Vivi para contar: 'Minha casa vira uma sauna', na favela da Babilônia, idosa dorme em rede e com roupa molhada para suportar calor extremo no Rio

Aos 73 anos, a aposentada Maria Irene Rocha do Nascimento enfrenta o calor extremo de diferentes formas dentro de casa, no alto do morro da Babilônia, na Zona Sul do Rio. Morada há mais de 50 anos e cearense, ela narra uma rotina de dificuldades com a chegada do verão, a constante queda de luz e falta de água, elementos essenciais para o enfrentamento do calor. A localidade é uma das áreas mapeadas pela pesquisa sobre pobreza de resfriamento, é uma parceria entre a ONG Revolusolar, a Universidade de Utrecht, na Holanda, a Universidade Federal Fluminense (UFF) e o Centro Universitário La Salle (Unilasalle), com financiamento da Organização Holandesa para a Pesquisa Científica (NWO). A pesquisa internacional instalou sensores de temperatura nas casas e mobilizou moradores para registrar diários de calor. O objetivo é medir o impacto do calor extremo dentro das residências, relacionar os dados científicos à rotina das famílias e subsidiar políticas públicas para territórios populares. Calorão no Rio deve diminuir nos próximos dias, diz Inmet Calorão continua nesta terça-feira no Rio: máxima deve chegar aos 39 graus; veja a previsão 'Minha casa vira uma sauna', diz idosa sobre calor o Rio Pesquisa de calor feita com moradores da comunidade Babilônia, no Leme. Na foto Maria Irene Rocha do Nascimento , 73 anos , com ventilador encima dela e dorme na rede por achar ser mais fresco. Na casa dela só tem uma janela. Fabiano Rocha/ O GLOBO "Dentro de casa parece uma sauna. O sol bate o dia inteiro e só vai embora quando anoitece. Tem dia em que eu prefiro ficar no quintal do que entrar, porque o calor fica preso nas paredes. Nunca foi assim. Eu moro aqui há décadas e sei diferenciar calor de sofrimento. Quando a pesquisa começou, no meio do ano, estava frio. Eu respondia às perguntas sem parar muito para pensar. Agora, com o sensor instalado e com esse verão, eu sinto no corpo o que está sendo medido. Minha casa é simples, com pouca ventilação e apenas uma janela que quase não bate vento. O calor não circula. Mesmo com ventilador ligado, não dá vazão o tempo todo. A conta de luz pesa, e a gente aprende a economizar. Quando falta luz, a situação fica insustentável. Sem energia, a gente fica sem água, sem ventilação, sem descanso. Quando isso acontece eu durmo de roupa molhada na rede porque na cama fica muito calor. E sou obrigada a tomar banho de balde, água que pego de uma cisterna que os moradores compartilham. Pesquisa de calor feita com moradores da comunidade Babilônia, no Leme. Na foto Maria Irene Rocha do Nascimento , 73 anos , com ventilador encima dela e dorme na rede por achar ser mais fresco. Na casa dela só tem uma janela. Fabiano Rocha / Agência O Globo É difícil até para cozinhar. Minha cozinha não tem janela, então, quando vou fazer o feijão, deixo a penela no fogo e espero do lado de fora para não derreter de calor. É muito quente em qualquer lugar aqui. Você vai para a cozinha, o suor desce. Para cozinhar é um sofrimento. Não tem janela, não tem saída de ar. Subir e descer escada no morro com esse calor também é muito difícil. Chego em casa e a primeira coisa é ligar o ventilador. Senão não dá nem para ficar".