De acordo com o Financial Times, os alvos poderiam incluir a infraestrutura militar e da Guarda Revolucionária iraniana, centros de comando e controle e depósitos de armas e suprimentos usados ​​pelo governo e suas milícias. Citando especialistas militares e ex-funcionários, o jornal britânico afirma que a ação poderia até se estender a ataques contra altos líderes iranianos — durante o primeiro mandato de Trump, os EUA mataram o comandante Qassem Soleimani. Mas os estrategistas militares dos EUA enfrentam imensos desafios na identificação de alvos que possam incentivar deserções e causar maiores falhas na capacidade do governo de reprimir os manifestantes. Lançar ataques militares “para proteger manifestantes da repressão do regime não é realmente um objetivo militar alcançável”, disse ao FT Dana Stroul, que atuou como subsecretária adjunta de Defesa para o Oriente Médio durante o governo Biden. Mas a operação bem-sucedida para capturar o líder chavista Nicolás Maduro em 3 de janeiro desatou especulações de que as opções de Trump poderiam incluir uma operação semelhante para decapitar o regime iraniano. Alguns assessores, porém, já alertaram Trump que atacar Khamenei seria muito mais complicado. — A grande diferença entre a Venezuela e o Irã é o acesso — disse Stroul. — Os alcances são grandes. As margens são muito pequenas. Autoridades americanas disseram que precisavam ter cuidado para que quaisquer ataques militares não tenham o efeito oposto — galvanizando a opinião pública iraniana a apoiar o governo — ou desencadeiem uma série de ataques retaliatórios que pudessem ameaçar o pessoal militar e diplomático americano na região.