Furto de combustível volta a crescer no Brasil após seis anos de queda

FÁBIO PESCARINI E PAULO EDUARDO DIAS SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) A imagem de gasolina jorrando como se fosse um poço de petróleo nos filmes da TV chamou a atenção na zona rural de Orlândia, cidade do norte paulista, a 365 km da capital paulista. O caso, ocorrido em outubro do ano passado, ajudou a inflar a alta nas estatísticas de furto de derivados de petróleo transportados em dutos no país. Segundo dados da Transpetro, subsidiária da Petrobras responsável pela logística de combustíveis, em 2025 foram 31 casos de derivação clandestina, ou seja, intervenções criminosas para furtar petróleo e seus derivados com perfuração em dutos enterrados ou aparentes. Em 2024, foram 25 registros. A quantidade de furtos ou tentativas quebrou uma sequência de quedas nesse tipo de criminalidade desde 2018, quando houve o recorde de 261 casos. A série histórica começou em 2015, e o primeiro caso registrado pela Transpetro foi em 2011. Os números cresceram apesar do investimento de R$ 100 milhões por ano em ações preventivas, como sensores que mapeiam em tempo real diferenças de pressão nos dutos —indicador de invasão—, inteligência artificial, e uso de drones e escolta armada para fiscalização, além da inauguração de um centro de operações no Rio de Janeiro. "Apenas uma derivação clandestina é capaz de levar à morte de pessoas, provocar danos irreparáveis ao meio ambiente ou colocar em risco o abastecimento de combustíveis em infraestruturas críticas", diz Sérgio Bacci, presidente da Transpetro. Questionadas, nem a empresa, nem a Petrobras, informaram o valor do prejuízo. "A divulgação de volumes ou valores associados a furtos em dutos pode incentivar a prática criminosa. Por isso, a Transpetro não compartilha essas informações", diz a subsidiária. São Paulo puxou a alta. Com 22 registros, o estado foi responsável por 70% dos furtos no país no ano passado —em 2024 haviam sido 17 ocorrências. Em contrapartida, a estatística despencou no Rio de Janeiro. Foram registradas 13 ações criminosas no estado em 2020, contra uma em 2025. Segundo a estatal, essa redução é resultado da eficácia de ações integradas com autoridades de segurança pública e do trabalho preventivo. Sem citar números das operações, a Secretaria da Segurança Pública paulista afirma que tem intensificado as ações de enfrentamento aos crimes de derivações clandestinas. A pasta diz que a prática representa risco à segurança da população, ao meio ambiente e à infraestrutura crítica do estado. "As forças de segurança do estado seguem atuando de forma integrada para reprimir esse tipo de crime e responsabilizar os autores", afirma. "O aumento das derivações clandestinas em São Paulo não pode ser interpretado como evento episódico, mas como um risco estrutural e sistêmico", afirma Bacci, em nota. São Paulo é um mercado promissor para esse tipo de crime, pois conta com importantes dutos que ligam refinarias —como a de Paulínia, a maior do Brasil, na região de Campinas. O estado é atravessado pelo oleoduto São Paulo-Brasília, o maior do país em extensão e volume movimentado (962 km, capacidade para transportar cerca de 800 mil m³ de petróleo e derivados por mês). Além disso, São Paulo tem a maior malha de dutos do país e um mercado consumidor robusto e contínuo, o que assegura rápida absorção do produto furtado, diz Bacci. A infraestrutura logística e viária densa também facilita o escoamento clandestino e a pulverização da mercadoria ilícita. Na ocorrência de Orlândia, em uma fazenda no limite com o município de Sales Oliveira, houve forte odor por causa da gasolina que jorrou, risco de explosão e contaminação ambiental, segundo a prefeitura disse na época. Um homem foi preso em um matagal. Segundo a polícia, ele afirmou que havia ido até a fazenda durante a noite com outros quatro comparsas —os demais conseguiram fugir. Um caminhão-tanque, para onde seria feita a transposição do combustível, foi abandonado no local. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirma que as investigações em andamento pela Polícia Civil de São João da Barra resultaram na instauração de um inquérito policial. O suspeito permanece preso preventivamente (sem prazo). "As apurações seguem com a análise de um aparelho celular apreendido, encaminhado ao Instituto de Criminalística para extração de dados, além da aguardada resposta a ofícios enviados à Transpetro", diz a pasta. A tática no caso é padrão entre as quadrilhas, explica a subsidiária da Petrobras. Geralmente, elas agem à noite, e levam o combustível furtado em caminhões-tanque ou pipa, ou ainda em veículos adaptados. De acordo com histórico de ocorrências, pessoas especializadas em ferramentaria participam das ações, com trabalho de perfuração dos dutos de aço e instalação de válvulas improvisadas. Mangueiras como as de bombeiros são usadas para levar o combustível aos caminhões. Na nota, o presidente da Transpetro pede mais ação das forças de segurança para os números voltarem a cair. Ele também cobra mais rigor na legislação contra o crime. Há dois projetos em tramitação no Congresso Nacional sobre o tema, que tipificam crime de furto e roubo de combustíveis. Um é do deputado Juninho do Pneu (União-RJ), e outro da senadora licenciada Simone Tebet (MDB-MS), atual ministra do Planejamento do governo Lula. O de autoria do deputado aguarda tramitação no Senado e o da ex-senadora espera tramitação na Câmara dos Deputados. O de autoria do deputado aguarda tramitação no Senado e a da ex-senadora espera tramitação na Câmara dos Deputados.