ANDRÉ FONTENELLE FOLHAPRESS O gabinete do primeiro-ministro Sébastien Lecornu sobreviveu, nesta quarta-feira (14), a duas moções de censura na Assembleia Nacional, apresentadas separadamente pela ultraesquerda e pela ultradireita. O motivo de ambas foi a aprovação na semana passada, pelo Conselho Europeu, do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. No sistema político francês, a moção de censura é um instrumento para a oposição derrubar o governo. É necessário o voto favorável da maioria absoluta dos 577 deputados -ou seja, 288 votos. O primeiro voto, proposto pela esquerda, obteve 256 votos, e o segundo, da direita, atingiu apenas 142. Com isso, Lecornu fica no cargo. As tentativas de derrubar o primeiro-ministro foram votadas em separado porque a agremiação da ultraesquerda LFI (França Insubmissa) se recusou a apoiar a proposta apresentada pelo partido de ultradireita RN (Reunião Nacional). Ainda assim, mesmo unidas, as duas siglas não teriam os 288 votos necessários para aprovar a moção. Lecornu acusou os dois extremos do plenário da Assembleia Nacional de sabotagem e de enviar ao mundo a imagem de uma França dividida em um momento de tensão global, em meio às crises da Venezuela, do Irã e da Groenlândia. "Neste momento, protocolar moções de censura tem um impacto, e ele será pago pelo povo francês. É o momento de privar a França de estabilidade?", perguntou. Tanto esquerda quanto direita acusam Lecornu e o presidente Emmanuel Macron de terem traído os agricultores franceses ao não barrarem o tratado UE-Mercosul. A França foi voto vencido no Conselho Europeu. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, é aguardada em Assunção, no Paraguai, no sábado (17), para a assinatura formal do documento. Os produtores rurais ocuparam Paris com tratores duas vezes nos últimos dias e continuam bloqueando estradas em alguns pontos do país. Eles também se queixam das medidas draconianas para conter a dermatose nodular contagiosa, uma zoonose que atingiu parte do rebanho bovino francês. O governo prometeu propor em breve uma lei que reforce ainda mais a proteção aos agricultores, embora eles já recebam subsídios bilionários da União Europeia. O resultado das votações desta quarta era esperado, já que o Partido Socialista, da esquerda moderada, havia anunciado que não apoiaria nenhuma das moções. Os 69 deputados do PS eram indispensáveis para a vitória da oposição -faltaram 32 votos para que a moção da ultraesquerda fosse bem-sucedida. Embora não façam parte do governo, os socialistas decidiram apoiá-lo pontualmente, a pretexto de arrancar concessões. A principal delas foi o congelamento da reforma das aposentadorias, cuja idade mínima passaria de 62 para 64 anos, e agora está em 62 anos e 9 meses. Lecornu é o premiê da França desde setembro. Governa graças a uma frágil coalizão de centro-direita, que não dispõe da maioria parlamentar. Neste momento, ele enfrenta problemas para aprovar o orçamento de 2026. "Estamos em 14 de janeiro, a França não tem orçamento. Os dois grupos que protocolaram as moções de censura são os que mais fizeram obstrução", acusou o primeiro-ministro. No início da semana, Lecornu aventou a possibilidade de uma dissolução da Assembleia Nacional, caso uma das moções de censura fosse aprovada. A atitude foi vista como uma forma de pressionar a oposição moderada a apoiá-lo, já que as pesquisas apontam a RN de ultradireita, como favorita em caso de eleições legislativas antecipadas. A RN é o partido de Marine Le Pen, líder nas sondagens para a eleição presidencial de 2027. No ano passado, porém, ela foi condenada a cinco anos de inelegibilidade por desvio de fundos do Parlamento Europeu. O julgamento de seu recurso começou na terça (13) e a sentença deve levar meses para ser anunciada.