O grande teste para a imprensa em 2026

Em 2026, enquanto o Brasil se prepara para mais uma eleição presidencial em ambiente de alta polarização e o mundo assiste perplexo ao embaralhamento da ordem multipolar por parte de Donald Trump, o jornalismo atravessa um dos momentos mais desafiadores de sua história recente. Não se trata apenas de uma revolução do modelo econômico ou tecnológica. É uma disputa aberta pela credibilidade da informação, com impacto direto na preservação da democracia. O mais recente relatório do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, elaborado com base em entrevistas com 280 executivos de mídia em 51 países, revela um dado eloquente: neste ano apenas 38% dizem estar confiantes no futuro do jornalismo, queda acentuada em relação a 2022. O pessimismo não surge do nada. Reflete um ambiente em que a confiança nas instituições jornalísticas continua em declínio, enquanto ataques políticos populistas de diferentes lados do espectro ideológico à imprensa se consolidam como estratégia deliberada. No Brasil, a tática é conhecida. A desqualificação sistemática do jornalismo profissional, tratado como inimigo, partido ou ator político ilegítimo, tornou-se parte do repertório eleitoral há décadas, com ênfase dramática a partir da ascensão do bolsonarismo, mas não restrita a ele, como mostra a recente onda de ataques a jornalistas vindos da esquerda em virtude das investigações das relações entre o Judiciário e o Banco Master. O objetivo não é rebater reportagens, mas minar a própria ideia de que fatos existem e são passíveis de apuração jornalística. Quando tudo vira “narrativa”, a verdade perde valor, e o consumidor de informação (eleitor) perde referência. Esse cenário se agrava com outro dado destacado pelo relatório: o afastamento cada vez maior dos jovens das notícias. Uma parcela crescente das novas gerações evita ativamente o noticiário tradicional e se informa por vídeos curtos, influenciadores e plataformas cujo critério principal é engajamento, não verificação. Não é desinteresse pela política, mas rejeição a formatos, linguagens e marcas que não dialogam com sua experiência digital. Em ano eleitoral, isso significa uma campanha disputada em ambiente opaco, pouco ou nada regulado e altamente suscetível à desinformação. A tudo isso soma-se a rápida mudança do modelo de negócios de mídia. O relatório aponta que ferramentas baseadas em inteligência artificial e sistemas de resposta automática já provocam queda média de 33% no tráfego vindo de mecanismos de busca, com projeção de até 43% nos próximos três anos. O mesmo estudo que descreve esse quadro pessimista aponta os caminhos para a reação do jornalismo. Diante do esgotamento da lógica do clique, cresce entre os veículos a aposta em conteúdo exclusivo, análise qualificada, jornalismo investigativo e reportagens de impacto, capazes de gerar valor para o leitor e reconstruir a confiança. A lógica deixa de ser volume e passa a ser relevância. Isso fez a diferença, aqui e no mundo, durante a pandemia de Covid-19, quando a imprensa foi fundamental ao enfrentar o negacionismo de líderes políticos e veicular as orientações da ciência. Essa resiliência será crucial no Brasil, às vésperas de uma eleição decisiva. Em meio a ruído, manipulação e ataques a profissionais, o jornalismo que apura, contextualiza e explica pode não dominar os algoritmos, mas ainda é o que faz a diferença no debate público. O relatório do Instituto Reuters mostra que cresce a percepção, entre editores, de que a melhor estratégia para o jornalismo é reafirmar sua função pública e usar a seu favor a ainda incipiente revolução tecnológica provocada pela IA generativa. Se, na cobertura eleitoral, a imprensa conseguir transformar desconfiança em credibilidade e dispersão em contexto, navegando em meio à polarização, terá cumprido um papel que nenhuma tecnologia é capaz de substituir. Um teste não só para nós, mas para a própria democracia.