O deputado federal Arthur Lira (PP-AL) e seu filho, Álvaro Lira, entregaram motocicletas a cidadãos alagoanos em sorteios de Natal realizados por prefeituras do interior do estado. Na cidade de São Miguel dos Campos, na última quinta-feira, eles compareceram presencialmente ao evento para conceder os prêmios. No dia seguinte, em Teotônio Vilela, apesar de não terem ido ao município, as motos sorteadas continham seus nomes colados em um papel. Na cidade de Teotônio Vilela, a cerca de 90 km de Maceió, as cinco motos sorteadas também tinham os nomes do prefeito, Peu Pereira (PP), do deputado estadual Fernando Pereira (PP) e do ex-prefeito Joãozinho Pereira. Fernando e Joãozinho são irmãos, e também primos do ex-presidente da Câmara. Já em São Miguel, o maior prêmio foi um carro que continha o brasão da prefeitura. As motos estavam em nome de Fernando e Álvaro, que ocupa o cargo de gestor administrativo da cidade e é pré-candidato a deputado federal por Alagoas. Na segunda-feira passada, contudo, quando o sorteio foi realizado, a mesma moto estava com o nome de Lira. — A gente deu uma dividida na moto, eu e painho, e ano que vem eu fui convocado para ser duas. Uma minha e uma dele — brincou Álvaro, em conteúdo publicado pelo município nas redes sociais. Moto entregue com nome de Álvaro Lira estava com nome do pai antes da cerimônia Reprodução/Instagram Em seu perfil oficial, o filho de Lira afirmou que "mais do que prêmios, entregamos esperança, alegria e gratidão a quem faz a cidade crescer". Durante seu discurso no palco do evento, ele também ressaltou estar alegre por entregar os prêmios e "fortalecer a época natalina": — Muita alegria de estarmos aqui entregando esses prêmios, que já foram sorteados, que vocês já foram ganhadores, mas hoje se concretiza. Está sendo premiado um carro pela prefeitura, uma moto pelo deputado estadual Fernando Pereira, e uma moto dividida, minha com meu pai — frisou. Ao GLOBO, a assessoria de Lira alegou que, apesar das manifestações, eles não custearam a compra das motos sorteadas, e o uso do nome de Álvaro "teve caráter meramente informal": "Tratou-se de evento promocional realizado pela Associação Comercial junto com a prefeitura local. O uso do nome de Álvaro Lira no material exposto teve caráter meramente informal, apenas para identificar quem realizaria o sorteio do produto", diz o deputado em nota. Sorteio realizado em São Miguel dos Campos Reprodução/Instagram Em São Miguel, que possui 51.990 habitantes e fica a 50 km da capital, foram disponibilizados R$ 200 mil em prêmios em parceria com mais de 100 lojistas. A 15° edição do "Natal Premiado" movimentou cerca de 400 mil cupons na cidade, conforme informações divulgadas pela prefeitura, e ofertou itens como televisões, camas, eletrodomésticos e prêmio em dinheiro. Procurada pelo GLOBO, a gestão municipal ainda não se manifestou. Nas redes sociais, Lira escreveu que a ação "movimenta o comércio local, incentiva os comerciantes e leva benefícios diretos para a população", com todo o valor investido sendo revertido "para a economia de São Miguel". Ainda nas redes, o prefeito George Clemente (MDB) também afirmou que "o comércio sai fortalecido". "Uma ação que movimenta o comércio local, incentiva os comerciantes e leva benefícios diretos para a população. Quando iniciativas assim acontecem, todo mundo ganha: quem vende, quem compra e a cidade como um todo", publicou Lira. 'Lugar especial no coração' Com 38.053 habitantes, Teotônio Vilela sorteou 97 prêmios no evento "Natal dos Sonhos", que também contou com ampla divulgação nas redes sociais. Os cupons eram garantidos a cada R$ 30 reais em compras em lojas locais. O sorteio e a entrega dos prêmios foram no mesmo dia, somente com a presença de Peu. Em um painel de LED, além dos estabelecimentos descritos como "parceiros", as fotos de Álvaro, Joãozinho, Fernando e Lira apareciam como "apoio". Os políticos também receberam agradecimentos do prefeito, em sua rede social, por "tornarem o sonho possível". Motos entregues em sorteio realizado em Teotônio Vilela com nomes de Peu Pereira, Joãozinho Pereira, Fernando Pereira, Álvaro Lira e Arthur Lira Reprodução/Instagram Lira e Álvaro compareceram a Teotônio no final de dezembro para participarem da inauguração da pavimentação, de um auditório e de um espaço esportivo. Eles aproveitaram para entregar cestas básicas aos moradores e compartilharam fotos da visita nas redes, além de o deputado publicar que a cidade "tem um lugar especial no coração". "Cada retorno aqui é marcado por carinho, respeito e pela certeza de que vale a pena trabalhar por essa gente tão acolhedora", escreveu Lira. Em nota enviada ao GLOBO, a Prefeitura de Teotônio Vilela informou que o sorteio é realizado há duas décadas e "conta historicamente com o apoio e a participação de autoridades públicas e lideranças políticas". Em relação aos deputados, a gestão afirmou que eles participaram "sem qualquer vínculo institucional com a organização do evento ou com a prefeitura", comparecendo "de forma informal e voluntária". "A prefeitura reafirma seu compromisso com a transparência, com o fortalecimento da economia local e com a valorização de iniciativas que promovem desenvolvimento, geração de renda e participação popular", diz o comunicado. Evento "Natal Premiado", em São Miguel dos Campos, e o "Natal dos Sonhos", realizado em Teotônio Vilela Reprodução/Instagram Grupo Pereira e Codevasf Além dos sorteios realizados, os políticos costumam aparecer juntos em eventos e inaugurações locais. Enquanto era presidente da Câmara, conforme reportagem do GLOBO, Lira destinou R$ 1,1 milhão em emendas parlamentares para uma obra de pavimentação da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), à época comandada justamente por Joãozinho. O motivo foi a colocação de paralelepípedos em ruas da localidade conhecida como Atoleiro, no município de Junqueiro, pela empresa Grupo Pereira. A organização tem como sócias Zirlene Pereira, mãe de Joãozinho e Fernando, e sua irmã, a ex-deputada Jó Pereira. Àquela altura, Joãozinho afirmou que não houve pagamento ao Grupo Pereira, enquanto Lira argumentou que "avaliar o uso de um maquinário, se faz parte da obra ou se foi utilizado apenas para ilustrar uma ação" não fazia parte de suas "funções institucionais".