Hospital no Irã registra mais de 400 feridos com tiros nos olhos em meio a repressão a protestos: ‘É como um filme de guerra’

Um oftalmologista na capital iraniana registrou mais de 400 ferimentos nos olhos provocados por disparos de arma de fogo em um único hospital, em meio à intensificação da repressão das autoridades iranianas aos protestos que se espalham pelo país. Médicos afirmam que as equipes de saúde estão sobrecarregadas e enfrentam dificuldades para atender o grande número de feridos. Ao jornal britânico The Guardian, três profissionais afirmaram na segunda-feira que hospitais e alas de emergência estavam lotadas de manifestantes baleados, e que os ferimentos atingem principalmente a cabeça e os olhos — padrão que organizações de direitos humanos dizem ter sido observado também durante os protestos massivos de 2022. — [As forças de segurança] estão deliberadamente atirando na cabeça e nos olhos. Eles querem danificar a cabeça e os olhos para que as pessoas não consigam mais enxergar, a mesma coisa que fizeram em [2022]— afirmou um médico em Teerã, acrescentando que muitos pacientes tiveram de passar por remoção dos olhos e ficaram cegos. Desafio a Trump: Irã agiliza julgamento de manifestantes, e ONG teme haver ‘muitos casos’ similares a jovem condenado à morte ‘É um banho de sangue’: Repressão mais brutal do Irã produz filas e filas de sacos com cadáveres As manifestações começaram em 28 de dezembro, após uma queda abrupta no valor da moeda iraniana, e desde então se transformaram no maior movimento de protesto contra o governo desde 2009. Todas as noites, dezenas de milhares de pessoas têm ido às ruas em diferentes cidades, entoando palavras de ordem como “morte ao ditador”, em referência ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Diante da escalada, autoridades bloquearam, desde a última quinta-feira, o acesso à internet e à telefonia móvel no país. Organizações de direitos humanos acusam o governo de se aproveitar do apagão de comunicações para conduzir uma repressão violenta contra os manifestantes. Segundo a Human Rights Activists News Agency (HRANA), ao menos 2 mil pessoas morreram nos protestos, sendo mais de 90% manifestantes, e mais de 16,7 mil pessoas foram presas. O número de mortos, que ainda deve aumentar, já supera em quatro vezes o total registrado durante os protestos de 2022, que duraram meses e foram desencadeados pela morte de Mahsa Amini. À época, a reação das autoridades já havia sido considerada especialmente violenta. ‘Como em filmes de guerra’ Médicos ouvidos pelo veículo britânico relataram suspeitar que o total de vítimas fatais seja maior do que os números divulgados. Eles observaram um aumento significativo no número de feridos chegando aos hospitais logo após o corte da internet. Na noite de terça, a emissora americana CBS informou, citando uma fonte dentro e outra fora do Irã, que o número de mortos é de cerca de 12 mil, com a ressalva de que a cifra pode chegar a 20 mil. O site de notícias Axios afirma que fontes de inteligência de Israel estimam o total de mortos em 5 mil. — É como em filmes de guerra, com soldados feridos sendo atendidos em campo aberto. Falta sangue, faltam suprimentos médicos. Parece uma zona de guerra — disse um médico, enquanto seu colega relatou que, por falta de espaço nas enfermarias, pacientes feridos precisaram ser atendidos do lado de fora, sob “temperaturas congelantes”. Contexto: Trump ameaça o Irã em caso de execução, enquanto regime se prepara para cumprir 1ª pena de morte Os profissionais afirmam que o bloqueio das comunicações dificultou o contato entre equipes médicas e serviços de emergência. Os tipos de ferimentos observados levantaram suspeitas de que as autoridades estavam deliberadamente mirando os olhos dos manifestantes, uma acusação reforçada por organizações de direitos humanos. Há registros de que as forças de segurança usaram espingardas que disparam cartuchos de chumbo metálico, além de fuzis com munição real. Relatos também indicam que forças de segurança entram periodicamente nos hospitais para prender manifestantes feridos. — Meus colegas estão angustiados, exaustos e horrorizados. Muitos choram durante o trabalho — afirmou um médico, acrescentando que um colega foi ferido a caminho do hospital, após ser baleado pelas forças de segurança. — Os olhos foram atingidos por chumbinho de espingarda, e isso foi deliberado. Estão atirando para matar. Um colega relatou ter retirado cerca de 20 projéteis do corpo de um único manifestante. Há também relatos de ferimentos nos genitais. Segundo o Abdorrahman Boroumand Center for Human Rights, ao menos uma jovem está em estado crítico após ter sido baleada na região pélvica durante os protestos. Ao Guardian, um porta-voz da organização disse que “o conjunto de evidências demonstra que, mesmo ao utilizar armas consideradas ‘menos letais’, a República Islâmica mira deliberadamente órgãos vitais, transformando esses instrumentos em meios de mutilação sistemática e incapacidade permanente para aterrorizar os manifestantes”. Fisiculturista, estudante de moda e jogador de futebol: Conheça vítimas de repressão a protestos no Irã Múltiplas vítimas O governo iraniano acusa os manifestantes de serem responsáveis pela violência. As autoridades divulgaram vídeos que dizem mostrar sabotadores estrangeiros e apontaram imagens de manifestantes agredindo policiais, além de ataques atribuídos a um grupo militante sunita que resultaram na morte de um chefe de polícia e na depredação de mesquitas. Segundo a HRANA, ao menos 135 pessoas ligadas ao governo iraniano morreram durante os protestos. Por outro lado, manifestantes que conseguiram contornar o apagão de comunicações relataram que as forças de segurança atacaram protestos pacíficos. — Estávamos apenas gritando “Javid Shah” [Vida longa ao rei] quando pessoas à paisana se infiltraram e atiraram à queima-roupa, pelas costas, diretamente na cabeça das pessoas. Fugimos sem saber o que aconteceu com os mortos — afirmou um jovem de 20 anos. Por que o Irã vive a maior onda de protestos desde 2022? Vídeos enviados por ativistas ao Guardian mostram um manifestante caído no chão, com sangue saindo pela boca, após repressões registradas na cidade de Fardis, na província de Alborz, a oeste de Teerã. Em uma das gravações, uma pessoa grita pedindo ajuda enquanto o homem ferido permanece imóvel. Apesar da repressão, os protestos chegaram ao 17º dia, com milhares de pessoas ocupando as ruas todas as noites. Médicos alertam, no entanto, que a dimensão da violência não está sendo plenamente captada fora do país. — As imagens e os dados divulgados pela mídia internacional não representam nem 1% da realidade, porque a informação simplesmente não chega — disse na segunda-feira um médico que deixou o Irã ao Center for Human Rights in Iran, nos EUA. — Foi uma situação de múltiplas vítimas. Nossas instalações, o espaço disponível e o número de profissionais estavam muito aquém da quantidade de feridos que chegavam.