A condenação do ex-padre Bernardino Batista dos Santos a 24 anos e nove meses de prisão por estupro de vulnerável trouxe às vítimas a expectativa de que novas denúncias venham à tona. Advogados que representam as vítimas afirmam que ainda há investigações em aberto e que a repercussão da sentença pode encorajar pessoas que, por medo ou descrença, nunca formalizaram acusações contra o religioso. Cinco presos famosos deixam Tremembé: Transferências fazem parte de movimento para diluir fama do presídio Desaparecimento em Bacabal: Menino encontrado não sofreu violência sexual, diz governo do MA — Nossa expectativa é que, com essa condenação, outras vítimas se encorajem a denunciar. Ouvi muitas pessoas que achavam que esse processo não ia dar em nada — afirmou a defesa das vítimas, ressaltando que há relatos de casos que permaneceram anos sem chegar ao conhecimento da Justiça. Uma das vítimas do padre, Carolina Rocha, cujo caso já prescreveu, diz que a decisão judicial traz um sentimento de validação e esperança após anos de descrédito. Ela relata que tinha oito anos quando sofreu os abusos e afirma ter tido contato, ao longo do tempo, com dezenas de outras histórias semelhantes. — O sentimento é de validação, de mostrar que os fatos realmente ocorreram. Sempre fui desacreditada pela sociedade. Agora, há esperança. Eu não quero que isso aconteça com outras crianças — disse Carolina. Segundo ela, o caso ultrapassa a esfera individual e expõe a necessidade de mudanças legais. Carolina participou de uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais para defender alterações no Código Penal, com a criação de agravantes específicos para crimes cometidos por lideranças religiosas. — Tive contato com 73 casos. Se um deles resultou numa condenação tão significativa, isso mostra que a responsabilização é possível — afirmou. Bernardino Batista dos Santos, de 78 anos, foi condenado por um crime ocorrido em 2016, quando a vítima tinha 3 anos. O caso foi o único, entre dezenas de denúncias, que ainda não havia prescrito. A sentença, em primeira instância, também determinou o pagamento de R$ 30 mil por danos morais. Cabe recurso. De acordo com a advogada Ana Carolina Oliveira, mais de 60 vítimas já foram identificadas, e os relatos apontam para abusos que teriam começado em 1975, em diferentes contextos, incluindo um sítio no município de Tiros, no Alto Paranaíba, e paróquias onde o então sacerdote atuou. — A decisão reconhece a gravidade das condutas, a especial vulnerabilidade das vítimas e reafirma que nenhuma posição social ou religiosa pode servir de escudo para a impunidade — afirmou a advogada. O ex-padre chegou a ser preso em outubro de 2024, mas foi solto pouco mais de um mês depois, passando a usar tornozeleira eletrônica. Ele segue monitorado, segundo a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais. A Arquidiocese de Belo Horizonte afastou Bernardino do exercício do sacerdócio em 2021, após o surgimento das denúncias. O processo canônico foi concluído e analisado pelo Vaticano, que confirmou o afastamento definitivo.