'A graça é que ninguém consiga saber o que é mentira e o que é verdade', diz Chay Suede sobre solo com histórias de sua vida

Chay Suede não imaginava estrear nos palcos logo com um monólogo, mas encara o desafio a partir desta quinta-feira (15), no Teatro Casa Grande, no Leblon, com "Peça infantil — A vida e as opiniões do cavaleiro Roobertchay". Sob direção de Felipe Hirsch, que assina a dramaturgia com o escritor Caetano W. Galindo, o espetáculo mistura ficção com fatos da infância e da adolescência do ator em formato de pseudodocumentário. Em cena, discussões bem-humoradas sobre temas como fama, autenticidade e narcisismo. Eterno Didi: 'Adorável Trapalhão – O musical', que celebra a trajetória de Renato Aragão, chega ao Rio em fevereiro 'Vou com medo, mas vou': Thalita Rebouças estreia como atriz em musical para jovens inspirado na própria obra — A graça é que ninguém consiga saber exatamente o que é mentira e o que é verdade — opina Chay, que evita ao máximo dar qualquer spoiler muito aprofundado das histórias contadas na peça. — O fato de alguma parte da dramaturgia ser baseada na minha vida é menos importante do que a ideia em si, que é brincar com a realidade e com a autenticidade para fazer ficção. Inspirada por clássicos literários como "A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy", de Laurence Sterne, e “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, a trama acompanha um personagem com alma infantil que narra fatos dos anos iniciais de sua vida. Vestido de smoking preto, ele interage apenas com uma grande tela, que ajuda o próprio texto a também virar personagem. Na obra-prima inventiva e satírica de Sterne (que influenciou nomes como o próprio Machado de Assis, além de Virginia Woolf e Samuel Beckett), um anti-herói descreve, em tom de conversa, as mazelas da sociedade do século XVIII, numa "autobiografia" digressiva em que muitas vezes o protagonista também é o próprio texto, labiríntico. Chay Suede em cena do monólogo "Peça infantil — A vida e as opiniões do cavaleiro Roobertchay" Divulgação/Mayra Azzi De forma similar, no palco, o cavaleiro Roobertchay, com um olhar ingênuo e confiante de criança, tece reflexões sobre temas urgentes deste século, dentre eles, os males do próprio meio artístico. — É uma análise bem-humorada, mas também profunda, e que só tem graça e faz sentido porque eu sou uma parte dessa engrenagem, não é uma pessoa de fora do show business. Por isso aho que a peça é o oposto do blasé. Imagina, eu comecei num reality show de música, depois me tornei ator numa novela adolescente super popular que foi uma febre... A peça trata sobre esses temas, mas a partir da minha perspectiva. Não tem uma crítica distante, é uma crítica próxima, quente — comenta o ator. Uma (baita) ideia maluca Durante a reta final das gravações de "Mania de você" (2024), novela pela qual levou o prêmio APCA de melhor ator de televisão, Chay se viu em meio a um "cansaço artístico" que reacendeu seu desejo antigo de fazer teatro. Foi então que decidiu procurar o premiado diretor Felipe Hirsch, cujo trabalho acompanha de perto há anos e com quem sonhava atuar um dia. A partir do encontro, que logo envolveu também Caetano Galindo, parceiro do encenador em espetáculos como “Língua brasileira” e “Fantasmagoria IV”, a ideia de criar no palco um falso documentário, inspirado em obras como os filmes "Isto é Spinal Tap" (1984) e "Rolling Thunder Revue: a Bob Dylan story by Martin Scorsese" (2019), foi um dos primeiros consensos. Depois veio o fascínio pela vida de Chay pré-fama. — No processo, naturalmente fui contando muitas histórias da minha vida, até que um dia o Felipe me propôs a ideia, que ele fez questão de dizer que era maluca — lembra o ator. Felipe Hirsch, Caetano Galindo e Chay Suede Divulgação / Mayra Azzi O diretor complementa: — São raros os atores que têm a história, o reconhecimento popular, e o talento do Chay, e que também são tão conscientes do espaço que ocupam e de onde vêm. Além disso, as histórias nos permitem tocar em assuntos importantes nos quais venho trabalhando, como o que é a verdade hoje, o que é figura pública e o que é figura privada, e que histórias merecem ser contadas como verdadeiras ou não. Histórias outras Dos aspectos que mais fizeram o diretor se encantar pelas memórias de Chay, a relação do ator com a família é um dos destaques, e abriu muitas vertentes narrativas dentro dos doze capítulos que compõem o espetáculo. A influência começa no próprio título do monólogo, que mantém a caligrafia original do nome de batismo do ator, criado pelo avô. — Esse é um ponto muito importante da peça, que o nome dele seja tão fora do padrão. Manter o nome Roobertchay com os dois "o" já o coloca no estado de personagem — explica Felipe. As memórias também serviram para que Chay fizesse um mergulho interno curativo. — Às vezes a gente está tão acostumado a coisas que ficam só na nossa cabeça, que perdemos um pouco a referência, não sabemos se elas são bonitas, feias, assustadoras, graves. Quando você enxerga coisas que já conhece através da perspectiva de outros, e quando esses outros são dois artistas do tamanho do Felipe e do Caetano, isso muda tudo. Essas histórias todas hoje são outras. Vivi nesse processo alguns lutos e algumas alegrias também, vi beleza numas coisas que eu não tinha visto ainda, vi graça em outras em que tinha visto só tristeza e tragédia, e vice-versa — conta o ator. Chay Suede com o figurino de "Peça infantil — A vida e as opiniões do cavaleiro Roobertchay" Leo Martins/Agência O Globo Serviço Onde: Teatro Casa Grande, Leblon. Quando: 15 de janeiro a 1º de março. Que horas: em janeiro: qui a sáb, às 20h30. Dom, às 19h30. Em fevereiro: sex, às 20h30. Sáb, às 18h e às 20h30. Dom, às 19h30. Quanto: de R$ 160 (balcão 3) a R$ 220 (plateia vip). Classificação: 14 anos.